Água suja X Sujeira na água

September 20th, 2008

Venceu a água suja. A visibilidade estava quase zero no Cleanup Day, que acabou ficando restrito à zona da praia.

O Cruzeiro do Sul e o Necton Sub bem que tentaram.

SURF NO CLEANUP DAY
Mas teve gente que gostou.

surf no cleanup day 1
Você sabia que se surfa na região do naufrágio Blackadder (Praia de Boa Viagem)?

Moral da estória:
Muita sujeira na água = Excelente resultado do Cleanup Day
Água muito suja = Não acontece Cleanup Day (de mergulho)

Mais um dia especial para o Saveiro Elegante

September 19th, 2008

Pelo telefone:
- Marcelo, estou aqui no Bonfim vendo o saveiro Elegante sendo fibrado.
- Putz! Matou o barco! Sou contra!

...

É assim. Fibrar saveiros há os "a favor", os "contras" e os "nem a favor, nem contra. Muito pelo contrário".

Mas estar presente diante dos construtores navais Mário Mukeka e Fanta (do Estaleiro Fantástico) e respectivos ajudantes já é motivo para bons momentos de diversão. Evidentemente se o barco não for seu.

lista de material

A lista de material: 1 balde – catalisado, 1 balde – tirar resina, 1 balde – tiner, 1 balde – reserva, 2 tabuas, 1 vasoura piassaba, 1 medidor de catalisador, 1 medidor de 2kl de resina, Sacos de super mercado (sapato), Madeira para mistura resina, Disco de lixa, 50 gramas cha, 2 rolos de la tigre, 1 caixa de leite, 2 k de açucar, 60 casetinhos, 500 g de manteiga, 2 latas de goiabada, Nescafe, Nescau, Faca x colher, 3 cabos estensores dos rolos, Mascaras de po, Bucha banho Mário, Poste c/ cocoi, estensao

mukeka pousa de chefe

Mário Mukeka posando de Chefe da Obra. Segundo o próprio, quem "garrou" experiência com Rogério Duarte não pode estar na base da pirâmide.

fanta

Fanta não deixa por menos: Mukeka, cadê a resina, meu filho?!

quilha elegante

Todo barco tem alma. Não pode ser algo industrializado, simétrico, previsível... chato!

caixote

"Caixote", braço direito de Fanta. Foi ele quem fez o último serviço no Necton Sub. Apelidou Marquinhos de Capenga.

roque

Roque, o Poeta da Escadaria, na engenharia: "Pode subir que eu agüento. Tá seguro!". Caixote é maluco, mas tem juízo: "Num precisa mais não, seu Roque."

na falta de estopa

Mário esqueceu de colocar estopa na lista de material.

fanta de chefe

Sinal dos tempos pós-modernos: Assistente para atendimentos telefônicos. Mas só para quem é chefe!

venenosa de percevejo

Numa discussão sobre tinta venenosa a base de pimenta, eis que surge no ar uma idéia: tinta com o extrato de percevejo.

O proprietario

O Proprietário do Elegante passou ordens para Mário. O Elegante passou do Proprietário ordens para Mário. Ordem Mário, passou o Elegante para o proprietário. Passou ordem Elegante o Proprietário para Mário. Mário passou do Elegante ordem para o Proprietário. Foi mais ou menos assim!

Artur Barrio explica:
O acúmulo de água doce devido a chuva, etc. nos porões, por o barco ser de madeira, acarretará com o tempo o apodrecimento da mesma, o que não aconteceria se a água fosse salgada ! O fibramento evita a entrada de água, mas cria outro problema. Há que ficar de olho.

O pragmático Proprietário:
Existe uma vantagem sobre aplicação da resina em barcos antigos... "NUNCA MAIS VOU TER QUE LABUTAR COM CALAFATE! Ô RAÇA FILA DA PUTA! QUEM TEM BARCO DE MADEIRA QUE SE PRONUNCIE.

* * *


Dois dias depois foi realizado o trabalho de colocação de uma quilha. Novamente Roque, o engenheiro civil e naval (ex-poeta) deu sua enorme contribuição, segundo Toni Duarte, testemunha ocular:

"Com uma enorme precisão, o poeta Roque fez as medições das furações da quilha do saveiro Elegante: um palmo, dois dedos, uma unha e um pentelho."

roque engenheiro

Fica a pergunta: Quantos pentelhos tem uma unha?

