O Diabo Loiro (versão completa), por Mário Mukeka
August 26, 2008
O barco do mais famoso pirata do rio Paraguaçu afundou na região no século XVII ao bater em algumas pedras da borda. A história conta que Van Den Bergh conseguiu fugir em outra embarcação. Mas seu barco ficou no leito do rio, segundo historiadores, com 150 mil moedas de ouro e muitas outras riquezas.
Uma manobra infeliz
Chovia muito. No céu não havia estrelas. E, com uma tempestade se formando pelo sul, o "miseravão" resolveu entrar no Rio Paraguaçu. Contava com a escuridão para não ser visto e aumentar o impacto do seu ataque surpresa.
Van Den Bergh era da primeira leva (de marinheiros) que chegou com Mauricio de Nassau, tinha todas as cartas náuticas disponíveis do Paraguaçu e a experiência de vários ataques ao longo de sua carreira. Assim, não via problema em entrar no rio nessa situação, em tese adversa.
Como previsto, passou despercebido pela principal bateria no pequeno Forte da Salamina que, mesmo sem grade poder de fogo, servia para os alertar engenhos, rio acima, de algum perigo eminente. Com o caminho livre tomou o rumo do mais rico engenho da região e, numa manobra infeliz o vento sul lhe jogou de encontro à borda do rio. A embarcação montou em um cabeço de pedra, tombando de lado e, em uma fração de segundo, afundou no canal de navegação. E lá ficou enterrada na lama com tudo que havia dentro.
Como não foi dado nenhum tiro, tudo que a população percebeu ao amanhecer foi o sumiço de uma chalana, uma pequena embarcação que foi usada na fuga de Van Den Bergh.
Apesar de ser temido, sem um barco cheio de canhões e "com a guia totalmente quebrada" a liderança de Van Den Bergh perdeu o sentido e sua tripulação se espalhou pela Baía de Todos os Santos.
Foram alguns sobreviventes que relataram o episódio da perda da embarcação, pois Van Den Bergh nunca mais foi visto.

Imagem de Maurício Gonçalves. Clique na ilustração para entrar no site original.
A partir desse trecho, para proteger conhecidos; nomes, locais e datas não serão necessariamente verdadeiros.
Consta em relatos no Arquivo Público do Estado da Bahia que a tripulação de Van Den Bergh passou a vender a única coisa que tinha, o que se chama hoje de logística. Assim cada pé-de-chinelo que navegou com o piratão se transformou num grande especialista em ataques aos engenhos do Paraguaçu.
Dois acidentes geográficos colaboravam com as táticas de ataque, o Morro de Santo cristo, na região que se chama boca do Paraguaçu, e a Ilha do Francês a menos de uma milha rio acima.
Atravessada no rio, a pequena Ilha (do Francês) era um biombo perfeito. A partir de sinais vindos do topo do Morro do Santo Cristo, o ataque acontecia. Entrando ou saindo do rio era ali que o "bicho pegava".
Em 2002 se formou uma conexão: biólogos, historiadores, aglomeradores matemáticos e mergulhadores especializados em água de baixa visibilidade passaram a se reunir em uma antiga boate na Ladeira da Preguiça e começaram a trocar informações.
Hoje o Paraguaçu é um rio modificado. A barragem de Pedra do Cavalo criou um novo padrão de comportamento. Sua flora e fauna se desorganizaram (ou organizaram de outra forma), muita coisa desapareceu, como as lindas águas vivas que pareciam disco voadores e em grandes quantidades povoavam a Baía de Todos os Santos.
A desorganização desse rico ecossistema também modificou a qualidade da água e, em determinados momentos, a visibilidade melhora sensivelmente. A partir de informações meteorológicas pode se prever um padrão na vazão das comportas e programar um mergulho. Sondagens magnéticas indicaram que, em volta da Ilha do Francês, existe uma grande quantidade de entulhos. Porém, por ser a parte mais funda do rio, só é possível exploração desses vestígios materiais com o emprego de tecnologia de ponta. Isso implica na legalização da busca, coisa quase impossível com a atual legislação, que favorece às grandes empresas de caça ao tesouro. Mas, os destroços que se encontram agarrados nas suas bordas como o de Van Den Bergh podem ser explorados com tecnologias de baixo custo.
