Naufrágio de Arembepe, Bahia. Por Bruno Fagundes

31 de julho de 2007 por Leonardo Fialho

Mergulhar em naufrágios é uma das atividades mais gratificantes do mergulho amador, pois consegue aliar o uso de técnicas especiais com o aspecto histórico que envolve a descoberta e a identificação de sítios.

Em Salvador, capital do Estado da Bahia, nós temos diversos naufrágios importantes, de diferentes épocas históricas, o que torna quase uma atividade corriqueira mergulhar nesses pontos.

Dos naufrágios conhecidos e identificados de Salvador já tive a oportunidade de mergulhar em quase todos eles, a maioria através da participação em saídas de mergulho montadas pelas operadoras que funcionam na cidade. Outros, porém, por se localizarem fora da área de atuação dessas empresas. Só mediante a realização de operações independentes de mergulho, viabilizadas através do aluguel de embarcações de pesca e contato com pescadores locais.

O Litoral Norte

Uma dessas áreas ainda pouco conhecidas pelos mergulhadores, mas muito promissora pela qualidade dos mergulhos que possui, se localiza justamente no litoral norte, entre os vilarejos de Jauá e Praia do Forte.

Em Jauá, balneário localizado nos Km 15 e 16 da Estrada do Coco, pertencente ao Município de Camaçari, já tive a oportunidade de mergulhar algumas vezes, sempre em operações independentes de mergulho, organizadas entre amigos.

Nesse lugar já tivemos a oportunidade de conhecer os naufrágios Salvador e Paraná, dois ótimos sítios de mergulho, com profundidades que não ultrapassam os 18 metros, água em torno 27°C e visibilidade horizontal alcançando os 15 metros no verão.

Mais ao norte, seguindo a Estrada do Coco, encontra-se também o charmoso balneário de Guarajuba, palco de partida para diversos mergulhos e aventuras na região.

Foi lá que, no ano de 2005 conhecemos o pescador e mestre de embarcações Roberto Reis, proprietário da traineira de pesca “Luana” e conhecedor de muitos pontos de mergulho e pescaria na região.

Através desse contato, tivemos a oportunidade de mergulhar em excelentes pontos com água sempre quente, visibilidade quase sempre caribenha, chegando aos 40 metros, e abundante vida marinha, motivos pelos quais eu e alguns colegas resolvemos eleger Guarajuba como o cenário para diversas saídas exploratórias de mergulho.

Em Guarajuba alugávamos a traineira “Luana” nos finais de semana e tivemos a oportunidade de mergulhar nas Falhas (27 metros), Mimosa (35 metros), Pedra da Aracanguira (26 metros), Flamengo (38 metros) e Atratores da Praia do Forte (73 metros). Pontos que muitas vezes demandaram a realização de mergulhos com perfis descompressivos e uso de misturas respiratórias para acelerar a descompressão.

Durante a preparação para uma dessas saídas exploratórias tivemos o conhecimento, através de Roberto, da existência de um naufrágio sem identificação próximo a Arembepe e motivados por nossa curiosidade, resolvemos conhecer o local.

O naufrágio de Arempebe

Em dezembro de 2006 fechamos um grupo de mergulhadores com o objetivo de alugar a embarcação “Luana” do mestre Roberto Reis e finalmente conhecer esse novo ponto, o naufrágio de Arembepe.

A realização de operações independentes de mergulho apresenta certas dificuldades operacionais, como um número mínimo de participantes experientes para viabilizar economicamente o aluguel da embarcação.

Não é todo mergulhador que está apto a participar desse tipo de operação, principalmente devido ao grande tempo de permanência no mar e à precariedade dos meios de resgate. Além disso, a própria embarcação alugada, que tem como destinação principal a realização de pesca, não nos fornece o mesmo nível de conforto e segurança presente nas operações comerciais do mergulho recreativo.

