Uma história fictícia sobre o surf

October 1, 2008

Poucas décadas atrás alguns surfistas famosos dos EUA, a maioria ligada a instituições de salvamento aquático, resolveram organizar o primeiro curso nacional para formar instrutores de surf. Pois, aquele esporte estava se tornando muito popular nos anos 50, a partir de uma grande melhoria na fabricação e a crescente comercialização das pranchas de surf.

Aquele curso foi grande um sucesso e por isso, em 1960 foi criada uma Associação Nacional dos Instrutores das Ondas, em inglês National Association of Waves Instructors – NAWI, para promover mais treinamentos.

Um dos alunos desse primeiro curso julgava que essa nova Associação tinha um perfil com forte influência militar, logo não adequada para atender o público civil. Por isso em 1966 fundou uma empresa comercial para explorar esse filão de treinamento, a Associação Profissional dos Instrutores de Surf (Professional Association of Surfing Instructors – PASI). E, com o passar do tempo, outras empresas privadas apareceram, a exemplo das Escolas Internacionais de Surf (Surfing Schools International –SSI). Até um pequeno clubinho de mergulhadores entrou na jogada, mas com nome de gente grande: Corporação dos Instrutores Profissionais de Surf (Professional Surfing Instructors Corporation – PSIC).

Por que devo aprender a surfar através de uma escola? A resposta dessa pergunta era antecipada e funcionava para dar credibilidade àquele nova indústria e, associada a outras ações de propaganda, contribuía para captar novos clientes.

“Há riscos inerentes às atividades de surf. Você pode se machucar com ondas, corais, animais marinhos potencialmente perigosos, é preciso conhecer sobre marés e correntezas para escolher os melhores “picos”, ter noções de primeiros socorros, estudar os tipos de fundo marinho... Enfim aprender técnicas, desenvolver habilidades e ter alguns conhecimentos para surfar com relativa segurança.”

No decorrer do desenvolvimento desse mercado, seguindo uma lógica capitalista e evolucionista, essas empresas, que preferiam ser chamadas de Agências de Treinamento (dava um caráter menos comercial e mais de educação), subdividiram os cursos. Cada agência utilizava seus termos, mas era algo tipo Curso Surfista Básico, Curso Surfista Avançado... até chegar ao nível Instrutor de Surf.

Outra “evolução” dessa indústria (do entretenimento ou educação) foi o surgimento dos cursos de especialização. Afinal surfar em pororocas* era um surf altamente especializado. Não era para qualquer “maroleiro” de praia. Era preciso saber as técnicas adequadas, conhecer mais profundamente sobre aquele tipo de ambiente... SEMPRE PENSANDO NA SEGURANÇA DO SURFISTA!

Num determinado momento (anos 80), para aumentar a credibilidade dessas agências, foi criado um Conselho de Treinamento do Surf Recreativo. Nada mais do que uma organização privada que elaborou normas (também privadas) de padronização. Na verdade até aproveitou normas (ANSI Z86.3) já elaboradas pela American National Standards Institute (ANSI).

Algumas agências chegaram a oferecer dezenas de cursos de especialização, sempre respeitando o limite de ondas de 4 metros de altura. Esse número foi um consenso do mercado, pois considerava que o risco de acidente a partir daí era muito grande para um surfista recreativo.

Alguns surfistas mais radicais (big riders) nunca obedeceram a essa regra e a outras também. E por isso, eram taxados de loucos, imprudentes, exemplos que não deveriam ser seguidos. Porém, com o passar do tempo, a quantidade de surfistas que queriam surfar as “morras, big waves” aumentou consideravelmente. Surgiram então novas agências de treinamento especializadas em cursos rigorosíssimos para esses surfistas que queriam ir além das atividades recreativas, mas sempre procurando manter um nível de risco aceitável (parecia algo mais seguro).

Para não misturar com o surf de caráter recreativo, essa atividade era chamada de Surf Técnico (mesmo sendo para fins recreativos). As mais velhas agências vendo que o filão era bom, também entraram nessa nova onda. E, por sua vez, algumas agências de surf técnico entraram no negócio do surf recreativo.

No início do milênio foi sentida queda da fidelidade do surfista. Agora ele (o surfista) às vezes surfa, mas também gosta de rappel, cannoying, rafting, kite surf, mergulho...
Qual será a próxima onda?

Mais duas perguntas:
Será que posso aprender a surfar com nível aceitável de risco sem necessariamente pagar por um curso?
Quais são todos os interesses em barrar um surfista não certificado num Surf Boat (excetuando quando o cliente estiver fazendo um Surfing Experience)?

Por André Lima

*Pororoca (do tupi "poro'roka", de "poro'rog", estrondar) é um fenômeno natural produzido pelo encontro das correntes fluviais com as águas oceânicas.
Wikipédia, a enciclopédia livre.