O Diabo Loiro (versão completa), por Mário Mukeka

August 26th, 2008

O barco do mais famoso pirata do rio Paraguaçu afundou na região no século XVII ao bater em algumas pedras da borda. A história conta que Van Den Bergh conseguiu fugir em outra embarcação. Mas seu barco ficou no leito do rio, segundo historiadores, com 150 mil moedas de ouro e muitas outras riquezas.

Uma manobra infeliz

Chovia muito. No céu não havia estrelas. E, com uma tempestade se formando pelo sul, o "miseravão" resolveu entrar no Rio Paraguaçu. Contava com a escuridão para não ser visto e aumentar o impacto do seu ataque surpresa.

Van Den Bergh era da primeira leva (de marinheiros) que chegou com Mauricio de Nassau, tinha todas as cartas náuticas disponíveis do Paraguaçu e a experiência de vários ataques ao longo de sua carreira. Assim, não via problema em entrar no rio nessa situação, em tese adversa.

Como previsto, passou despercebido pela principal bateria no pequeno Forte da Salamina que, mesmo sem grade poder de fogo, servia para os alertar engenhos, rio acima, de algum perigo eminente. Com o caminho livre tomou o rumo do mais rico engenho da região e, numa manobra infeliz o vento sul lhe jogou de encontro à borda do rio. A embarcação montou em um cabeço de pedra, tombando de lado e, em uma fração de segundo, afundou no canal de navegação. E lá ficou enterrada na lama com tudo que havia dentro.

Como não foi dado nenhum tiro, tudo que a população percebeu ao amanhecer foi o sumiço de uma chalana, uma pequena embarcação que foi usada na fuga de Van Den Bergh.

Apesar de ser temido, sem um barco cheio de canhões e "com a guia totalmente quebrada" a liderança de Van Den Bergh perdeu o sentido e sua tripulação se espalhou pela Baía de Todos os Santos.

Foram alguns sobreviventes que relataram o episódio da perda da embarcação, pois Van Den Bergh nunca mais foi visto.

pirata por mauricio

Imagem de Maurício Gonçalves. Clique na ilustração para entrar no site original.

A partir desse trecho, para proteger conhecidos; nomes, locais e datas não serão necessariamente verdadeiros.

Consta em relatos no Arquivo Público do Estado da Bahia que a tripulação de Van Den Bergh passou a vender a única coisa que tinha, o que se chama hoje de logística. Assim cada pé-de-chinelo que navegou com o piratão se transformou num grande especialista em ataques aos engenhos do Paraguaçu.

Dois acidentes geográficos colaboravam com as táticas de ataque, o Morro de Santo cristo, na região que se chama boca do Paraguaçu, e a Ilha do Francês a menos de uma milha rio acima.

Atravessada no rio, a pequena Ilha (do Francês) era um biombo perfeito. A partir de sinais vindos do topo do Morro do Santo Cristo, o ataque acontecia. Entrando ou saindo do rio era ali que o "bicho pegava".

Em 2002 se formou uma conexão: biólogos, historiadores, aglomeradores matemáticos e mergulhadores especializados em água de baixa visibilidade passaram a se reunir em uma antiga boate na Ladeira da Preguiça e começaram a trocar informações.

Hoje o Paraguaçu é um rio modificado. A barragem de Pedra do Cavalo criou um novo padrão de comportamento. Sua flora e fauna se desorganizaram (ou organizaram de outra forma), muita coisa desapareceu, como as lindas águas vivas que pareciam disco voadores e em grandes quantidades povoavam a Baía de Todos os Santos.

A desorganização desse rico ecossistema também modificou a qualidade da água e, em determinados momentos, a visibilidade melhora sensivelmente. A partir de informações meteorológicas pode se prever um padrão na vazão das comportas e programar um mergulho. Sondagens magnéticas indicaram que, em volta da Ilha do Francês, existe uma grande quantidade de entulhos. Porém, por ser a parte mais funda do rio, só é possível exploração desses vestígios materiais com o emprego de tecnologia de ponta. Isso implica na legalização da busca, coisa quase impossível com a atual legislação, que favorece às grandes empresas de caça ao tesouro. Mas, os destroços que se encontram agarrados nas suas bordas como o de Van Den Bergh podem ser explorados com tecnologias de baixo custo.

