O começo do mergulho – parte seis – O ar comprimido

17 de dezembro de 2007 por Leonardo Fialho

Nos anos de 63 e 64, eu fazia parelha com o meu amigo Geraldo Abbehusen, que morava na Beira Mar, quase em frente à ponte do Crusch, e que trabalhava em um Banco. Geraldo já possuía experiência em barcos. Eu trabalhava na Prefeitura nos fins de 1964, logo após a morte de meu pai, quando montamos uma parceria e arrumamos a lancha ÂNGELA, que me apossei como herança, e encontrava-se encalhada no antigo estaleiro da PETROBRÁS.

No dia 1° de janeiro de 1965 já acompanhávamos a procissão de N. Sr. dos Navegantes a bordo da ÂNGELA, toda pintada em verde e branco e com motor novo.


Eu e o Edvaldo Marques, patrão de remo de minha guarnição, após uma regata , vendo-se atrás a lancha ÂNGELA ainda encalhada e em reforma, no antigo estaleiro da PETROBRÁS.

Eu estava namorando uma garota cuja prima era noiva de um velho amigo meu, Henrique Barata, e ela me deu o recado de que o Quinho (Henrique) tinha montado um equipamento de mergulho a ar e que eu fosse ver.

O Quinho era um velho amigo da adolescência e até hoje tem uma extrema habilidade mecânica que se adentra na eletrônica. Todos da minha turma tiveram acesso às velhas Harleys, a um Jaguar de corrida com motor de 12 cilindros, todo em alumínio, que “Lulu Geladeira” pilotava em corridas de rua, à mecânica dos aeromodelos e à eletrônica dos rádios de transmissão, pois ele era Radio Amador.

Na nossa turma tinha de tudo, até Raul Seixas de vez em quando pintava lá, sempre excêntrico. Acho que Lulu Geladeira era tio de Raul.

O pai de Quinho tinha uma empresa de terraplenagem e, naquele universo de peças das Scrapes, dos D10, dos motores das Harleys, Zundappis e Indians, nós inventávamos.

Eu já mergulhava com SCUBA, pois Geraldo possuía um equipamento fabricado em São Paulo, que era conhecido como mata–paulista. Nunca descobri o porquê.

Era um cilindro de aço extremamente pesado, com 10 litros de volume, 150 bar de pressão inicial de trabalho e fundo em ogiva, logo não ficava de pé. Possuía um regulador de um único estágio, com traquéias, similar ao MISTRAL. O tanque tinha sido avariado na torneira durante uma carga na única firma que os enchia, por explosão de outro cilindro que estava sendo carregado. Tão logo o vi, fiz uns reparos na válvula, e ficou funcionando.

Só que para enchê-lo era uma mão de obra, pois a empresa era no Bom Gosto da Calçada e tínhamos de saltar do ônibus na estação da Leste, e ir carregando aquele enorme peso nas costas por quase 1 km e ainda tinha a volta, que era dois ou três dias depois.

Certa vez, em um sábado, quando os ônibus vinham cheios de gente que vinham das feiras, eu vinha sentado com o cilindro equilibrado entre as pernas, pois ele não ficava em pé. O ônibus deu um freio brusco e ele escapuliu de minha mão, abrindo a válvula e provocando um enorme barulho do ar pressurizado saindo. O pânico tomou conta dos passageiros. As mulheres gritavam e todos corriam. Eu quase fui linchado, fato que não aconteceu porque eu chorava pelo dinheiro perdido e dizia que o cilindro era de meu chefe e que ele me obrigava a levar e a pegar para ele, senão me desempregava.

A mentira valeu! Eu só tomei alguns cascudos e cachações, mas a dor passou logo quando fiquei olhando aquela “bala” no chão, pintado de verde e preto. Interessante que só pintado assim podia ser recarregado, pois esta era a nomenclatura do ar comprimido.

Com este cilindro o tempo de fundo era bem pouco e era só curtição mesmo, para dizer para nossa turma que estávamos mergulhando com ar coprimido. O mergulho autônomo só funcionava para quem tinha muitas garrafas e dinheiro para pagar a recarga, pois era muito cara por ser monopólio desta multinacional, na época em o compressor de alta pressão era do tamanho de um carro e me lembro que era também pintado de verde escuro.