Comentários?

  1. Marcelo Adães escreveu:
    October 1, 2008 @ 17:23 — Responder

    Excelente analogia, André. Deixa eu fazer umas perguntas: Não existe agora uma norma ISO ou ABNT sobre a atividade de mergulho? Existe alguma regulamentação governamental (legislação) brasileira sobre a prática de mergulho? Grande abraço.

  2. Jomar escreveu:
    October 1, 2008 @ 17:57 — Responder

    Esse texto vai dar "pano pra manga"!!! Se o amigo e editor me der licença... acho realmente que tem muita "carteirinha" no mercado do "SURF". Se o cara faz o surf avançado (que inclui noturno, navegação, drift, "surf profundo", etc) pra que fazer estas especialidades separadas? E se por um lado muitas "certificações de surf" são "vendidas" por outro lado se profissionaliza o "surfista" a meu ver com um número baixo de "ondas". Já "surfei" com um instrutor que estava com um olhar totalmente apavorado, em água com baixa visibilidade, em correnteza e ficou todo enrolado no "elastick". Eu tive de soltar o cara e conduzir a "remada"! Imagine agora dar uma certificação de "surf master" para alguém que "surfou" apenas 60 ondas??? Aprendi alguns procedimentos do "surf técnico" (sem ter a carteirinha e sem curso formal) lendo, conversando com os amigos "surfistas" mais experientes, assistindo vídeos e até mesmo conversando com instrutores de "surf recreativo". Sei qual o meu limite e conheço bem o tipo de configuração que uso na minha "prancha". Tenho consciência da altura máxima e das condições das "ondas" que pretendo "surfar". Se já fiz besteira? Sim, não tenho vergonha de assumir, e as relatei na lista de discussão "surfbahia". Quem nunca fez? Gostaria que outros "surfistas" também relatassem suas mancadas. Eu aprenderia muito. Tudo é aprendizado. Somente agora, depois de mais de 250 "ondas surfadas" começo a pensar sério no "surf técnico", no "surf master" ou quem sabe no "surf instructor". Mas sei que posso também aprender muito simplesmente "surfando" sem me preocupar com suas subdivisões quase infinitas, suas credenciadoras e suas carteirinhas. Abraços aos amigos e vida longa com muitas "ondas para surfar"!!! P.S.: Marcelo, André fez alguma analogia??? Não entendi (rs)!!!

  3. Marcelo Adães escreveu:
    October 1, 2008 @ 18:00 — Responder

    Jomar, eu devo estar narcosado pelo surf... :)

  4. Bruno Fagundes escreveu:
    October 1, 2008 @ 23:22 — Responder

    Na verdade o pessoal quer ganhar dinheiro no "surf". Eu mesmo posso dizer que comecei a fazer o "surf técnico" sem instrução formal, descendo com 15 litros e ar - opa morey boogie ...rsss - a 40, 50, 60 e até 73 ondas...rsss Depois fiz os cursos para pegar as carteirinhas, pois tem lugar por aí que "só se surfa com carteirinha". Mas é aquela coisa, o que vale é o conhecimento e não a carteirinha. A forma como você obtém isso não é importante. Conheço gente que aprendeu muito mais de "surf" sozinho em casa e surfando, do que fazendo "curso de surf". Mas tem que estudar. O que não dá para aceitar é o cara fazer "surf técnico" sem conhecimento, pois um dia vai morrer. E além disso, tem que investir em equipamento, pois é uma negócio chamado de redundância que salva o surfista no "surf técnico".

  5. Marcelo Rosario escreveu:
    October 2, 2008 @ 11:09 — Responder

    hehehehehehe, adorei galera...Mas e bom lembrar que quando o mar esta "quebrando" devemos estar preparados pra tomar "series" na cabeça e depois sair remando e sorrindo...Ah, e outra...Imagine seguir o surf intructor por um canal sem ondas e depois perceber que está na arrebentação? heheeheh não tem surf instructor que queira cuidar do seu aluno...E pra finalizar, 60 ondas no SESC não formam ninguém em surf master heheheeheheheeheh. Grande abraco e boas ondas

  6. Peter Tofte escreveu:
    October 2, 2008 @ 16:13 — Responder

    GENIAL!!! Abraços, Peter

  7. Rafael Cabral Carvalho escreveu:
    October 2, 2008 @ 16:16 — Responder

    André, Desculpe, não entendi o seu email! Qual o ponto? Dive boats e shops deveriam aceitar mergulhadores nao certificados para mergulho Scuba? Abraços, Rafael PS: A propósito, cuidado com as definições do Wikipedia. A grande maioria das vezes são erroneas e incompletas.