Fibra, moedas de ouro e cachos de banana

Quando o governo, numa medida populista-eleitoreira, forneceu canoas de fibra de vidro para os pescadores locais se criou um mercado de reparos dessas embarcações de quinta categoria, que se desmancham sem bater.

Essas canoas estão sempre precisando de consertos. Foi assim que apareci, como um especialista em fibra de vidro. Fui apresentado por lideranças locais e passei a fazer serviços de reparo em fibra a preço de banana - literalmente. Muitas vezes fui pago com cachos dessa fruta, siri catado, lambreta e sururu. Com todos esses elementos conspirando a meu favor, comecei a fazer perguntas despretensiosamente.

Um dia me trouxeram uma garrafa antiga, cor verde escura, com um selo de vidro gravado o nome de Van Den Bergh. Eu já vinha pesquisando esse nome por 16 anos e, em 1990 encontrei a primeira citação sobre sua tragédia no Arquivo Público da Bahia. O documento dizia que Van Den Bergh tinha planejado um ataque que não dera certo. Era tudo que se sabia e que sua tripulação se espalhara vendendo seus serviços.

van dem berg

Agora, mais de trezentos anos depois, estava nas minhas mãos uma garrafa personalizada da sua adega. Naquele momento percebi que eu podia descobri o barco do "miseravão". Enfim tinha encontrado o Diabo Loiro.

Acompanhado de um especialista com grade prestígio na região, fomos até a casa do pescador, que supostamente encontrara a garrafa. Para minha surpresa, o pescador era uma marisqueira que trabalhava na beira do rio.

Informações de pessoas ligadas às ciências naturais dão conta que o nível do Paraguaçu baixou após a construção da barragem. E hoje, as marisqueiras pescam na beira do peral.

Minha velhinha, como eu passei a chamar a marisqueira que eu conheci, me contou que uma comadre dela tinha achado uma peça que ela chamou de caçarola cor de rosa. Conversa vai, conversa vem, depois que minha velhinha garrou confiança, resolveu me levar na casa de sua comadre, porque eu disse que queria copiar a caçarola, usando o barro da região.

A tal caçarola é um maravilhoso candeeiro aromatizante, com a marca de um barco com vela de junco. Uma jóia em porcelana cor de rosa por fora e branca por dentro. Usando óleos aromatizantes e uma bucha de algodão ela voltou a espantar os mosquitos da região.

O barco de Van Den Bergh, que está coberto de areia e lama, depois da construção da barragem de Pedra do Cavalo, passou a ficar em seco durante a maré baixa. E hoje o banco de areia que ele formou serve como campo de futebol.

Anteriormente, quando ele ficava totalmente submerso, tinha se transformado em um grande pesqueiro e com o passar dos anos, como sempre tinha muito peixe no entulho que ele formou, passou a ser atacado por centenas de dinamite, uma infeliz pratica para matar peixe em toda a Baía de Todos os Santos.

O carma do homem dura até hoje e seu barco, mesmo repousando no fundo do Paraguaçu, não tem sossego. Essas explosões de dinamite partiram quase que a totalidade das suas peças de vidro e porcelana. Que se sabe, a garrafa e o candeeiro são os únicos objetos inteiros que apareceram.

Em dado momento, comecei a comprar cacos de porcelana, dizendo que uma amiga gostava de fazer mosaicos. Sacos e mais sacos apareceram. Em uma grossa análise dessas peças já se percebe a impressionante diversidade de procedências. São as mais finas porcelanas que eu já vi. Como Van Den Bergh pilhava muito, tem peça de vários cantos do mundo.

Pelo padrão do formato das peças, tudo indica que foram quebrados pela mesma força de impacto. Até porque a quantidade de dinamite é sempre a mesma. De certa forma a água amortece o impacto e os atuais cacos de louças podem fazer lindos mosaicos, ficando livres da tirania das suas formas originas.

Mário Andión Cortizo "Mukeka"
Cidade da Bahia, agosto de 2008.