Realmente, naquela época, mergulhar com cilindro não estava com nada e o Quinho tinha outra solução.

Fui a casa dele, no alto do Monte Serrat, e então, como todos os inventores fazem, ele foi descrevendo o funcionamento das peças, com os olhos brilhando, falando rápido como faz até hoje, e ainda deslumbrado com a invenção. Eu sabia que todo inventor despreza sua própria criação assim que a conclui, pois a sensação é de apenas criá-la. Eu por mergulhar seria o que iria testar e se funcionasse, teria que pegar o Quinho neste fogo inicial para fazer um equipamento destes para mim, antes que inventasse fazer outra coisa e aí então seria difícil, e olhe que já tinha um autogiro na linha de montagem.

Quinho hoje possui uma empresa de aviação de aviões pequenos, a HENBARA, e era ele quem, na década de 80-90, puxava faixa de propaganda nos domingos sobre as praias de Salvador.

O regulador era de construção simples. Ele pegou uma buzina de ar de carro e trocou o diafragma vibratório por um de borracha onde montou um pino no meio, que trabalhava dentro de um pito de câmara de ar de carro e, assim que era aspirado, o diafragma descia e o pino acionava a válvula, e o ar vinha gelado e forte. O resto era uma válvula de saída anti-retorno, uma traquéia e um bocal. A fonte de ar era um compressor de geladeira acionado por um motor Briggs Strattom que jogava o ar em um balão inoxidável de uma Scraper, e a umbilical, uma simples mangueira cristal de ¼ ”.

Marcamos um mergulho nas pedras da praia da Boa Viagem, especificamente na área onde se situava o N.Sra. do Rosário e Santo André, que até então ninguém sabia, e que 15 anos depois o exploraria. Coisas do destino que vai assim armando as suas teias.

Comecei cautelosamente a mergulhar com o equipamento, mas, à medida que descia com o ar gelado e limpo entrando nos meus pulmões, aliado a um sibilo forte da válvula de pito o liberando e o borbulhar quando em descarga, fui adquirindo confiança e me enfeitiçando com as sensações e os sons criados, e, como em uma mágica, fui perdendo o receio e usufruindo os prazeres que o mergulho a ar comprimido, condicionado pela invenção do Quinho, naquele momento me dava.

Quinho diz até hoje que foi ele quem me colocou a válvula de mergulho na boca. Embora não tenha sido a realidade na essência dos fatos, no entanto, foi ele sim, quem me condicionou a primeira aspirada por umbilical, que hoje em volume somado nestes 40 anos de mergulho, dá um considerável volume de ar circulado por meus velhos pulmões e criou para mim a facilidade do mergulho.

De imediato partimos para construir o meu regulador. Logo fiz um desenho com modificações e fui a uma firma que trabalhava com acrílico, a ALB, para confeccionarem duas cubas, que seriam aparafusadas por flanges e com um diafragma no meio. O bocal seria no corpo da válvula e a descarga por uma válvula tipo chupeta, já inserida no diafragma.

Funcionou maravilhosamente no teste, e eu comecei fazendo já incursões até 12 metros sem problemas, quando usava o compressor de Quinho, que perdeu logo o interesse pelo que tinha montado e agora estava mexendo com outro invento, provavelmente o autogiro.

Então aconteceu um fato.

Sabendo do invento, apareceram logo diversos amigos querendo testá-lo e entre eles o Carlos Francisco Cruz Vieira, o Chico Cruz, colega do Colégio Militar, da Ribeira, do remo e de turma, e meu amigo irmão. Só que ele não tinha experiência de mergulho, fazendo apenas algumas incursões a bordo da ÂNGELA, acompanhando as pescarias.

Combinamos então um mergulho na Beira Mar, agora usando o cilindro de ar e um regulador redutor de pressão usado nas garrafas de oxigênio dos maçaricos como primeiro estágio, e a recente invenção, como segundo estágio.

