Recentemente fui contemplado com uma fotografia neste blog do naufrágio Cavo Artemidi, condicionando uma visão radial de 40 metros, fato que ocorreu no último dia 14 de março de 2008. E isso me lembrou os trabalhos que fiz por lá.
A história do Artemides começou pra mim no início da manhã do dia 20 de setembro de 1980. Eu estava andando no passeio do Farol da Barra e avistei um imenso navio descendo na vazante. Em sua volta circulavam embarcações e ele continuava seguindo lentamente em direção ao sul, independente dos esforços dos reboques. Mais tarde já se posicionava mais ao largo e ao sul do banco de Santo Antonio, quando de terra avistava-se todo o seu perfil, estagnado e encalhado no limite deste perigoso banco. Este fato passou por mim sem importância, pois sabia que a Submersa, a empresa de mergulho de Pedro Santana já tinha contrato para esses tipos de serviço de apoio, por indicação da Capitania dos Portos.
Ocorreu, porém, no dia seguinte uma ligação do meu amigo Carlos Matavirgem da NAVEMAR, que me solicitou um apoio de serviço de mergulho, pois havia pegado uma empreitada para a retirada do óleo combustível dos porões do referido navio. Iríamos lá com uma balsa tanque e rebocadores, efetuaríamos um mergulho para acessar o tanque principal por fora e introduziríamos uma mangueira de sucção para a drenagem e embarque do marine fuel, que é um óleo pesado de alto teor calorífico, usado para acionar os motores a ciclo diesel destes antigos navios.

Cavo Artemides visto pela frente da casaria, com o mastro de proa em destaque.
Montamos a equipe, eu, os meus marinheiros João e Gilberto, os mergulhadores Carlos Souza, (o Lassie) e o Abelhinha de Itaparica, mais o barco de Walter Andrade, de nome ASTRAL, com ele embarcado.
O Zé Estrellado foi convidado, mas queria que o pegasse em casa todo dia e aí foi dispensado.
Chegamos ao Artemidi com todo o comboio, quando encaramos uma dantesca imagem de um imenso navio encalhado, rangendo sobre o efeito das ondas que rasgavam pela popa e por cima dos conveses. De primeira constatei que o mergulho tinha alto risco operacional pelo turbilhonamento do mar em torno do casco encalhado, e teríamos de adotar outra solução.
Comandando as operações de resgate do óleo, chegou a Salvador contratado pela seguradora um comandante norueguês aposentado, membro de uma entidade de preservação ambiental do Mar do Norte.

A balsa atracada no Artemides. O mar estava “grosso”.
Considerando as dificuldades foi feita um reavaliação e então se decidiu que o mergulho seria realizado por dentro da praça de máquinas, onde eu localizaria uma tubulação específica e ali faria um corte e o acoplamento da mangueira de sucção.
Atracamos a balsa por sotavento do naufrágio e então efetuei o embarque, realizado subindo por cordas aproveitando-se a elevação da crista das ondas e então embarcamos os cabos, umbilicais e equipamentos. Efetuei o mergulho pelo interior da praça de máquinas, entrando por aquele labirinto de tubulações e máquinas até chegar ao local aonde seria realizado o corte.
Nesse caminho encontrei uma área trabalhada pelos tripulantes do navio na vã tentativa de conter o alagamento, que me condicionou a interpretação de sua dinâmica. Ocorreu que o Artemides no encalhe teve o seu fundo rompido e, como estava carregado, a água penetrou com pressão próxima a 1,5kg/cm2 no seu fundo falso, o cofferdan, que também era usado para armazenamento de óleo combustível. A antepara de popa do tanque principal, que divide praticamente a praça de máquina do último porão de carga, possuía em uma cavidade construtiva, uma bomba de transferência posicionada por sobre o cofferdan e que transferia o óleo deste para o principal, com um visor de vidro flangeado. Com a pressão do alagamento, o vidro, resistente apenas a pressão de bombeio, não suportou a da que agora existia na tubulação que vinha do tanque de fundo e então rompeu, lançando um jato de água de 6” por sobre os geradores, causando a perda de energia, da iluminação, bombeamento e lançamento dos ferros. O Artemides estava a partir daí condenado ao naufrágio, com a praça de máquinas se alagando, debalde os esforços dos marinheiros de colocar um disco de cobre para substituir o de vidro quebrado, impossível pela forte pressão da água, que por ali penetrava, misturada com óleo.
Localizei a tubulação e realizei o corte, que teve alguns problemas de formação de gases com uma pequena explosão na sua realização. Depois a tubulação foi acoplada, feito o bombeamento e o óleo não apareceu, só saiu água salgada. Um grande mistério, como todos que envolvem os naufrágios.
Em paralelo à operação que realizávamos, os piratas atuavam pela noite no saque do material de bordo do navio. Certa vez, ao chegarmos para trabalhar, tinha um imenso sofá curvo encravado em uma janela, que por ela não conseguiu passar.
Na proa existia um hélice de reserva, e já vislumbrávamos uma operação de resgate, para o Natal que se aproximava.

JF Dortas
Em março de 2008.