Fibra, moedas de ouro e cachos de banana
Quando o governo, numa medida populista-eleitoreira, forneceu canoas de fibra de vidro para os pescadores locais se criou um mercado de reparos dessas embarcações de quinta categoria, que se desmancham sem bater.
Essas canoas estão sempre precisando de consertos. Foi assim que apareci, como um especialista em fibra de vidro. Fui apresentado por lideranças locais e passei a fazer serviços de reparo em fibra a preço de banana - literalmente. Muitas vezes fui pago com cachos dessa fruta, siri catado, lambreta e sururu. Com todos esses elementos conspirando a meu favor, comecei a fazer perguntas despretensiosamente.
Um dia me trouxeram uma garrafa antiga, cor verde escura, com um selo de vidro gravado o nome de Van Den Bergh. Eu já vinha pesquisando esse nome por 16 anos e, em 1990 encontrei a primeira citação sobre sua tragédia no Arquivo Público da Bahia. O documento dizia que Van Den Bergh tinha planejado um ataque que não dera certo. Era tudo que se sabia e que sua tripulação se espalhara vendendo seus serviços.

Agora, mais de trezentos anos depois, estava nas minhas mãos uma garrafa personalizada da sua adega. Naquele momento percebi que eu podia descobri o barco do "miseravão". Enfim tinha encontrado o Diabo Loiro.
Acompanhado de um especialista com grade prestígio na região, fomos até a casa do pescador, que supostamente encontrara a garrafa. Para minha surpresa, o pescador era uma marisqueira que trabalhava na beira do rio.
Informações de pessoas ligadas às ciências naturais dão conta que o nível do Paraguaçu baixou após a construção da barragem. E hoje, as marisqueiras pescam na beira do peral.
Minha velhinha, como eu passei a chamar a marisqueira que eu conheci, me contou que uma comadre dela tinha achado uma peça que ela chamou de caçarola cor de rosa. Conversa vai, conversa vem, depois que minha velhinha garrou confiança, resolveu me levar na casa de sua comadre, porque eu disse que queria copiar a caçarola, usando o barro da região.
A tal caçarola é um maravilhoso candeeiro aromatizante, com a marca de um barco com vela de junco. Uma jóia em porcelana cor de rosa por fora e branca por dentro. Usando óleos aromatizantes e uma bucha de algodão ela voltou a espantar os mosquitos da região.
O barco de Van Den Bergh, que está coberto de areia e lama, depois da construção da barragem de Pedra do Cavalo, passou a ficar em seco durante a maré baixa. E hoje o banco de areia que ele formou serve como campo de futebol.
Anteriormente, quando ele ficava totalmente submerso, tinha se transformado em um grande pesqueiro e com o passar dos anos, como sempre tinha muito peixe no entulho que ele formou, passou a ser atacado por centenas de dinamite, uma infeliz pratica para matar peixe em toda a Baía de Todos os Santos.
O carma do homem dura até hoje e seu barco, mesmo repousando no fundo do Paraguaçu, não tem sossego. Essas explosões de dinamite partiram quase que a totalidade das suas peças de vidro e porcelana. Que se sabe, a garrafa e o candeeiro são os únicos objetos inteiros que apareceram.
Em dado momento, comecei a comprar cacos de porcelana, dizendo que uma amiga gostava de fazer mosaicos. Sacos e mais sacos apareceram. Em uma grossa análise dessas peças já se percebe a impressionante diversidade de procedências. São as mais finas porcelanas que eu já vi. Como Van Den Bergh pilhava muito, tem peça de vários cantos do mundo.
Pelo padrão do formato das peças, tudo indica que foram quebrados pela mesma força de impacto. Até porque a quantidade de dinamite é sempre a mesma. De certa forma a água amortece o impacto e os atuais cacos de louças podem fazer lindos mosaicos, ficando livres da tirania das suas formas originas.
Mário Andión Cortizo "Mukeka"
Cidade da Bahia, agosto de 2008.
Uma manobra infeliz
Chovia muito. No céu não havia estrelas. E, com uma tempestade se formando pelo sul, o "miseravão" resolveu entrar no Rio Paraguaçu. Contava com a escuridão para não ser visto e aumentar o impacto do seu ataque surpresa.