Não teria perigo, pois Chico sairia da praia e tudo ali é raso, não excedendo a 2,5 metros na maré cheia. Ele vestiu o Back Pack com aquela garrafa pesada e tropeçando saiu andando até a água dar pelos peitos, e então mergulhou.
No inicio eu fiquei olhando e seguindo as bolhas e quando vi que ele estava se deslocando, parei para esperar relaxado na areia, quando então aconteceu.

Chico começou a subir e a descer, colocava a cabeça fora d’ água e mergulhando, coisa que repetiu umas dez vezes até eu achar que estava acontecendo algo de anormal, quando então fui ajudá-lo, o que não foi preciso, pois ele já estava em um local em que já dava pé e, retirando a mascara, vociferava coisas que eu não entendia.

O regulador não funcionava e logo o desmontei não ligando para as vociferações de Chico, buscando o defeito, porque ele não podia falhar.

Ocorreu que ele respirou, e ao expelir o ar, o fez com muita força, quando o diafragma deformou e teve o pino desencaixado, ficando por fora do pito, e dessa maneira não tinha como abrir o ar. Mais tarde fiz logo modificações criando um guia para o pino.

Invenções são assim, tem que testar e depois corrigir os defeitos. Chico, sem nunca ter mergulhado antes, foi o meu piloto de teste.

O regulador estava agora então em condições de eu iniciar o mergulho com ar comprimido, faltava montar o compressor, filtro, umbilical, pois logo o Quinho iria querer o motor para outra coisa, e para isto teria de arranjar algo que me desse um retorno material rápido para pagá-lo, já que a pescaria, além de ser dividida, era incerta. E aí aconteceu em 1966, a minha descoberta da Canhoeira “SMS EBER”.

Em 1966/67, eu então com 21 anos, estudando e trabalhando para me sustentar e ajudar nas despesas de casa, pois tinha ficado órfão com 17 anos com uma viúva e quatro irmãs, a mais nova com 1 ano e meio de idade, morando de aluguel, já tinha um barco com cobertura todo reparado, motor novo, um compressor de mergulho e um regulador. Podia penetrar nos fundos e mistérios que o mar me oferecia, efetuando mergulhos em pesqueiros virgens e repletos de peixe. Eu era um cara de sorte, e isto me fascinou e desviou a minha cabeça para o mar!

E ainda tinha a EBER, que me compensaria o investimento, e todos os navios afundados por perto, que eu já pesquisava a sua relação e disposição mecânica para identificar as peças, com um amigo torneiro da Navegação Bahiana, o Macarrão.

José Dortas
Dezembro de 2007.

Conheça um pouco mais sobre o mergulhador Dortas clicando na foto abaixo:

5 comentários para “O começo do mergulho – parte seis – O ar comprimido”

  1. Ga disse:

    Dortas, suas histórias são ótimas!!

  2. Gustavo Paixão disse:

    A cada história um novo aprendizado , parabéns o site esta show,só assim conhecemos a história do mergulho na Bahia e os seus desbravadores.

  3. emanuele marimpietri disse:

    velho , bom te ver, cara!
    Tuas estorias são otimas!Faz lembrar dos bons tempos…

  4. Willian Patrício disse:

    Parabéns e obrigado suas histórias facinam,e acima de tudo um bom escritor pois prende com facilidade a atenção e por alguns instates parecia que estava ouvindo direto de ti.

  5. Mario disse:

    É muito bom, podermos ler relatos sobre verdadeiros gênios do nosso Brasil, tenho certeza se Henrique Barata vive-se no USA ou na Europa teria seu nome muito mais divulgado, pois ele fez grandes invenções em nosso país, mais infelizmente essa nossa falta de cultura e respeito a grandes nomes, que muitas vezes só são reconhecido pós morte, nos tira a oportunidade de aprendermos mais com esses grandes gênios. Obrigado Henrique Barata, por sempre acreditar que vale a pena pesquisar e empreender. Henrique Barata é uma das mentes mais privilegiadas que conheço, dotado de um conhecimento em mecânica, eletrônica, e aerodinâmica, como poucos no mundo.
    Parabéns Dortas por falar de um grande nome Soteropolitano.

Deixe um comentário