
Hoje um dos pioneiros do mergulho do Brasil aposentou eternamente as nadadeiras. Saiba mais sobre Lopes clicando na foto acima.
Complemento do Eng. José Francisco Geiger Dortas:
É, porém o velho Lopes não era só parceiro e professor de mergulho não. Me aproximei dele quando, por imposição da situação naquele momento, montamos uma empresa com mais três mergulhadores e fomos trabalhar juntos na reconstrução da ponte do TEMADRE. Logo ele foi em minha casa e disse a minha mãe "com mergulho se ganha dinheiro, porém não é uma atividade constante e tem que se administrar isto".
A equipe de trabalho só tinha loucos, começando pelo Waltinho Acarajé, extremamente forte, nadador, (nadou até no Canal da Mancha), O Manuel, nativo da ilha de Maria Guarda, um
armário com 1,80m e um cavalo para trabalhar, (levava, Mário, sobrinho do Lopes, que era mergulhador de novo, amarrado nele para não subir), o Carlos Figueiredo, o Maluquinho, que colocava bombas na Ribeira e morreu vitimado por uma em Cações, já aposentado da Petrobrás, quando então o Lopes disse "viveu como maluco e morreu como tal" e eu, na minha porra louquice da idade e bastante força física para extravasar. E Lopes administrando todos.
Meu pai faleceu em 1963 e eu tinha 17 anos e comigo ficaram uma viúva, quatro irmãs com idade de 12 a 1,5 anos e sem casa própria. Estudava e logo fui trabalhar, quando também remava, nadava, namorava, mergulhava bem, brigava na rua, me julgava imortal e não tinha no momento nenhuma referência paterna, se não a lembrança de meu falecido pai que era vaga e não formativa.
Aí chega o Lopes. Na profissão que eu queria ingressar, consciente, maneiro, excelente e conceituado profissional nas empresas em que trabalhava, extremamente honesto e com uma particularidade que era de finalização nos trabalhos a que se propunha executar. Adotei-o em silêncio como meu segundo pai e nos aproximamos mais.
Tinha uma avidez fantástica pela cultura inobjetiva, que eu assim chamo porque é alheia a profissão ou atividade que se pratica, e como lia muito e não tinha com quem conversar, fui então o escolhido, quando discutíamos sobre o Vietnam, a batalha de Dien Bien Phu, onde os franceses foram derrotados, sobre a ditadura no Brasil, sobre a Rússia e a China que já achava ser um pais emergente pela cultura milenar, falávamos sobre os monges budistas que se atearam fogo e o seu controle sobre a dor e suas viagens astrais, a política americana, religião, que malhava com a seguinte declaração: "Se você passar de carro e ver em uma cidade um bocado de igrejas é bonita e também atrasada, agora se ver chaminés lançando fumaça no ar, é progresso, que é o que o povo precisa" , e tudo mais, sobre tudo e todos. Lia avidamente e sabia de tudo bem antes da globalização e pelos seus olhos passavam livros diversos, inclusive a americana Seleções, com a sua variedade de assunto.Como eu também sou assim, era o parceiro que ele procurava e ai as conversas eram longas se estendiam em sua varanda até tarde, com os pernilongos criados nos alagadiços de Paripe, local onde morava, nos atacando. Quando eu não tinha ainda carro, ia de trem conversar com ele, quando retornava no último horário. Se entusiasmava com os OVNI, com a suburbana recém construída, com o petróleo agora descoberto na Plataforma Continental e tudo mais.
Ultimamente conversávamos mais sobre o espiritualismo e o porque do viver, quando contestando declarava ser uma grande vaidade de um casal querer por um filho no mundo, quando só iria sofrer, desde o choro na hora do parto, furar orelha, no nascer e no ter a dor de dentes, ter de tomar banho, estudar e trabalhar, "Se o homem pensar na vida, abomina a hora de ter nascido". Quando lhe disse que ia me casar em 1973 ele me perguntou se a mulher era bonita e eu lhe disse que sim e ai retrucou: "Se lembre que ela não vai só. Vai também sogro, sogra, cunhado, primo amigos e tudo o mais e desejo-lhe sorte que todos sejam legais, honestos e trabalhadores". Nisto eu dei sorte.
De vez em quando e ultimamente eu almoçava lá, quando ele reservava uma garrafa de vinho e uns assados gostosos que eu temperava com mais um pouquinho de sal, que agora ele não mais comia, e passávamos momentos inesquecíveis, comendo e rindo na copa de sua casa, por ele construída. Devo a ele hoje o que sou porque ele foi a minha faculdade na vida e continuo sendo até hoje mais mergulhador do que engenheiro e com muito mérito, pois nele vi o enobrecimento desta profissão e como eu sempre digo, a maior parte do que tenho foi chupando ar de umbilicais, o que soma um considerável volume, realizando trabalhos na profissão que escolhi e até hoje com quase 62 anos, me realizo e tento passar com humildade para os mais novos.