Anos de 56-60
Aconteceu naturalmente. Não tínhamos vídeo games, televisão, a nossa única diversão era a rua, onde jogávamos pinhão, gude, tinham os babas, ferrinho, perseguíamos os malucos que por lá andavam, empinávamos arraia e tínhamos o mar.
Ah, o mar. O mar da Ribeira tinha a particularidade de despraiar criando imensas coroas cheias de mariscos, ter suas águas tépidas como a temperatura do nosso corpo e era uma imensa piscina térmica na sua imensidão de seu espelho d’ água liso no poente, que foi, é e ainda será um dos mais belos do mundo.
Lá nadávamos, mariscávamos, brincávamos de pega-pega nos barcos em suas amarrações e nadávamos. E aliados a isto, existiam as bombas, que matavam tainhas, chavetas e curimãs quando, como corsários, denominação dada aos que mergulham na bomba dos outros e lá pegam o peixe, nadávamos rápido da praia até o local para ainda encontrá-los no fundo, quando mergulhávamos a olhos nus e éramos escorraçados pelos bombeiros, que ameaçavam nos jogar uma bomba.
E ainda tinha a Marinha, o Quartel do Montserrat e a Polícia, que atiravam em nós talvez até para não pegar, mas o faziam.
Tínhamos de nadar rápido para achar ainda o peixe, mergulhar rápido para pegá-los quando os colocávamos dentro de imensos calções de pano amarrados na boca, e nadar rápido para a praia para que não fossem tomados, e ainda correr pela rua com a virilha cheia deles chocalhando e nos furando, buscando um lugar seguro ou chegar em casa. Haja preparo, e isto ia-nos endurecendo, dando massa muscular e preparo físico, aliado a ter uma pele queimada pelo sol, quando a nossa origem negra, carregando a pele de melanina, nos protegia e nos tornava bronzeados. Até então não existia ultravioletas, buraco de ozônio e outras coisas mais.
Começamos então a nadar, quando fazíamos longos percursos e na loucura da adolescência, íamos de bonde até o elevador e caíamos nadando entre os saveiros e navios da Baiana até o Canta Galo na Calçada, corríamos pela praia até o Montserrat, quando então atravessávamos o cabo e caíamos de novo n’ água a nadávamos até o porto do Bonfim.
Usávamos nesta época uns óculos de soldador de borracha, que substituíamos as lentes verdes por brancas e que nos dava uma visão bifocal. Eram os óculos usados pelos nadadores de travessia, pois não existiam por aqui os específicos, e que nos protegiam os olhos da água do mar.
Com eles começamos a mergulhar nas bombas e ver o fundo do mar!
Iniciamos então a mariscar com água na cintura e olhando o fundo, mergulhar nas pedras rasas das coroas, quando fechávamos um olho para com o outro mirar com arpão de vergalhão e elástico de câmara de ar as garoupinhas, marias pretas, caramurus (moréias) e pequenos polvos. A lagosta era pego de mão.
Como mergulhávamos bem nas bombas de peixe, já existia parceria com os bombeiros, que nos chamavam para mergulhar em locais em que matavam cardumes de guaricemas, xaréus , disputados as vezes com cações que participavam do banquete, e daí para também colocá-las foi um pulo. Tínhamos medo de tudo, mas não de morrer. Achávamos-nos imortais.
Começavam a aparecer nos cinemas filmes com mergulhadores e seus scubas, equipados com imensas traquéias, mergulhando, enfrentando tubarões e expelindo bolhas. Mas era filme e neles, a realidade é próxima da fantasia e víamos isto, como cinema e tão somente.
Apareceu então uma série de TV com um tal de Mike Nelson, estrelado pelo Lloyd Bridges, com revistinha e tudo. Algo novo surgia no ar!
Em seguida o filme “20.000 Léguas Submarinas” do Estúdio Disney, com monstros, tubarões, água azul, peixes e submarino. Abria-se uma nova dimensão e os nossos mergulhos pareciam rasos e os peixes que pegávamos pequenos.
Nesta época já existiam na Ribeira mergulhadores que praticavam a caça submarina em Itapagipe como o Professor Macedo, irmão do Osmar inventor do Trio Elétrico, o Carlos Kelsch e o Carlos Seixas, o famoso Bederodes. (Não sei por que este nome, mais soube na época que era o de um dos anjos que se rebelou no paraíso, tornando-se um demônio).

Professor Macedo com um imenso mero na beira Mar, com traje a rigor.


Mais duas fotos do Professor Macedo, precursor do mergulho autônomo em Salvador, cedidas pelo seu filho Roberto, grande campeão e parceiro na natação.
Era então o universo de mergulho na época, quando eu aproveito e presto homenagem a este homem de extrema inteligência, que deve constar na história do mergulho da Bahia e que dele foi a primeira vítima, quando foi pego por um navio da Navegação Baiana no Banco da Panela, quando teve uma perna amputada e a outra danificada. Fabricou, copiando dos americanos, o seu regulador de mergulho, fabricado nas oficinas da Escola Técnica onde lecionava, quando fabricou réplicas para diversos mergulhadores, amigos seus.
Sobreviveu, tentou mergulhar de novo com uma prótese mais não se realizou, talvez por ter perdido com as seqüelas a integração com a água, vindo a falecer poucos anos atrás, olhando o mar do Belvedere do Bonfim, onde residia.
Este, meus amigos, é o inicio da história do mergulho na Bahia e um dos que o iniciaram, que agora lhe presto homenagem.

Conheça um pouco mais sobre o mergulhador Dortas clicando na foto abaixo:

e como e que a pesca de bomba pode para numca sabe porque porque essa pesca era dos antigo pescadoris que pescava na bahia de todos os santos
O tempo passa e a evolução nos acompanha… pode-se entender ao verificar os danos causados na estrutura das casas, no ser humano e com os peixes. A história é boa sim. Naquele tempo não existia conhecimento do que tal bomba poderia causar.
Amigo Dortas:
Preciosas as fotos do Dr. Macedo, pai do Roberto. O mero é maior que ele! Conheci o professor de perto. Éramos vizinhos. Efetivamente, ele foi o precursor do mergulho autônomo em Salvador. Não fosse a fatalidade e teria feito muito mais.
Um abraço
Gantois
Preciosas as fotos do Dr. Macedo, pai do Roberto. O mero é maior que ele. Conheci o professor de perto. Éramos vizinhos. Efetivamente, ele foi o precursor do mergulho autônomo. Não fosse a fatalidade e teeria feito muito mais. Um abraço- Gantois
eu ja mate um mero de 217 kilo em frente ilheus