Foram convidados a participar dessa primeira expedição, contribuindo no planejamento e execução, Peter Tofte, Euripedes de Lima Vieira, Jomar Souza, Léia Figueiredo, Sil e Pedro.

Os objetivos principais dessa saída de mergulho foram conhecer o naufrágio de Arembepe e também mergulhar num ponto profundo batizado de “Flamengo”, que tem um fundo composto de pedra e corais, muita vida marinha e geralmente excelente visibilidade.

Após embarcarmos na traineira “Luana”, às 7:30 da manhã, em frente ao mercado de peixe de Guarajuba, navegamos cerca de uma hora até o ponto Flamengo, Lá realizamos um excelente e descontraído mergulho profundo, acompanhado de abundante vida marinha e visibilidade horizontal de 15 metros. Utilizei ar comprimido como gás de fundo, numa Cilbrás 15 litros/200 BAR e EAN 50 para descompressão, num cilindro adicional S40. Os demais mergulhadores realizaram tempos de fundo menores e perfis não descompressivos.

Zarpamos para o outro ponto às 10:30h da manhã e navegamos mais de uma hora a cerca de 7 nós (aproximadamente 13km/h) até em frente ao emissário submarino da CETREL, empresa do Polo Petroquímico de Camaçari, local onde estariam os destroços do então misterioso naufrágio.

Chegamos às 11:50h e começamos a nos preparar para executar o mergulho. O combinado era o mestre Roberto Reis, com o auxílio do seu GPS, lançar um “sputnik” com o objetivo de demarcar o ponto de imersão. A traineira “Luana” seria fundeada ao largo. Tarefas cumpridas, chegou a minha vez de cair na água para realizar a busca do naufrágio e deixar um caminho seguro e orientado para os outros mergulhadores que ainda se equipavam na embarcação.

Ao entrar na água percebi uma ligeira correnteza, muito presente em Guarajuba e arredores, e logo iniciei a minha imersão acompanhando o cabo do “sputnik” até o fundo. Teria sorte se o mesmo já estivesse junto aos destroços, situação que não ocorreu. Tive então que iniciar uma busca circular com minha carretilha e seguir os peixes que por lá passavam, pois eles certamente se assustariam com a minha presença e nadariam em direção ao naufrágio, com menos de 10 minutos de busca obtive sucesso encontrando os destroços.

Um misto de alegria e apreensão tomaram conta de mim, pois apesar do contentamento em ver pela primeira vez os destroços desse naufrágio, teria logo que terminar a minha faina, amarrando a carretilha em algum ponto do navio e iniciar o retorno para avisar aos outros mergulhadores. Assim que cheguei à superfície, fiz um “Ok” ao pessoal embarcado e logo todos foram também para a água, a fim de iniciar o mergulho. Desci novamente e pude apreciar com mais calma os destroços do naufrágio.

O naufrágio se localiza numa planície com fundo de areia e cascalho fino, com profundidade máxima de 24 metros e está totalmente desmantelado e parcialmente enterrado. A visibilidade no local estava cerca de 10 a 12 metros e havia abundante vida marinha circulando no seu entorno. O casco de madeira encontra-se enterrado e próximo foram encontradas três âncoras tipo almirantado, sendo que duas, maiores e cravadas na areia em posição simétrica, dão a entender que foram simultaneamente lançadas ao mar momentos antes do fim da embarcação.

Escavando a areia pudemos ver o casco de madeira com placas bem disformes, sendo que algumas delas apresentavam uma cor enegrecida, dando também a entender que teria havido algum incêndio a bordo.

Um dos mergulhadores encontrou um caco de porcelana com escritos em inglês e uma peça de bronze do estaiamento da embarcação, presa ao casco através de parafusos bem torneados e com aspecto moderno. Havia também uma boa quantidade de partes de metal espalhadas pela areia, difíceis de identificar tendo em vista o seu estado de conservação e agregação de vida marinha. Nada mais, porém, foi encontrado que pudesse sugerir a identidade desse naufrágio.

