No tempo do back-pack, por Mauricio Andrade Sales

27 de agosto de 2007 por Leonardo Fialho

O ano era 1993. Em plena fase de instrutores da Submariner, eu (Mauricio Sales), AML (André Lima) e Pato (Marcelo Rosário), fomos convidados por Dudu (Pablo Koss) para uma incursão nas diversas opções de mergulho na região da Chapada Diamantina, durante o feriado de 7 de Setembro. Aproveitando uma D-20 de Tavares (colega de pesca-sub), levamos uma boa quantidade cilindros e um pequeno compressor, de forma a atender não somente à “diretoria”, como também aos interessados em espeleosub.

04/09

Chegamos ao ponto de encontro, distante 30km de Lençóis, mais especificamente no restaurante da Fazenda Pratinha, para reunir nossa equipe com os mergulhadores que foram para lá por conta própria, na intenção de fazer parte dos eventos que se sucederiam. Região com vegetação típica de caatinga, com terra seca, cercas tortas, gado magro e aquele bando de criaturas exóticas tirando suas “tralhas” de dentro dos carros. Além dos pontos certos (Pratinha, Gruta Azul e Poço Encantado), o objetivo era explorar novos pontos informados pela população local.

Pegamos a trilha para a Gruta Azul e fomos dar uma olhada no local. Tinha um monte de gente fazendo snorkeling com equipamento alugado no local:


Fig. 1 – Entrada da Gruta Azul – AML e Mauricio

Descemos para o outro lado do rio Pratinha, onde montamos acampamento, por gentileza de Sílvio Arruda e Júnior. Da Pratinha (que é também o nome dado a um determinado espaço do rio frenquentado para banho pelos turistas e pessoas locais) fizemos nossa primeira travessia para a Gruta Azul, graças a um cabo guia instalado em expedição anterior de Dudu. Travessia tranquila, por um canal subterrâneo que liga o poço da Gruta Azul à Pratinha propriamente dita. As formações rochosas com bastante calcário favorecem a filtragem de partículas, propiciando uma água transparente, com diversos cardumes, inclusive de traíras e tartarugas. No final da travessia, em meio a derivações que levam a um labirinto sem fim, o profundímetro chegou a acusar 16m. Salvo engano foi a primeira travessia completa. Pablo já havia ligado os cabos anteriormente, mas não havia atravessado por completo. E um ano antes, Lawrence Wabba e mais um mergulhador (talvez Zig) haviam passado por lá, mas não foi encontrado registro de travessia, além de um curto pedaço de cabo fino.


Fig. 2 – Travessia Pratinha – Gruta Azul – Mauricio e Tripa (Sérgio Lima)

05/09


Fig. 3 – Acampamento na saída da Gruta da Pratinha – Tavares, AML, Mauricio, Manoela e Letícia

Improvisamos uma estação de recarga para preparar cilindros para a exploração de um local denominado adequadamente de “Os Impossíveis”, dada à sua dificuldade de acesso. Trata-se de um buraco, como se fosse um mini Coliseu encravado na terra, com acesso por uma trilha escarpada e com trechos por dentro da terra, sem falar nos marimbondos. Uma vez lá embaixo, muitas cascas (peles) de cobras, arbustos com espinhos e atenção dobrada para não pisar em nada perigoso. Gruta com água cristalina, diversos sifões que levavam a labirintos que não ousamos descobrir até nos levariam. Sem qualquer trocadilho, impossível não citar a resposta que ouvi de André e de Marcelo Pato, quando eu perguntei o motivo deles ficarem carregando uma pedra na mão. – Maurição, vai que aparece um ser pré-histórico…


Fig. 4 – Estação de recarga “Caatinga-Sub” – Tavares, AML, Pato, Manoela e Tripa

Seguimos de lá para outro local indicado por habitantes, onde supostamente teríamos uma caverna imensa com uma entrada que mal passava uma pessoa. Andamos pelo mato à sua busca, em meio a pastos e matas, mas não a encontramos.


Fig. 5 – Busca de caverna em meio a fazendas – Mauricio e outros mergulhadores

Já à noitinha, retornamos à Fazenda Pratinha e fizemos a travessia no sentido Gruta Azul – Pratinha. À noite a travessia foi mais tranquila ainda e com maior número de peixes. Em seguida, jantar no restaurante da Fazenda Pratinha e banho frio aquecido por cachaça e genebra. De lá seguimos para dormida em Lençóis.