1° Curso de CCR Full Trimix

August 20th, 2008

No transcorrer da última semana foi realizado em Sorocaba - SP o 1° Curso de CCR Full Trimix (Mod "3"), com o apoio da operadora Subaquática e mergulhos na Pedreira de Salto de Pirapora (77 m).

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Pedreira de Sorocaba, local de maior concentração de treinamento de mergulho técnico no Brasil

Através desse curso, ministrado pelo instrutor de rebreathers e membro do Board of Advisors da IANTD Mike Netto, os mergulhadores participantes foram habilitados a fazerem mergulhos profundos com rebreathers de circuito fechado (CCR), usando misturas Heliox/Trimix e Heliar até profundidades de 100 msw+.

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Mike Netto com uma máscara full face


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Um rebreather é menos volumoso e pesado do que um conjunto de cilindros duplos, reguladores, back-plate com asa e stages usados no mergulho técnico

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László Mocsári, Bruno Fagundes e Mike Netto

Parabéns a Carlos Janovitch e László Mocsári que, juntamente comigo, foram formados durante esse curso e tiveram a oportunidade de se aperfeiçoarem no que tem de mais eficiente e moderno atualmente em se tratando de mergulho técnico, que é sem dúvida o mergulho com rebreathers de circuito fechado.

Abraços,
Bruno Fagundes
IANTD eCCR Megalodon Diver
IANTD CCR Trimix Diver
IANTD CCR Normox Trimix Diver
TDI Extended Range Diver
TDI Trimix Diver
TDI Decompression Procedures Diver
TDI Advanced Nitrox Diver
DSAT Trimix Gas Blender
IANTD Divemaster
PDIC Divementor

Van Nassau, o primo do Conde. Por Mário Mukeka

August 11th, 2008

Van Nassau, o primo do Conde

Quando o Conde João Maurício de Nassau-Siegen recebeu a sua frota, seus olhos estavam voltados para a Bahia. Pois, antes de 1624, Van Nassau, seu primo e maior general, já havia entrado na Baía de Todos os Santos. Não se sabe quando, nem como. Mas, todos os fortes da encosta de salvador foram cartografados pela sua tropa.

O que Van Nassau não viu ou não foi informado sobre a fortaleza de Santo Antônio Além do Carmo. Como um general de guerra jamais faria um ataque a uma cidade escolhendo logo uma praia protegida por uma fortaleza em cima de um morro, uma posição privilegiada. Mas foi o que ele fez. Achando que entraria na cidade pelas suas costas o maior general da frota holandesa em 1624, com uma esquadra de 16 barcos de guerra super armados e uma tripulação estimada em 1600 homens, entrou na Baía de Todos os Santos, mantendo distância dos fortes da encosta da cidade. Guinou todo a boreste (direita) após a ponta de Humaitá, quando encostou no que hoje é o bairro do Uruguai.

salvador gravura francesa

Imagem do acervo do Eng. Ubaldo Senna Filho

Recebeu bala, muitas balas vindas da fortaleza de Santo Antônio. Pego de surpresa, o general trocou tiro com o forte por uma semana. Não se sabe se por raiva ou se tinha a esperança que a munição do forte acabasse.

Após sete dias ficou claro que por ali ele não entrava. Então Van Nassau propôs um acordo: Desistia de atacar e iria embora, desde que não fosse incomodado na sua saída. O acordo foi aceito e o general partiu para o norte do Brasil.

Relatou os acontecimentos para Mauricio de Nassau. Então os planos foram refeitos porque havia uma clara intenção de invadir Salvador.

Um ataque bem pensado

A primeira novidade era que ao invés de 16 barcos Van Nassau viria com mais de 30. Em 1624, no comando desta esquadra o general apareceu na boca da Baía. Para surpresa de todos não entrou. Mas foi "um-deus-nos-acuda". Mensageiros foram mandados para todo recôncavo e dos engenhos vieram milhares de combatentes. Do dia para noite Salvador se transformara em uma trincheira.