Junto aos destroços foi também possível observar cabos de amarração, o que se pressupõe ser esse naufrágio conhecido por outros mergulhadores e pescadores da região, que talvez já tivessem explorado o local.

Depois de cerca de 50 minutos de tempo de fundo feitos com ar comprimido, iniciei a minha descompressão até a superfície, auxiliada pelos computadores de mergulho Nitek Duo e Suunto Vytec. Os comentários depois do mergulho foram animadores e todos gostariam de voltar ao lugar para realizar outros mergulhos, tendo em vista beleza do ponto e a abundância da vida marinha.

O resultado desse mergulho

Após retornarmos a Salvador resolvermos divulgar o ponto à comunidade de mergulho local para sabermos mais sobre esse misterioso naufrágio.

Realizei uma breve pesquisa na Internet e observei que só havia um único naufrágio registrado naquela região, batizado de navio negreiro pelo pessoal da empresa Bahia Scuba que trabalha na manutenção de um emissário submarino próximo a Arembepe.

O pescador Roberto Reis, proprietário da embarcação que nos levou até o naufrágio, não sabia o nome daqueles destroços e a partir daí surgiram dúvidas a respeito de sua a identificação. Consultamos então o especialista em naufrágios da Bahia, Professor José Goes de Araujo, que sugeriu pudesse ser esse naufrágio um dos clippers (um tipo de veleiro rápido) Union Jacke (3/5/1863), Nye (2/4/1863) ou Lafayette (5/4/1863), incendiados depois de saqueados pelos cruzadores sulistas SS Flórida e SS Alabama, que tinha base na Bahia e Ilha Trindade e faziam ataques corsários às embarcações nortistas durante a Guerra da Secessão Americana. Segundo ainda o professor, um desses clippers levava faiança (louça) inglesa com motivos de flores e poderia estar próximo a Guarajuba. Na ocasião, ele nos solicitou que fosse recuperado um pedaço da madeira estrutural do naufrágio para análise laboratorial.

Consultamos também o especialista em naufrágios Maurício Carvalho e o mesmo não acreditou na hipótese dos clippers. Segundo ele, como as âncoras tipo almirantado encontradas no sítio do naufrágio não possuíam cepo de metal, elas não deveriam ser da época em que aconteceram os ataques pelos cruzadores sulistas americanos, mas sim do século XVIII para trás.

O segundo mergulho e a análise da madeira estrutural

Em vista à solicitação do Professor José Goes de Araujo, decidimos montar uma nova expedição com o fim de realizar a filmagem dos destroços e retirar uma pequena parte da madeira estrutural para análise em laboratório. A operação foi montada rapidamente para aproveitar as boas condições de mar, então presentes no litoral norte, e dela participaram os mergulhadores Peter Tofte, Euripedes de Lima Vieira, Jomar Souza, Léia Figueiredo, Genser Freire e Fábio Marconi.

Em 07.01.07 voltamos a Guarajuba e embarcamos novamente na traineira “Luana” para retornar ao naufrágio. Realizamos um primeiro mergulho do dia na Falhas (27 metros de profundidade), ponto de extrema beleza e muita vida marinha, visto que nos acompanhava um divemaster PADI suíço que ainda não conhecia os mergulhos no litoral norte de Salvador. Fizemos o segundo no naufrágio de Arembepe. A faina de busca e fundeio da embarcação foi realizada da mesma maneira que a operação anterior, sendo também minha a atribuição de descer primeiro no local e averiguar se estávamos realmente no ponto desejado.

