Van Nassau, o primo do Conde. Por Mário Mukeka

August 11, 2008

Van Nassau, o primo do Conde

Quando o Conde João Maurício de Nassau-Siegen recebeu a sua frota, seus olhos estavam voltados para a Bahia. Pois, antes de 1624, Van Nassau, seu primo e maior general, já havia entrado na Baía de Todos os Santos. Não se sabe quando, nem como. Mas, todos os fortes da encosta de salvador foram cartografados pela sua tropa.

O que Van Nassau não viu ou não foi informado sobre a fortaleza de Santo Antônio Além do Carmo. Como um general de guerra jamais faria um ataque a uma cidade escolhendo logo uma praia protegida por uma fortaleza em cima de um morro, uma posição privilegiada. Mas foi o que ele fez. Achando que entraria na cidade pelas suas costas o maior general da frota holandesa em 1624, com uma esquadra de 16 barcos de guerra super armados e uma tripulação estimada em 1600 homens, entrou na Baía de Todos os Santos, mantendo distância dos fortes da encosta da cidade. Guinou todo a boreste (direita) após a ponta de Humaitá, quando encostou no que hoje é o bairro do Uruguai.

salvador gravura francesa

Imagem do acervo do Eng. Ubaldo Senna Filho

Recebeu bala, muitas balas vindas da fortaleza de Santo Antônio. Pego de surpresa, o general trocou tiro com o forte por uma semana. Não se sabe se por raiva ou se tinha a esperança que a munição do forte acabasse.

Após sete dias ficou claro que por ali ele não entrava. Então Van Nassau propôs um acordo: Desistia de atacar e iria embora, desde que não fosse incomodado na sua saída. O acordo foi aceito e o general partiu para o norte do Brasil.

Relatou os acontecimentos para Mauricio de Nassau. Então os planos foram refeitos porque havia uma clara intenção de invadir Salvador.

Um ataque bem pensado

A primeira novidade era que ao invés de 16 barcos Van Nassau viria com mais de 30. Em 1624, no comando desta esquadra o general apareceu na boca da Baía. Para surpresa de todos não entrou. Mas foi "um-deus-nos-acuda". Mensageiros foram mandados para todo recôncavo e dos engenhos vieram milhares de combatentes. Do dia para noite Salvador se transformara em uma trincheira.

O general espalhou a sua frota entre o Farol da Barra e o Morro de São Paulo. Ninguém entrava, nem saía e assim se passaram os dias. O ataque é hoje! Não foi, vai ser amanhã. Com um mês nessa situação a cidade ficou um mangue. A falta do que fazer e o estresse da espera do ataque levaram a um consumo desenfreado de álcool. As noites pelos bordéis eram longas.

salvador gravura

Imagem do acervo do Eng. Ubaldo Senna Filho

Nesse ínterim, parte da tropa holandesa se juntou com os índios do atual bairro Rio Vermelho e entenderam a dinâmica do pequeno rio que nasce na Barroquinha e, seguindo pela Djalma Dutra deságua no mar, cortando o vale que hoje é a Vasco da Gama. Perceberam também que se parassem o pequeno riacho na altura do Engenho Velho de Brotas, o trecho que ia até a Barroquinha alagaria e os batelões (um barco menor) de reconhecimento dos galeões conseguiriam navegar.

E assim, em uma noite entraram pelo Rio Vermelho e ao amanhecer, na praça Castro Alves, só tinha holandês. A cidade foi rapidamente tomada. Van Nassau que comandava o ataque, ancorado ao largo, ordenou um avante em direção do Solar do Unhão. Local onde se encontrava uma frota da União Ibérica com mais de 40 barcos. Trinta e poucos foram para o fundo e os dois primeiros barcos holandeses que desarrumaram essa frota também desceram formando o maior entulho arqueológico subaquático das Américas, o Banco da Panela.