Van Den Bergh era da primeira leva (de marinheiros) que chegou com Mauricio de Nassau, tinha todas as cartas náuticas disponíveis do Paraguaçu e a experiência de vários ataques ao longo de sua carreira. Assim, não via problema em entrar no rio nessa situação, em tese adversa.
Como previsto, passou despercebido pela principal bateria no pequeno Forte da Salamina que, mesmo sem grade poder de fogo, servia para os alertar engenhos, rio acima, de algum perigo eminente. Com o caminho livre tomou o rumo do mais rico engenho da região e, numa manobra infeliz o vento sul lhe jogou de encontro à borda do rio. A embarcação montou em um cabeço de pedra, tombando de lado e, em uma fração de segundo, afundou no canal de navegação. E lá ficou enterrada na lama com tudo que havia dentro.
Como não foi dado nenhum tiro, tudo que a população percebeu ao amanhecer foi o sumiço de uma chalana, uma pequena embarcação que foi usada na fuga de Van Den Bergh.
Apesar de ser temido, sem um barco cheio de canhões e "com a guia totalmente quebrada" a liderança de Van Den Bergh perdeu o sentido e sua tripulação se espalhou pela Baía de Todos os Santos.
Foram alguns sobreviventes que relataram o episódio da perda da embarcação, pois Van Den Bergh nunca mais foi visto.

Imagem de Maurício Gonçalves. Clique na ilustração para entrar no site original.
A partir desse trecho, para proteger conhecidos; nomes, locais e datas não serão necessariamente verdadeiros.
Consta em relatos no Arquivo Público do Estado da Bahia que a tripulação de Van Den Bergh passou a vender a única coisa que tinha, o que se chama hoje de logística. Assim cada pé-de-chinelo que navegou com o piratão se transformou num grande especialista em ataques aos engenhos do Paraguaçu.
Dois acidentes geográficos colaboravam com as táticas de ataque, o Morro de Santo cristo, na região que se chama boca do Paraguaçu, e a Ilha do Francês a menos de uma milha rio acima.
Atravessada no rio, a pequena Ilha (do Francês) era um biombo perfeito. A partir de sinais vindos do topo do Morro do Santo Cristo, o ataque acontecia. Entrando ou saindo do rio era ali que o "bicho pegava".
Em 2002 se formou uma conexão: biólogos, historiadores, aglomeradores matemáticos e mergulhadores especializados em água de baixa visibilidade passaram a se reunir em uma antiga boate na Ladeira da Preguiça e começaram a trocar informações.
Hoje o Paraguaçu é um rio modificado. A barragem de Pedra do Cavalo criou um novo padrão de comportamento. Sua flora e fauna se desorganizaram (ou organizaram de outra forma), muita coisa desapareceu, como as lindas águas vivas que pareciam disco voadores e em grandes quantidades povoavam a Baía de Todos os Santos.
A desorganização desse rico ecossistema também modificou a qualidade da água e, em determinados momentos, a visibilidade melhora sensivelmente. A partir de informações meteorológicas pode se prever um padrão na vazão das comportas e programar um mergulho. Sondagens magnéticas indicaram que, em volta da Ilha do Francês, existe uma grande quantidade de entulhos. Porém, por ser a parte mais funda do rio, só é possível exploração desses vestígios materiais com o emprego de tecnologia de ponta. Isso implica na legalização da busca, coisa quase impossível com a atual legislação, que favorece às grandes empresas de caça ao tesouro. Mas, os destroços que se encontram agarrados nas suas bordas como o de Van Den Bergh podem ser explorados com tecnologias de baixo custo.
Fibra, moedas de ouro e cachos de banana
Quando o governo, numa medida populista-eleitoreira, forneceu canoas de fibra de vidro para os pescadores locais se criou um mercado de reparos dessas embarcações de quinta categoria, que se desmancham sem bater.
Essas canoas estão sempre precisando de consertos. Foi assim que apareci, como um especialista em fibra de vidro. Fui apresentado por lideranças locais e passei a fazer serviços de reparo em fibra a preço de banana - literalmente. Muitas vezes fui pago com cachos dessa fruta, siri catado, lambreta e sururu. Com todos esses elementos conspirando a meu favor, comecei a fazer perguntas despretensiosamente.