  8. CHANGO escreveu:
    October 2, 2008 @ 17:58 — Responder

    O ponto?.........Ora; não era dar risada???.......O negócio gente é deixar esses esportes cheios de burocracia como o SURF e partir para o mais descomplicado e leve: MERGULHO SCUBA!!!!!!!!!!! Já procuraram RISADA na Wikipedia.......????? CHANGO (instrutor de SURF)

  9. André Lima escreveu:
    October 2, 2008 @ 18:18 — Responder

    Oi Rafael. Começando pelo fim. É verdade que há definições erradas na Wikipedia, mas esta parecia estar adequada para esse caso específico, não? No fim do artigo eu escrevo "Não sou contra as agências de mergulho. Apenas considero importante tentar enxergar o discurso nas entrelinhas.". Qual é o ponto? “Diving is bussiness” Então muita coisa dita é puro discurso comercial. Só não vê quem não quer. Isso não passa necessariamente pelo certo ou pelo errado. O bacana é isso, estamos digerindo o assunto e não simplesmente o engolindo. Eu, que tenho um barco de mergulho, cobro carteira de mergulhador, porque teoricamente diminui o meu risco. Mas não posso condenar quem não cobra. Imagine o inusitado cobrar credencial de surfista para “Surf Boat” (há vários pelo mundo)?

  10. Bruno Fagundes escreveu:
    October 2, 2008 @ 18:28 — Responder

    Gente, descer 73 ondas com Morey Boogie é uma onda mesmo....rssss

  11. Marcello De Ferrari escreveu:
    October 3, 2008 @ 00:36 — Responder

    Muito bom !! Como tudo hoje : $$$$ Com meus quase 50 anos (mergulho livre desde os 17 e autônomo desde os 18) posso me lembrar de muitas coisas... Aprendi a mergulhar LENDO muito e usando equipamentos da Atlântida. Quando comecei a ajudar em cursos (na ACM), o curso básico durava 2 semanas e eram 4 saídas no MAR (era marzão mesmo). Não tinha mar ruim ou água de baixa visibilidade... a moral era: se vc fez tua prova nestas condições, o resto será fácil. E incrível, SOBREVIVÍ. Hoje, certamente, mesmo com um esquema comercial mais agressivo, existem boas vantagens aos iniciantes, tudo vem bem mastigado, os riscos minimizados, os equipamentos bonitinhos e plenamente operacionais, muitas e (em grande parte) boas embarcações de mergulho, pessoas atenciosas e prestativas a bordo. Com certeza uma evolução. Mas, no fundo, o espírito de aventura ficou um pouco na História. Grande abraço. Marcello De Ferrari.

  12. Jorge Capoeira escreveu:
    October 3, 2008 @ 00:42 — Responder

    Aos meus 16 anos conheci uma nova vida em Itapuã. Fomos morar em frente a praia e até então evitava-a, pois não gostava de areia, coisa de adolescente, dá pra imaginar? A rua que morava era bem em frente a pedra que ronca, quem conhece a rua k em Itapuã sabe do que estou falando. Na maré baixa se formam várias piscinas naturais, ótimas para o mergulho livre ao longo do extenso recife de calcário e ao final a majestosa Pedra que Ronca, onde "rolam" as maiores e mais extensas ondas de Salvador. Foi neste lugar que redescobri o mar com pouquíssimas (quase nenhuma) informações sobre o assunto. Comecei "natoralmente" pela curiosidade de mergulhar e surfar, foram muitas tentativas loucas até conseguir êxito e me realizar. Hoje temos uma Escola de mergulho e surf, e a nossa idéia é proporcionar felicidade para as pessoas, apresentando a "respiração dos oceanos", as ondas ou conhecendo a sua própria respiração mergulhando. Essas experiências não foram conhecidas em nenhum curso de Dive Master ou instrutor, pelo menos até agora, muito menos no curso de instrutor de Surf. Claro que todos os conhecimentos adquiridos nos cursos é de grande importância. Essas idéias que desenvolvemos é fruto de uma convivência muito divertida com o mar.

  13. Jorge capoeira escreveu:
    October 3, 2008 @ 00:48 — Responder

    Ótima idéia para pensarmos, adorei. Aquele abraço!