O general espalhou a sua frota entre o Farol da Barra e o Morro de São Paulo. Ninguém entrava, nem saía e assim se passaram os dias. O ataque é hoje! Não foi, vai ser amanhã. Com um mês nessa situação a cidade ficou um mangue. A falta do que fazer e o estresse da espera do ataque levaram a um consumo desenfreado de álcool. As noites pelos bordéis eram longas.

salvador gravura

Imagem do acervo do Eng. Ubaldo Senna Filho

Nesse ínterim, parte da tropa holandesa se juntou com os índios do atual bairro Rio Vermelho e entenderam a dinâmica do pequeno rio que nasce na Barroquinha e, seguindo pela Djalma Dutra deságua no mar, cortando o vale que hoje é a Vasco da Gama. Perceberam também que se parassem o pequeno riacho na altura do Engenho Velho de Brotas, o trecho que ia até a Barroquinha alagaria e os batelões (um barco menor) de reconhecimento dos galeões conseguiriam navegar.

E assim, em uma noite entraram pelo Rio Vermelho e ao amanhecer, na praça Castro Alves, só tinha holandês. A cidade foi rapidamente tomada. Van Nassau que comandava o ataque, ancorado ao largo, ordenou um avante em direção do Solar do Unhão. Local onde se encontrava uma frota da União Ibérica com mais de 40 barcos. Trinta e poucos foram para o fundo e os dois primeiros barcos holandeses que desarrumaram essa frota também desceram formando o maior entulho arqueológico subaquático das Américas, o Banco da Panela.

Van Nassau aqui ficou por um longo ano. Várias tentativas de retomar a cidade foram feitas. A mais pitoresca foi organizada pelo Conde Dias D'Avila, que montou uma tropa com dois mil índios Cariris e partiu da Praia do Forte até o Convento do Carmo, que tinha se transformado no quartel general holandês. Dias D'Avila contava com a surpresa da madrugada para invadir o prédio e tinha acertado com os índios que o silêncio era fundamental. De forma que o tradicional grito de guerra dos índios não seria usado. Mas, ao se aproximar do local os índios não se contiveram e numa atitude condicionada começaram a gritaria. Quase todos foram mortos pelos holandeses.

Van Nassau que jamais pôs os pés em Salvador. Por uma questão de segurança, comandava embarcado na sua frota. E jamais dormia duas noites seguidas no mesmo barco. Mas, mesmo um grande general tem suas manias e preferências. Então, assim como tinha barcos que ele jamais dormia, em outros era costumeiro. Três embarcações eram de sua preferência: Utrecht, Huys Van Nassau e um barco menor.

Comandado por Dick Van Den Bergh, acompanhado de Jacob Cort do Utrecht e Gysseling da nau Huys Van Nassau, o general traçava seus planos e, de lá, dava as suas ordens. Na verdade estes três comandantes eram o seu estado maior. Jacob Cort era o seu braço direito e comandava o mais opulento barco da frota holandesa, o Utrecht. O mais sanguinário era Van Den Bergh, que se destacava pela sua capacidade destemida de avançar contra os inimigos. Foi ele, junto com um outro alucinado, que desarrumaram a esquadra que estava no Solar do Unhão, entrando no meio da frota, cuspindo bala por todos os lados. Os dois barcos foram para o fundo, mas Dick Van Den Bergh se salvou. Como prêmio pela sua ação suicida ganhou um barco maior.

Após um ano de saque, Salvador não oferecia muitos atrativos e era muito dispendioso manter a cidade ocupada. Assim logo após a morte do seu general que comandava a invasão por terra, decapitado quando voltava de uma incursão pela Estrada da Rainha, no bairro da Liberdade e com notícias que a União Ibérica mandara uma poderosa esquadra, Van Nassau resolveu deixar Salvador. Assim contam alguns historiadores.

Mário Mukeka, além de mergulhador, músico, construtor naval, é um pesquisador das invasões holandesas no Brasil.

Uma história de pescador (submarino)

August 2nd, 2008

Nos meus quarenta e poucos anos de mergulhador tive a particularidade de participar de quase a totalidade de obras e acontecimentos relacionados ao mergulho que aqui (na Bahia) se desenvolveram, e que geraram histórias, no que citarei agora um caso simples, que gerou uma polêmica na revista de mergulho "MERGULHAR".