06/09

Deixamos Lençóis com destino ao Poço Encantado. Na passagem por Andaraí, novamente improvisamos uma estação de recarga em uma das inúmeras casas hospitaleiras da cidade.


Fig. 6 – Recarga em Andaraí – AML, Mauricio, Dudu e Pato

Seguimos até a região do Poço Encantado, no município de Itaeté, o qual ainda era liberado para banho e mergulho. Montamos acampamento no terreiro da casa de Miguel, guardião do poço. Já era tarde e mesmo assim descemos para fazer uns mergulhos em apnéia com lastro fixo e variável (sputnik). Nossas descidas em apnéia na ordem dos 25m de profundidade. Com lastro variável fomos abaixo dos 30m, que só foram interrompidas quando a última lanterna acabou a bateria. Já eram 19:30h e não queríamos sair aquele local. Retornamos ao acampamento para pernoite.

07/09


Fig. 7 – Acampamento no terreiro de Miguel – Tripa e Mauricio, no preparo do desjejum.

No dia seguinte, fomos novamente ao Poço. Desta vez, além dos exercícios de apnéia do dia anterior, realizamos um excelente mergulho, com a visibilidade absurda de mais de 50m na vertical e 150m na horizontal.


Fig. 8 – Poço Encantado e suas rochas no fundo, abaixo dos 25m (meio do poço).

Durante essa viagem, havia uma equipe da USP estudando o Bagre Cego, revelado à comunidade científica por Dudu. A partir deste ano, o Poço foi fechado para banho ou mergulho, podendo apenas ser apreciado de fora. Ainda lembramos do frio de sua água e do seu silêncio. Já vi diversas fotos excelentes deste lugar feitas por profissionais, mas não conseguem retratar sua beleza por completo, nem a energia que abriga. O poço é um lugar que deve ser vivido por cada um, mesmo sem poder “molhar as orelhas”.

Contato:
mauriciosales@multiplaengenharia.com.br

Adendo de André Lima
Em 2007 (catorze anos depois) fui visitar o Poço Encantado. Aproveitei para entregar, um pouco atrasado, uma foto dos filhos de Miguel.


Da direita para esquerda: Raimundo, o mais velho, a segunda não lembro o nome, a terceira é a filha mais nova, apelidada de China, ainda era uma criança de chupar o dedo. E por último Genilson.


Junho de 2007. Ludmila (filha de China) carregada pela avó Ana Carolina, Miguel, China e Raimundo.

7 comentários para “No tempo do back-pack, por Mauricio Andrade Sales”

  1. Sergio disse:

    Maurição, essa história vc buscou do fundo do relicário (e não do baú). Melhor não mencionar os batismos que rolaram nessa campanha espeleosub desse feriado cívico de 1993 ;-)
    Tenho mais fotos, é questão de escanear.

  2. ismael disse:

    gostei muito da aventura de vocês,adorei as fotos e os lugares se tiver mais fotos das aventuras de vocês mande-as para mim se possível.

  3. Lamartine disse:

    Grande Maurício,

    As imagens e histórias do Poço Encantado estão claras tambem na minha memória.
    Na oportunidade fomos eu, Pablo Koss, Pablo Cotsifis e Gaston Krause. O veículo era o “Lamamóvel”, um Gurgel X-15 que, apesar da sigla de foguete, so vivia quebrando. Desta vez, foi e voltou.

    Grande abraço

  4. Lamartine disse:

    Outra coisa Mauricio, foi bom, através das fotos, rever os companheiros de mergulho Pato, André, Tavares, voce e o guia Miguel.
    Ab

  5. wallace disse:

    fantastico…chapada diamantina…foto do poça impressionante!!!

  6. Mauricio disse:

    Grande Lama !!! Pois Velhão, aqui a gente acaba “reencontrando” a galera. Me manda seus contatos pelo e-mail mauricio_sal@hotmail.com, que te passo de volta meus contatos. Forte abraço.

  7. Danilo disse:

    Leonardo, como faço para entrar em contato com você?

    Obrigado,

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