  14. Georges escreveu:
    October 3, 2008 @ 18:28 — Responder

    além das agências a oferta de pranchas cresce a cada dia. cada tipo estranho e com origem duvidosa. países sem tradição no surf, fazendo pranchas dita de excelente qualidade??. é o mar não está para o surf. e viver de surf está cada vez mais difícil heheeh valeu pela lavada na alma André abraços Georges

  15. Gustavo Farhat de Araujo escreveu:
    October 7, 2008 @ 06:11 — Responder

    Parabéns André pela o artigo. Admiro a sua coragem e perspicácia por tocar nesse assunto, que a princípio não deveria ser considerado delicado, mas que, por muitas vezes, não são tão bem recebidos em um local caracteristicamente democrático, como você bem frisou e eu propositalmente plagiei: lista de DISCUSSÃO. Já vi muitas pessoas aqui serem escorraçadas por fazerem pequenas críticas ao atendimento que por ventura receberam em alguma operadora de mergulho, sendo isso encarado como uma heresia. Como se comunicar um mau comportamento de um mau profissional fosse um ato de total irresponsabilidade com intuito de denegrir a imagem da empresa. Acredito que esse espaço deva ser usado para, entre outras coisas, através de críticas, melhorar o serviço prestado, de maneira a atender os desejos, tanto de empresas como clientes. Hoje em dia, toda empresa que se preze, investe grande parte do orçamento em serviços de pós-vendas, com o objetivo de poder se aperfeiçoar, conhecendo as necessidades dos clientes. E já vi muita gente aqui desprezar essa ferramenta. Muitas vezes, sei que irritam os comentários mal educados, mas as empresas têm que saber como lidar com isso. Há um ano, fiz um mergulho com uma operadora daqui de Salvador que, resumindo a história, o guia desceu no Artemidi e me deixou na superfície. Só voltou uns 20 minutos depois quando eu já estava mareado e ele ainda disse que a culpa era minha. Nunca vi a culpa ser do cliente, mas tudo bem. Deixei isso pra lá, não ia bater boca com essa pessoa. Pensei até em postar aqui na época, mas confesso que achei que seria mal interpretado. Paguei o preço total, sem problemas (me recusei a fazer a segunda imersão) e, quando quis registrar a reclamação, o atendente me disse que eu teria que voltar outro dia, pois o dono estava viajando. Falei que caso o dono quisesse conhecer um pouco mais da satisfação dos seus clientes, ele poderia me ligar. Nunca me ligou. Bom, mas alguém deve ter feito uma reclamação mais pesada, pois há uns três ou quatro meses li aqui nessa lista que essa pessoa não fazia mais parte do staff da operadora. Vou até dar um crédito pra essa operadora e fazer uma saída com eles assim que puder. O que quero dizer com isso tudo (eu acredito que seja o mesmo do desabafo do André) é: “TEM QUE HAVER PROFISSIONALISMO!”. Nós clientes somos exigentes e ninguém é bobo hoje em dia. Não adianta fazer falsas promoções, pois quem mergulha não compra eletrodoméstico em 50 prestações. Já vi programas de fidelidade, que se você deixar de mergulhar um mês, não pode acumular por outro, e com isso já deixou de valer a pena o investimento. A operadora tem que visar o lucro sim, mas isso não pode transparecer para nós. Já mergulhei com operadora (em outra cidade) que me cobrou pelo lastro. Nunca mais voltei nela. Não por esse pequeno valor, mas pela atitude. Se ela não tivesse me parecido tão gananciosa, certamente ela veria mais dinheiro meu por lá. Parabéns mais uma vez, André. Acredito que alguém possa até estar lhe questionando por suas declarações, como se você estivesse dando um tiro no próprio pé. Mas, acho que você foi muito astuto e inteligente, pois a credibilidade é imprescindível para que qualquer negócio bem sucedido não enfraqueça. Um abraço a todos e bons mergulhos! Gustavo

  16. HEBER escreveu:
    October 10, 2008 @ 10:06 — Responder

    ACHEI LEGAL, MAS ACREDITO QUE O "SURF" TENHA CHEGADO ONDE CHEGOU GRAÇAS A TODO PROCESSO CAPITALISTA QUE ENVOLVE OU ENVOLVEU ATÉ O HOJE O "SURF". 'NENHUMA EMPRESA INVESTE BILHÕES DE DÓLARES EM EQUIPAMENTOS E PESQUISAS, SEM CALCULAR O RETORNO DE TUDO ISSO. UMA VERDADEIRA TROCA ! ! ! "SURFISTAS" PAGAM PARA TEREM INFORMAÇÕES E EQUIPAMENTOS DE ÚLTIMA GERAÇÃO, E AS EMPRESAS CONTABILIZAM SEUS LUCROS ! ! ! NORMAL PRO MUNDO CAPITALISTA MODERNO EM QUE VIVEMOS ! ESTA HISTÓRIA FICTÍCIA SOBRE O "SURF" É SEM DÚVIDA IDÊNTICA A QUALQUER SEGMENTO, SEJA O MERGULHO, O SKI, O PARAQUEDISMO, A NATAÇÃO, O FUTEBOL, O VOLEIBOL, O AUTOMOBILISMO, ETC....... ENFIM, VAMOS "SURFAR" ! ! !