Era início dos anos 70, eu estudava engenharia na Escola Politécnica e trabalhava nas sondagens do emissário da TIBRÁS com a Christiani Nielsen, já como mergulhador profissional, quando em Arembepe conheci o José Maria Rebelo, o Juca, que lá praticava a caça submarina e mais tarde tornou-se um grande profissional e o descobridor do Galeão Sacramento com o Chico Diabo, e no segredo, de outros navios mais.

Arduino Colasanti

Arduíno Colasanti durante a sua palestra "Mergulho no Brasil - Os primórdios", em Sorocaba (SP), 2 de agosto de 2008.

Era comum vir a Bahia mergulhadores do Rio de Janeiro para praticarem a caça submarina, e dentro deles de certa feita veio o Arduíno Colasanti, que conheci pessoalmente de forma superficial. Ele trabalhou em filmes e novelas e em especial no "Como era gostoso o meu francês", onde representava um francês prisioneiro dos índios Tamoios que habitavam as ilhas do Rio de Janeiro, aliado dos portugueses, e que no fim é comido. Casou-se com Sônia Braga e aqui esteve anos mais tarde com uma escuna que veio da Guiana, agora casado com outra linda mulher, provavelmente encantada com as suas conversas de marinheiro.

Arduíno foi um dos maiores matadores de peixe na época e veio aqui na Bahia justamente para isto. Enturmando-se com os amigos do Eraldo Gama Lobo, saiu certo dia para uma pescaria, quando foram levados por um marcador da ilha de Itaparica, para uma pedra onde ele dizia existir muitos peixes.

Após um mergulho, sobe o Arduíno com o arpão em aço inox quebrado, alegando ter dado um tiro na cabeça de um mero bem brande, que disparou para a areia, saindo da pedra em que mergulhavam.

A história ficou como acontecido, outros peixes foram mortos, e a pescaria terminou. Tiveram outras e o Arduino voltou ao Rio.

Jornada Randal e Arduino

Da esquerda para direita: Alvanir Oliveira "Jornada" (the guy of NAUI Mercosul), Randal Fonseca (que foi sócio de Arduino) e a própria lenda viva do mergulho brasileiro.

Ano de 1970, em abril ia se realizar um torneio Universitário de Caça Submarina em Cabo Frio, no Rio de Janeiro. Contatei o Chico Diabo, e então eu e ele iríamos em meu carro, um Karmann Ghia, e lá juntaríamos com o Fernando Phileto para formar a equipe. Como apoio local, o Chico tinha lá um amigo, farrista da pesada, chamado Chico Botelho.

Próximo ao dia da viagem o Eraldo da Gama Lobo nos chamou, pois queria nos dar uma encomenda para levarmos.
Aconteceu que, após o dia da pescaria em que o Arduíno estava presente, o marcador que os tinha levado, retornou a pedra e jogou uma linha pegando um grande mero.

Ao tratá-lo para a venda, encontrou encravado na cabeça uma peça metálica que retirou e viu tratar-se de uma ponta de arpão e quando levantou a barbela viu gravado o nome Arduíno.

Reencontrando-se com o Eraldo no Porto da Barra, o entregou, e agora iríamos levá-lo para o italiano lá no Rio de Janeiro, no que o colocamos na bagagem.

Chegando ao Rio, o Chico procurou o Arduíno por telefone quando soubemos que estava fora e entregamos a encomenda a um amigo seu.

Muitos anos mais tarde abro a revista MERGULHAR e lá estava uma polêmica na qual estava citada em tom de chacota o caso da ponta de arpão.

O caso havia sido deturpado, criando a história que o mero foi capturado no Rio e o Santarelli, que acredito ter sido amigo do Arduíno e agora o atacava, pois tomara, após ser um grande matador de peixe uma posição preservacionista, que ia de encontro com o objetivo comercial da COBRA, empresa de sociedade do Santarelli, que vendia boas armas óleo pneumáticas.

Tentei corrigir os fatos mediante um comunicado, mas a polêmica estava lançada e mais tarde vierem muitas e muitas outras, inclusive de umas ânforas fabricadas no Rio à réplica das romanas encontradas no Mediterrâneo, e afundadas na baia da Guanabara para envelhecimento e incrustações de organismos marinhos, para qual motivo ignoro, que foram achadas por um mergulhador, criando a polêmica da existência de navegação romana nas nossas paragens, e que gerou muita conversa e ataque pessoais.

