Estávamos no estaleiro Bonfim arrumando os equipamentos no aguardo de algum serviço que aparecesse. Estavam também o José Lauro, um mergulhador dos bons, mas muito louco e o Mario Magalhães que tinha comprado uma lancha e estava reformando para levá-la para o Maranhão e que inclusive tinha trabalhado para mim no Pandellis em Itaparica em 1979.
Certo dia José Lauro me disse que o hélice, por um processo natural das correntes marinhas, estava todo desenterrado. Então a partir desta data, as 14 toneladas de bronze já não saiam da cabeça, e agora ela tinha de vir todinha e embarcada.
Efetuamos um mergulho inicial de vistoria quando a encontramos solta no espaço e apenas presa pelo eixo, embora fosse de aço e com 50 cm de diâmetro. Era só soltá-la, explodi-la em pedaços, embarcá-la e pronto.
Sabendo da nossa intenção, Mário Magalhães com um papel timbrado da Oceaneering, solicitou uma permissão à Capitania dos Portos com prazo de trinta dias para efetuar um levantamento. Isto praticamente nos criou um impedimento. Mas, já estávamos com tudo arrumado, já havíamos mergulhado e retirado o cap de proteção da porca de fixação em formato de ogiva e o tínhamos trazido para o estaleiro, quando inclusive na volta com o mesmo a reboque e amarrado em um lift bag, fomos interpelados pela lancha da Capitania comandada pelo sargento Pitombo, e que foi contornado. Os tempos eram outros e valia mais a amizade.
Restava retirar a porca desenroscando-a, sacar o hélice e detoná-la, partindo agora em quatro pedaços que seriam embarcados pela noite.
Gilberto preparando a dinamite.
Solicitei uma licença legal na Capitania, embora soubesse ser praticamente impossível, apenas para ganhar tempo e ir tocando. Quando viesse a resposta já teria tudo terminado.
Aí foi que o Mário entrou atrapalhando tudo, já se filiando ao Alaim, que mandava recado que se eu não ia tirar que ele ia. Eu já estava querendo encontrá-lo no "apertado" para resolver este assunto, e eles por baixo sabotando, quando então o dia chegou.
Foi em uma manhã no escritório do estaleiro que nos encontramos. Fechei as duas portas, a que dava para a rua e a que dava para a oficina e interroguei sobre o assunto e ele me disse que o hélice estava lá e era de quem tirasse primeiro.
Com os funcionários do estaleiro apreensivos então eu lhe disse que tinha riscado o meu nome lá e que a partir de então era minha. E, para finalizar a conversa, falei que se ele não dissesse em voz clara que ele era descarado eu ia lhe mostrar no braço. "Tá veio, sou descarado mesmo e deixe só é eu sair daqui", ele respondeu. Daí acabou meu problema com o Mário. Ele até teve sorte que meu amigo Bugudinho, cuja mão era de chumbo e estava na "parada", não se fazia presente.
DINAMITE, HÉLICE, PERU E CAPITANIA
De novo eu e Gilberto fomos lá e eu dei um tiro de 20 bananas (4 kg) distribuídos em quatro trouxas de cinco bananas acomodadas nos quatro cantos da porca no sentido de folgá-la e amarrei tudo com cordel e fogo! A porca, com mais de 50 kg saiu na mão e caiu com estrondo no chão, coisa que nem conseguimos com as que prendem a roda do carro. Agora era sacá-la e detoná-la.
Retornamos em outra empreitada, agora com o restante da caixa de dinamite, cerca de 21 kg, em um início de tarde e ficamos esperando dia esfriar mais um pouquinho, porque eles estavam nos vigiando para denunciar à Capitania, quando lá já tínhamos um informante.
Mergulhei e dei um tiro para retirar o protetor de cabos e então, eu e o Bugudinho arrumamos os vinte quilos restantes, com Gilberto segurando a ponta do fio para detonar e fogo.
A Baleeira tremeu toda com o estampido seco e forte e então em seguida, subiu uma coluna de água com uma enorme mancha de óleo fino e com um cheiro diferente mais para lubrificante, que inicialmente nos apavorou, porque pensamos ter arrombado o tanque do navio, quando então mergulhamos e constatamos ter sido o leme, que sob o efeito da explosão teve sua chapa rompida e o hélice lá , fora do eixo e meio encostado no casco, apoiado em duas das pás.
Partir o hélice foi rápido, um tiro seco de 100 kg para quebrá-la e mais um de 5 quilos para separar os pedaços e pronto. Viríamos agora buscá-la.
