Sobre os meros, por Dortas

27 de novembro de 2007 por Leonardo Fialho

Nunca matei mero ou qualquer outro peixe como troféu, com exceção de um Campeonato Universitário ocorrido em Cabo Frio em 1970, quando eu, o Chico Diabo e o Phileto fomos vice-campeões.

Na minha época os meros eram bem maiores e eram os troféus máximos que os mergulhadores podiam obter por serem os peixes de maior peso, que é a unidade de medição dos recordes e de valorização do que foi pescado.

Praticava-se somente a caça submarina que, quer queira ou não, foi a semente do mergulho recreativo atual. Tudo era feito em apnéia e com hiperventilação.

Quando achávamos meros, em profundidades superiores a 20 metros, normalmente estavam deitados na areia ou por cima da pedra. Eles nos encaravam, entravam ou encostavam em uma toca quando se sentiam ameaçados. Efetuávamos então o segundo mergulho, já marcando o local em que estavam, para darmos o tiro.

Chico Diabo dizia: “Tartaruga, quando ele abre a boca é para medir se consegue ou não nos engolir”.

Quando o arpão penetrava e não atingia um ponto vital tudo se transformava em força. Éramos arrastados pelas pedras e tínhamos de realizar diversos mergulhos com ele se embaraçando em tudo que existia e correndo todos os buracos que encontrava.

Era uma luta. Nós estávamos invadindo o ambiente que ele bem dominava e pagávamos por isto bebendo água, ficando tontos, sem ar e com todo o equipamento empenado, e às vezes perdido, quando a linha embaraçava no carretel e o peixe arrastava tudo para um lugar mais fundo.

Contudo, os meros capturados não representavam muito no nosso volume de pescaria, mais objetivada aos peixes de passagem, como Xaréus, Barracudas, Guaricemas e os Bijupirás, e os de pedra, como Dentões e Badejos. Mas como mergulhávamos em pedras virgens e naufrágios intocados, quase sempre com eles nos deparávamos, pois sempre tinha um dominando a área. Até mesmo quando éramos levados por pescadores que tinham suas linhas de pesca partidas no momento em que traziam o peixe fisgado para a superfície.
Hoje considero correta a proibição de sua pesca sob a alegação de que está em extinção. No entanto não se fala sobre o fechamento do Rio Paraguaçu com a barragem de Pedra do Cavalo, que alterou a salinidade, acabando com inúmeras espécies de peixes que viviam, após a desova, nas suas águas repletas de nutrientes, ou sobre o desaparecimento das medusas, que eram encontradas aos bandos e até nos impediam de mergulhar pela sua densidade, ou mesmo sobre o xangó que alimentava as cavalas que por sua vez atraiam os cações, encontrados naquela época nas travessias da Baía.

Certa vez, eu e Waltinho (Acarajé) encontramos um mero em uma pedra perto de uma bóia de sinalização em frente ao Montserrat, conhecida como Liverpool, inserido em um cardume de carrapatos que ele também comia, como se fosse seu particular Mc Donald’s, e que nos impedia de sua visualização para um tiro. Fizemos diversos mergulhos em apnéia, e ficou por aí mesmo, pois tinha quase 80 kg e o tiro tinha de ser certeiro.

Quando falamos em extinção de um tipo de peixe temos que pensar em todos, pois fazem parte de um ecossistema. Hoje, nos locais onde tinham meros, nem crustáceos ou peixes para eles comerem existem mais e isto não foi causado pela sua pesca ou caça submarina.

No verão passado fiz uma inspeção em um duto submarino com extensão de 20 km, de Salinas das Margaridas até a Ilha das Vacas, e só encontrei uns dez peixes, alguns robalos, entre 30 a 40cm de comprimento, e não vi nenhuma raia.

Até os siris estão acabando com o surgimento do espécime exótico, chamado de siri Bidú pelos pescadores, que os devora e vence o combate por possuírem uma carapaça forte, e que aqui aportou como um pirata, ainda alevino, na água de lastro dos navios que aqui aportam.

Voltando aos meros, eu, como todo o mergulhador de minha época, cacei e matei alguns. E também convivi com muitos, quando trabalhei em plataformas e não tinha porque pegá-los.
Já fui mordido no braço por um de 20 kg em Aratu. Fui impedido de trabalhar em uma plataforma em São Mateus pela presença ostensiva de um exemplar com mais de 200 kg. Já tive peixe arpoado arrebatado por eles por diversas vezes. E já fiquei desarmado olhando para um que abria a boca em minha direção e dava um estrondo, talvez me intimidando a sair do local.

O tiro dado num mero é considerado covardia, mas qual tiro não é? Na caçada de um leão ou de outro animal africano as armas são de alto impacto, miras luminosas e aproximativas, e o tiro, quando dado dentro das suas especificações e com a mão parada, é infalível e letal.

Viva à máquina fotográfica digital! A fotografia foi facilitada e abriu um novo universo em que a caça continua viva e os troféus são as fotos obtidas.

Lamentavelmente, e por ter vivido em outra época, anexo uma foto de um mero capturado por nós junto à Ilha do Medo, em uma profundidade de 6 metros, em uma base abandonada da Petrobrás, e cujo tamanho acredito que, por aqui, nunca mais se verá um igual.

Não me desculpo hoje pelo ato, pois só me arrependo do que não fiz. Tudo que pratiquei foi intencional. Até mesmo quando desci em apnéia, parei e dei-lhe um dos diversos tiros. Fato que não me modificou, mas que foi uma luta. Eu, Waltinho e mais alguns dos mergulhadores que estavam na lancha tivemos de ter muito preparo para trazê-lo até a superfície.

Foto do relator com um mero capturado em 1966 numa base abandonada junto à Ilha do Mêdo, profundidade de 6 metros, já desembuchado para o embarque. Na esquerda da foto uma enfieira com barracudas, guaricemas e garoupas, principais objetos da pescaria. O mero está pendurado em um guindaste na antiga Marina da Contorno, do grupo Corrêa Ribeiro e seu peso não foi medido.

Salvador, Bahia, ano de 2007.

8 comentários para “Sobre os meros, por Dortas”

  1. AMILKA disse:

    TAMBEM ESTOU A PROCURA DE UM TROFEU DESTE……PARABENS E PARA POUCOS…………..

  2. Anonymous disse:

    Achei muito interessante!

  3. Anonymous disse:

    A foto é interessante, principalmente o assunto sobre o mero.

  4. Rico disse:

    Existe uma pedra no litoral norte que da ultima vez que que foi explorada para pesca sub revelou um exemplar enorme e outros menores na faixa de 200Kg.Se depender da minha vontade eles ficaram por lá.

  5. Luiz Portela disse:

    Amigos, o tempo de mostrar troféus de caça já passou
    Vamos deixar os bichos em paz

  6. fabio disse:

    eu ja apanhei um mas so pesava 27kl

  7. fabio disse:

    ese e mair
    quanto pesa?

  8. paulo disse:

    É uma bela historia, que nunca mais é nunca mesmo, algeum vai podé contá nos tempos de HOJE.
    Parabens.

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