Arduino Colasanti e Andre Lima

André Lima encontra Arduíno Colasanti para tirar a dúvida.

Aproveitando que no encontro da NAUI em São Paulo pedi ao André para confirmar e corrigir este relato, caso fuja um pouco da verdade dos fatos.

Dortas

André Lima complementa:
Infelizmente só consegui conversar por pouco tempo com Arduíno. Mas, uma questão primordial ao caso é que ele só recebeu o pedaço do arpão anos depois, com a notícia que o mero havia sido pescado no Rio de Janeiro. E, por último, disseram para ele que havia uma protuberância anormal na cabeça do mero, exatamente no local da ponta do arpão. Ou seja, parece que aprontaram uma brincadeira com o nosso pioneiro mergulhador.

Habilidades e personalidades...

July 27th, 2008

Historicamente os noruegueses são os que tem mais "títulos" na exploração polar. Nansen inspirou Amundsen, outro norueguês. A disputa pelo pólo sul matou o mal preparado, porém muito bem financiado, Scott. Scott morreu porque sua tripulação, que entendia o ego do capitão, não permitiu que nem Amundsen nem Shackleton fossem busca-lo a poucos quilômetros de onde estava o navio.

Porém não foi apenas Scott que morreu por seu ego. O próprio Amundsen também. Quando resolveu dizer que poderia salvar o humilde Nobile que havia feito um vôo em dirigível sobre o pólo norte. Morreu Amundsen e Nobile foi resgatado por outros.

Posso dizer que o único que não morreu por seu próprio ego, além de Nansen, foi Shackleton. Que depois de mais de 15 meses preso no gelo antártico não havia perdido um só dos seus 22 homens.

A exploração polar (tanto norte como sul) é uma das mais belas histórias de coragem, companheirismo e submissão do homem frente à natureza. Existem muitos livros que contam estas belas histórias, deixo aqui apenas os links para os principais personagens:

Fridtjof Nansen
Roald Amundsen
Robert Scott
Ernest Shackleton

E o que o título tem a ver com o que eu escrevi? Não sei, cada um pense o que quiser (mas só depois de ler bastante).

“Se submerso trazemos, se perdido encontramos”

July 19th, 2008

É o lema do Núcleo de Mergulho do Corpo de Bombeiros da Polícia Militar da Bahia. Este Núcleo foi criado em novembro de 1999 e ficou sob comando do então 1°Ten PM Márcio Cirne de Santana, que já havia realizado o desgastante curso de mergulhador autônomo no CIAMA (Marinha do Brasil), o que lhe custou alguns problemas nos joelhos.

nucelo mergulho yemanja

Equipe de Núcleo de Mergulho em uma das embarcações. Foto por André Lima.

Mas era preciso formar uma equipe de trabalho. Assim, o Ten Cirne, através da Academia de Polícia Militar da Bahia, organizou e conduziu o Primeiro Curso de Mergulhador Autônomo da Polícia Militar - Categoria Oficiais, no ano 2000.

nucleo graer

Núcleo de Mergulho colaborando com o GRAER nos treinamentos de mergulho autônomo. Foto por Cap PM Wolney.

Foi um mês de muito "traquejo", técnicas e conhecimento teórico, contando com a participação do instrutor André Lima. Foi um grande passo para consolidar o mergulho no Corpo de Bombeiros.

nucleo graer necton

Integrantes do Núcleo de Mergulho e dos GRAER embarcados no Necton Sub. Foto por Cap PM Wolney.

No ano de 2003, sob a coordenação de Cap PM Carlos Miguel de Almeida Filho, foi realizada a segunda turma do Curso de Mergulho Autônomo Categoria Oficiais e Praças. O médico hiperbaricista Dr. João Rodrigues David Neto foi o responsável pela aula inaugural.

nucleo yemanja 2008

Núcleo de Mergulho na Festa de Iemanjá de 2008, mais um apoio para a segurança dos participantes dessa bela homenagem à Rainha do Mar, que ocorre anualmente no dia dois de fevereiro. Foto por André Lima.

logo nucleo mergulho

Clique no emblema acima para entrar na página do Núcleo de Mergulho.