A baleeira saiu bem antes da lancha e ficou com os cabos de amarração do flutuante prontos, equipada com um flash fotográfico que nos dava a sua posição, toda comandada por walks talks. A lancha rebocando o flutuante saia no fim da tarde e bem por fora do banco da Panela, com o sol de poente por trás encobrindo a sua visualização. A tripulação pirata era composta de sete elementos e a partilha seria de 30 partes para o investidor, neste caso eu, e 10 partes para cada membro participante. Era composta de eu, Bugudinho, Tula, Cabeça, Nego Gato, Gilberto e Carlos Souza, o Lassie.
Amarrado o flutuante, na lancha ficaram Gilberto e Cabeça rodando, no guincho eu e Nego Gato, Tula no compressor e umbilical e Bugudinho e Lassie mergulhando.
Amarramos e embarcamos logo o primeiro pedaço que veio todo fluorescente pelos organismos marinhos aderentes. No segundo já veio confusão. Sobe o Lassie na frente e sobe rápido na baleeira e o Bugudinho logo atrás brigando. Era que apareceu um cação quando estavam amarrando o segundo pedaço e assim que terminaram, o Lassie que estava com a lanterna a apagou e subiu de sacanagem, deixando meu amigo Bugudinho no escuro e entregue a fera . Não saíram na mão porque sacanagem se paga com sacanagem, este é o lema.
Retornamos em reboque para o porto do Bonfim para desembarcar os dois pedaços que já pesavam 7 toneladas, em um reboque penoso, pegando maré de vazante, piorado quando um navio saindo de Salvador nos obrigou a passar próximo ao Farol da Barra e ai foi um sufoco. Chegamos ao bairro Bonfim pela manhã. E pela tarde deste dia desembarcamos os dois pedaços na praia. Durante aquela noite ninguém deve ter dormido com os ladrões batendo com marreta e talhadeiras em debalde esforço para levar algum pedaço do bronze exposto na praia.
No desembarque, o guincho quebrou o freio e teve de ser consertado, mais iria viajar assim mesmo e iríamos montando no caminho.
O comboio seguiu junto no meio da tarde do dia seguinte a operação anterior, com a baleeira um pouco a frente e a lancha com o flutuante, aonde eu ia montando o guincho mais atrás, agora mais perto da costa, porque a noite já vinha chegando e atracar lá com ela seria um problema.
Nas imediações do Solar do Unhão então, nas constantes vigílias que eu fazia com o binóculo, vi cortando por dentro e velozmente a água uma lancha cinza. Tão logo atracou, meu amigo Pitombo interpelou e disse que estava tudo preso e que teríamos de ir para a Capitania. A ordem tinha vindo do Distrito Naval. Os descarados por sentirem-se bloqueados na Capitania, tinham vindo por cima e de forma anônima, conforme soube mais tarde.
Lá foi um vexame. Era uma sexta feira, todo mundo de branco em formatura e um comboio de piratas presos.
Fui interpelado pelo Tenente Ajudante, meu amigo, que formulou a denúncia que eu neguei dizendo que ia movimentar uma poita no Iate e ficou uma situação embaraçosa.
Então eu o chamei no canto e lhes disse a verdade, que íamos tirar o hélice e como seria a partilha com o pessoal todo composto de quem precisava de ganhar alguma coisa, e que não estava subestimando sua inteligência e sim, teria de ser esta minha posição legal, porque não houve flagrante.
Ele, como naquele tempo os oficiais de Marinha tinham outro comportamento, mandou fazer uma vistoria chamada de determinada, onde deveria ser citado tudo de errado nas embarcações, autuadas e depois então nos liberaria, quando na segunda feira teria de ir lá.
Na segunda feira compareci, assinei o Auto de Infração e então tive conhecimento de tudo como se passou em relação a denúncia feita.
Ao sair, passei em uma casa comercial na Conceição, comprei quatro chupetas, na terça pela noite resgatamos os dois pedaços restantes e deixei as mesmas amarradas no eixo, quando lhes mandei o recado. Não teve mais confusão porque nada mais falaram.
Foto já publicada vendo-se da esquerda para a direita Gilberto, Nego Gato, Tula, Ivo ainda menino que não participou e hoje é do SALVAMAR, e Cabeça.
O hélice foi vendido e o Butim dividido.
Tentamos mais tarde retirar as correntes, porém se tornou uma operação perigosa e aí então encerramos por definitivo, o Cavo Artemidi.
José Dortas