Utilizei, com o objetivo de estender o meu tempo de fundo, um cilindro único de aço Cilbrás 15 litros/200 BAR com ar comprimido como gás de fundo e EAN 50 como gás de descompressão, num cilindro auxiliar S40. Após cerca de 1 hora e 30 minutos de mergulho, retornamos à traineira com amostras da madeira estrutural do naufrágio. Outros mergulhadores também ajudaram no recolhimento do material e o cinegrafista Fábio Marconi, da Olhar Filmes, realizou uma excelente filmagem dos destroços, também para ser mostrada ao professor Goes.

De volta a Salvador marcamos uma reunião no Centro Náutico da Bahia – CENAB, ocasião em que foram mostradas o material coletado e a filmagem realizada.

Após a reunião, onde também participaram os mergulhadores André Lima, Zilan Costa e Silva e Marcos de Paula, o professor Goes encaminhou parte da madeira estrutural para análise no Instituto Politécnico da Bahia – IPT e realizou algumas pesquisas com o pedaço de porcelana encontrado.

A análise laboratorial revelou que a madeira encontrada era “Pinus” (pinheiro), não se tratando de um “white oak” ou “carvalho de dantzig”. Segundo o IPT, o “pinus” é nativo do Hemisfério Norte, tendo sido introduzido no Brasil somente em meados do Século XX, o que descarta a possibilidade da madeira ser brasileira. E segundo o Professor Goes somente as embarcações americanas utilizavam “pinus” em sua fabricação, sendo certo também que o pedaço de louça encontrado no naufrágio indica que ela não poderia ter existido antes de 1819, indícios que batem com a tese dos clippers americanos.

Para esse historiador, no entanto, através dos dados até agora coletados, esses destroços tanto podem ser de um clipper americano como um brigue (navio de dois mastros) construído no EUA e vendido ou arrendado para o tráfico negreiro, havendo a necessidade de uma datação com carbono 14 e um levantamento no local a fim de determinar as dimensões do naufrágio.

Outros mergulhos ainda terão que ser feitos para tentarmos decifrar esse enigma. Esperamos que outras informações possam surgir e contribuir na solução desse interessante e misterioso naufrágio.

BRUNO S. P. FAGUNDES, nascido no Estado do Rio de Janeiro, mergulha com equipamento autônomo desde 1992, quando realizou seu curso de mergulho na escola AquaRio (Cabo Frio, RJ). Atualmente é mergulhador nível DiveMentor pela PDIC (#4685), Advanced Nitrox (#212331), Deco Procedures (#212333), Extended Range (#212336) e Trimix pela TDI (# 219549), possuindo como foco de interesse a realização de mergulhos profundos em águas abertas.

7 comentários para “Naufrágio de Arembepe, Bahia. Por Bruno Fagundes”

  1. Luciano Costa Reis disse:

    Naufrágio em Arembepe? E o da nau Santa Clara? Em julho de 1573, bem defronte ao Restaurante de Coló, na praça proncipal.

  2. Ideilton Ramos disse:

    Gostei muito de saber a respeito do naufrágio em Arembepe. É assim que se faz esporte náutico: mergulhando e informando sobre esse mundo fantástico que é o fundo do mar. Aproveito para mandar um abraço para Marcos de Paula, ou melhor, Marquinhos Conspirador; ” ti deirto ” um beijo.

  3. Daniel disse:

    Olá galera é muito legal saber dessas coisas, pois moro aque e não era enformado deste assunto.

  4. thiago simões disse:

    Olha moro em Arembepe ,e não sabia do naufrágio no Emissário..
    galera boa descoberta, parabéns pelo Trabalho ..

  5. Vanessa Reis disse:

    Olá.Interessante mais essa descoberta,mas soube que houve também um no famoso “quebra mar”,atrás da aonde os barcos ficam atracados.

  6. Fábio Sobral disse:

    Este naufragio já foi explorado no inicío dos anos 90 por um mergulhador chamado Fausto da escola de mergulho EDOMAR em arembepe.

  7. Daniel disse:

    Bastante interessante esse naufrágio não identificado. Gostaria de fazer uma saída para este naufrágio.

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