A caranha do Emissário do Rio Vermelho // RETIRADA

July 18th, 2008

From: Patrick Marques Trompowsky
Date: 2008/7/18
Subject: retirada de relato referente à pesca ilegal
To: leonardofialho@gmail.com
Cc: roberto.borges@ibama.gov.br


Sr. Leonardo Fialho,
Haja vista que o relato expresso no link www.nectonsub.com.br/item/546, cujo domínio o senhor é proprietário, é expressamente ilegal conforme consta nas Portarias Ibama 1.583/1989 e 30/2003, solicito a retirada imediata deste por configurar apologia ao crime.
O senhor terá um prazo de 15 dias a partir de hoje, após o qual haverá comunicação de crime ao Ministério Público para as devidas providências legais.

Att.
Patrick Marques Trompowsky - Analista Ambiental CGFIS/DIPRO IBAMA

Atendendo à solicitação acima, o texto foi retirado.

A descoberta casual do Queen

July 9th, 2008

Em um dia de outubro de 1984 saímos para uma avaliação no mar (check-out) com nossa turma de mergulho iniciada em julho e comandada por Pedro Santana e Zé Lauro (in memorian). Nosso grupo era de aproximadamente 20 pessoas entre alunos, instrutores e divemasters da Submersa (Escola de Mergulho). O mergulho, chamado de qualificação, era realizado a 30m de profundidade, na Baía de Todos os Santos.

abelha

Marcos Vitória ganhou o apelido Abelha por usar nesse curso uma máscara que o fazia lembrar os olhos de uma abelha. Foto da inauguração da reforma do barco de mergulho Thunder.

Terminado o mergulho com todos os presentes já embarcados na baleeira Moby Dick seguimos viagem de volta ao píer da Capitania dos Portos (Quebramar Sul), local aonde realizamos as aulas práticas. Quando, durante o trajeto, a escada do barco caiu e, ainda com este em movimento de retorno ao possível local da queda, Pedro Santana gritou... “Para água Abelha”. Não sei por que ele me escolheu, mas tive que mostrar serviço e rapidamente me equipei e desci. Cheguei ao fundo muito rápido e comecei a procura. De repente avistei louças inteiras (pires, pratos, canecas...), coletei algumas, quando senti alguém me tocando e pedindo para ver o que tinha em mãos. Era Robson (divemaster), que assim que viu o que eu tinha coletado tomou tudo e me mandou subir imediatamente. Como bom soldado cumpri a ordem.

Em seguida Robson subiu com as louças e a escada. Encostou-se a Pedro para cochichar num canto e começaram a olhar para terra, na intenção de marcar o local, pois não existia GPS.

Alguns dias depois Pedro me ligou e pediu para ir à sua casa na Mouraria. Ao chegar lá ele me disse que era um destroço de navio afundado e eles já tinham voltado lá para coletar mais peças. E me mostrou muitas louças e garrafas com mercúrio (muito pesadas face a densidade do elemento). De pronto perguntei-lhe “Vão realmente explorar, já que estão sobre as barbas da Marinha? E como fazer para não serem notados?”. Foi quando Pedro me disse: “Abelha, o Cézar Freitas (seu sócio) tem um tio que ocupa o cargo de Ministro da Previdência”. Na época que era o Carlos Santana. E, somente por isso, tudo ia correr bem. Ou seja, iriam conseguir a licença de exploração do achado e por confiar nisso já tinham até marcado entrevista na televisão.

Achei tudo muito fantasioso e cantei a pedra “Se ocorrer isso que você está dizendo pode considerar o achado embargado!” Pedro disse “Que nada, o homem é ministro”. Eu retruquei: “... da Previdência!”.

Dito e feito, foram para televisão falar do achado e poucos dias depois o Gastão Moutinho, na época era o barco de salvamento de submarinos da Marinha postou-se no local e só saíram de lá meses depois. O que retiraram só eles sabem.

Pedro não parava me dar razão após o embargo.

Essa é a história do achado casual do Queen navio inglês naufragado dia 1º de julho de 1800.

Abraços,
Abelha
Marcos Vitória

Saiba mais sobre o Queen:
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