Van Nassau aqui ficou por um longo ano. Várias tentativas de retomar a cidade foram feitas. A mais pitoresca foi organizada pelo Conde Dias D'Avila, que montou uma tropa com dois mil índios Cariris e partiu da Praia do Forte até o Convento do Carmo, que tinha se transformado no quartel general holandês. Dias D'Avila contava com a surpresa da madrugada para invadir o prédio e tinha acertado com os índios que o silêncio era fundamental. De forma que o tradicional grito de guerra dos índios não seria usado. Mas, ao se aproximar do local os índios não se contiveram e numa atitude condicionada começaram a gritaria. Quase todos foram mortos pelos holandeses.

Van Nassau que jamais pôs os pés em Salvador. Por uma questão de segurança, comandava embarcado na sua frota. E jamais dormia duas noites seguidas no mesmo barco. Mas, mesmo um grande general tem suas manias e preferências. Então, assim como tinha barcos que ele jamais dormia, em outros era costumeiro. Três embarcações eram de sua preferência: Utrecht, Huys Van Nassau e um barco menor.

Comandado por Dick Van Den Bergh, acompanhado de Jacob Cort do Utrecht e Gysseling da nau Huys Van Nassau, o general traçava seus planos e, de lá, dava as suas ordens. Na verdade estes três comandantes eram o seu estado maior. Jacob Cort era o seu braço direito e comandava o mais opulento barco da frota holandesa, o Utrecht. O mais sanguinário era Van Den Bergh, que se destacava pela sua capacidade destemida de avançar contra os inimigos. Foi ele, junto com um outro alucinado, que desarrumaram a esquadra que estava no Solar do Unhão, entrando no meio da frota, cuspindo bala por todos os lados. Os dois barcos foram para o fundo, mas Dick Van Den Bergh se salvou. Como prêmio pela sua ação suicida ganhou um barco maior.

Após um ano de saque, Salvador não oferecia muitos atrativos e era muito dispendioso manter a cidade ocupada. Assim logo após a morte do seu general que comandava a invasão por terra, decapitado quando voltava de uma incursão pela Estrada da Rainha, no bairro da Liberdade e com notícias que a União Ibérica mandara uma poderosa esquadra, Van Nassau resolveu deixar Salvador. Assim contam alguns historiadores.

Mário Mukeka, além de mergulhador, músico, construtor naval, é um pesquisador das invasões holandesas no Brasil.

Comentários?

  1. Anonymous escreveu:
    August 11, 2008 @ 16:44 — Responder

    Poxa Mário, melhor que ler, só vc contanto !!!Adorei !!!!! Bjão Shirlei

  2. Ideilton Ramos escreveu:
    August 11, 2008 @ 18:46 — Responder

    Num disse que tô me tornando fã de Mário Mukeka!? Ó paí, ó! que capacidade invejável! Mário é simplesmente o nosso Machado de Assis.Ele nos dá uma aula de história com requintes de detalhes. Valeu,Mukeka!!!

  3. Leo Dutra escreveu:
    August 12, 2008 @ 08:47 — Responder

    Mario, muito interessante o seu post. Outro dia li um artigo que falava que a Armada Ibérica teve uma certa 'responsabilidade' pela expulsão dos Holandeses da Bahia. Seria essa mesma frota que você menciona no seu texto? Pelo que li a idéia era a de estabelecer a Companhia Holandesa das índias Ocidentais e Salvador foi escolhido como o objetivo primordial. Me parece que demorou algum tempo pros Portugueses saberem que tinha sido invadidos e um tempo maior para o envio da esquadra com 50 naus. A esquadra foi enviada com certa rapidez, mas parece que os ventos contrários não permitiram que a esquadra rumasse para o Brasil, atrasando a viagem em quase 1 ano. Será que essa história procede? Um abraço, Leo

  4. Gustavo Paixao escreveu:
    August 14, 2008 @ 09:07 — Responder

    Parabéns Mukeka !!!

  5. Dortas escreveu:
    August 19, 2008 @ 11:00 — Responder

    Mario. O comandante decapitado era o Johan van Dorth. parente dos van Dorth de Pernambuco e que deram origem a minha família. Ele invadiam as Igrejas e dizia ser ele a Igreja Católica e saqueava tudo. (Google - Genealogy da familia Dortas)