Um dia me trouxeram uma garrafa antiga, cor verde escura, com um selo de vidro gravado o nome de Van Den Bergh. Eu já vinha pesquisando esse nome por 16 anos e, em 1990 encontrei a primeira citação sobre sua tragédia no Arquivo Público da Bahia. O documento dizia que Van Den Bergh tinha planejado um ataque que não dera certo. Era tudo que se sabia e que sua tripulação se espalhara vendendo seus serviços.

Agora, mais de trezentos anos depois, estava nas minhas mãos uma garrafa personalizada da sua adega. Naquele momento percebi que eu podia descobri o barco do "miseravão". Enfim tinha encontrado o Diabo Loiro.
Acompanhado de um especialista com grade prestígio na região, fomos até a casa do pescador, que supostamente encontrara a garrafa. Para minha surpresa, o pescador era uma marisqueira que trabalhava na beira do rio.
Informações de pessoas ligadas às ciências naturais dão conta que o nível do Paraguaçu baixou após a construção da barragem. E hoje, as marisqueiras pescam na beira do peral.
Minha velhinha, como eu passei a chamar a marisqueira que eu conheci, me contou que uma comadre dela tinha achado uma peça que ela chamou de caçarola cor de rosa. Conversa vai, conversa vem, depois que minha velhinha garrou confiança, resolveu me levar na casa de sua comadre, porque eu disse que queria copiar a caçarola, usando o barro da região.
A tal caçarola é um maravilhoso candeeiro aromatizante, com a marca de um barco com vela de junco. Uma jóia em porcelana cor de rosa por fora e branca por dentro. Usando óleos aromatizantes e uma bucha de algodão ela voltou a espantar os mosquitos da região.
O barco de Van Den Bergh, que está coberto de areia e lama, depois da construção da barragem de Pedra do Cavalo, passou a ficar em seco durante a maré baixa. E hoje o banco de areia que ele formou serve como campo de futebol.
Anteriormente, quando ele ficava totalmente submerso, tinha se transformado em um grande pesqueiro e com o passar dos anos, como sempre tinha muito peixe no entulho que ele formou, passou a ser atacado por centenas de dinamite, uma infeliz pratica para matar peixe em toda a Baía de Todos os Santos.
O carma do homem dura até hoje e seu barco, mesmo repousando no fundo do Paraguaçu, não tem sossego. Essas explosões de dinamite partiram quase que a totalidade das suas peças de vidro e porcelana. Que se sabe, a garrafa e o candeeiro são os únicos objetos inteiros que apareceram.
Em dado momento, comecei a comprar cacos de porcelana, dizendo que uma amiga gostava de fazer mosaicos. Sacos e mais sacos apareceram. Em uma grossa análise dessas peças já se percebe a impressionante diversidade de procedências. São as mais finas porcelanas que eu já vi. Como Van Den Bergh pilhava muito, tem peça de vários cantos do mundo.
Pelo padrão do formato das peças, tudo indica que foram quebrados pela mesma força de impacto. Até porque a quantidade de dinamite é sempre a mesma. De certa forma a água amortece o impacto e os atuais cacos de louças podem fazer lindos mosaicos, ficando livres da tirania das suas formas originas.
Mário Andión Cortizo "Mukeka"
Cidade da Bahia, agosto de 2008.
Anonymous escreveu:
August 26, 2008 @ 17:44 — Responder
Aglomeradores matemáticos? O que é isso?
Ideilton Ramos escreveu:
August 26, 2008 @ 21:31 — Responder
Mário,existe algum indíicio dessas moedas de ouro deixadas por ocasião do naufrágio do navio de Van Den Bergh? mais uma vez meus parabéns pelo relato.Você sabe tudo sobre a fera!
Gustavo Paixã0 escreveu:
August 27, 2008 @ 00:30 — Responder
Mais uma vez aprendendo com Mario vol. 500 , o cara em um minuto de conversa conta detalhes do passado com muita intimidade e conhecimento , parabéns só fico imaginando todo esse conhecimento em um livro de no mínimo 500 páginas.
CHANGO escreveu:
August 27, 2008 @ 19:03 — Responder
Mario querido...adorei como sempre a sua narrativa. Agora... CADÉ AS CENTO E CINCUENTAMIL NICAS???? HEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEEE!!!!!!