Que mais por sua desonra……………….Honra
Falta mais que se lhe ponha………….Vergonha
Trecho do poema Que falta nesta cidade? de Gregório de Matos, uma década após a guerra holandesa. Ele sabia que Salvador e o Recôncavo nunca mais seriam os mesmos. A pouca dignidade e a escassa organização que existiam se perderam com a desordem que se instalou. Os novos governadores eram lacaios de quinta categoria. Para reparar os estragos da guerra, várias taxas foram acrescidas aos tributos do açúcar. Era impressionante a quantidade de tributos. Assim que a carga chegava a Salvador, era preciso pagar a um trapicheiro uma pataca de frete, dois vinténs de aluguel, a comissão do trapicheiro caso vendesse alguma caixa, depois vinham as taxas, os caixões, pregos, carretos, guindastes, direito de subsidio da terra, as descargas, os armazéns, as alfândegas, taras e marcas, a avaliação e os consulados. Os produtores de açúcar estavam à beira da ruína. Para o funcionamento de um engenho eram necessários, só na moenda, entre vinte a trinta negros, além do feitor e de outros tantos para substituir no turno da noite. Esses escravos da moenda tinham sempre de ser trocados, pois prostrados pelo sono e pelo cansaço metiam sem perceber a mão entre os eixos, sendo preciso que o feitor lhes cortasse o braço preso, antes que fossem inteiramente estraçalhados pela máquina.

Uma pequena moenda no pátio do Solar do Unhão
A Cidade Encantada e o Espelho de Oxalá à sua frente guardam e pagam esse carma até hoje. Algumas cenas parecem surreais, como a que aconteceu no início do século XX: o navio Cap Frio, carregado de centenas de máquinas de costuras inglesas se arrebentou contra as pedras do Farol da Barra. Centenas de negros descendentes dos escravos que tinham sido explorados por europeus saquearam a carga e, na época, foi criado em Salvador o maior contingente de alfaiates do Brasil. O algodão já estava implantado no Recôncavo e muitos negros conseguiram juntar patrimônio, montando seus próprios negócios. As curvas do destino são bastante sinuosas. Se estas máquinas chegassem às lojas, jamais um negro poderia tê-las comprado. O resgate de uma tragédia quase sempre está ligado a uma reação cármica e as dívidas são acertadas “na raça”, independente da vontade de quem deve ou do desejo do credor. A Bahia, pelo visto, parece um tribunal celestial, onde anjos barrocos tocam suas trombetas, anunciando a redenção.
No século XVII Salvador já era uma metrópole congestionada. Por conseqüência, a cidade era um verdadeiro dormitório. Gente de todo o canto do mundo por aqui andava, trazidos pela rota dos ventos. A Baía de Todos os Santos era uma parada obrigatória para quem ia ou vinha do oriente. Nesta época, os limites da cidade eram ao sul o Mosteiro de São Bento, ao norte o Mosteiro do Carmo e a oeste a Baía de Todos os Santos. A região leste era escassamente povoada por colonizadores. Parecia uma cidade pequena, mas era um mundo à parte. Becos, vielas e ladeiras formavam um grande labirinto onde lacaios do rei, trapaceiros de toda sorte, ladrões e aventureiros gananciosos tramavam seus novos planos. Os caminhos que levavam para as partes mais ermas da Cidade, como o Rio Vermelho ou o entorno da Baía, eram cheios de perigos, com salteadores e escravos fugidos. Caminhar por essas bandas, só com uma escolta armada. Enriquecer ou perder tudo era uma questão de pura sorte ou azar. O lacaio do rei podia dar e tomar qualquer patrimônio, sem muitas explicações. E qualquer peru com acesso ao palácio decidia o destino das pessoas da noite pra o dia. Mesmo famílias poderosas dos engenhos não estavam livres de perseguições.
Boca do Inferno
O personagem mais exótico dessa época foi Gregório de Matos. Nascido em 1636, viveu 59 anos e morreu em Recife cumprindo uma espécie de exílio, porque na Bahia tinha feito muitos inimigos. Filho de um rico comerciante, tendo estudado em Coimbra, se formou em Direito. Mas aqui se dedicava a fuder, beber e comer. Suas sátiras, distribuídas de maneira clandestina, eram temidas até em Portugal. E como diria Glauber Rocha, séculos depois, “Aqui, Deus e o diabo andavam juntos”. O seu melhor amigo era o quase santo padre Antônio Viera, que muitas vezes o livrou da morte e de outras desgraças, dando abrigo no Mosteiro de São Bento nos momentos em que era mais perseguido. Não foram poucos tais momentos e inimigos.

Salvador, cidade fortaleza
Nesta época, a terceira geração de piratas holandeses, já nascida nas costas brasileiras, infestava todo o litoral baiano. As diversas ilhas da Baía ou no arquipélago de Tinharé até a Baía de Camamu serviam de esconderijo para essa corja, que imprimia o terror por onde passasse. Como a cidade estava mais fortificada, eles não se interessaram mais por Salvador, mas todo o resto era alvo de cobiça.
Salvador exportava açúcar, fumo, cravo, aguardente e, no entorno da Baía de Todos os Santos, muitos estaleiros fabricavam embarcações de todo tamanho. Também aqui eram reparadas as naus. Comprava-se e vendia-se muita coisa clandestinamente, pois os inúmeros portos no entorno de Salvador facilitavam as negociatas. Lingotes de ouro vindos da Índia aqui eram transformados em jóias, que em Portugal não eram taxadas. Correntões com até 3 metros de comprimento, conhecidos como dobrões, davam várias voltas no pescoço. Alguns chegavam a pesar 3 quilos. Muita gente morreu afogada nos naufrágios porque não se desfazia desse peso na hora que pulava na água.

Sete vezes…

Triângulos
Há quem diga que o Vaticano queria transformar Salvador em um Estado. Por isso, inúmeras igrejas foram construídas. Como os mestres de obra e arquitetos tinham estreitas ligações com a Igreja Católica, mesmo as construções do governo ou dos ricos comerciantes, tinham características cabalísticas, que obedeciam a uma numerologia nas suas formas e adereços. As arcadas, janelas e portas eram em números de 7, 14, 21, 28 e assim por diante. Tudo partia do número 7. Os triângulos formavam ângulos padrões. Isso pode ser observado ainda hoje olhando a Cidade, do Forte de São Marcelo. De lá se vê o Palácio do Governo, com suas 28 janelas e 7 arcadas que seguram sua varanda. Todas as estruturas que se agarram à encosta da Ladeira da Montanha, ou sobras estão lá com suas 7 arcadas, 7 janelas, 7 candeeiros…

Antigos arcos de inspiração romana, na Cidade da Bahia
A mística de Roma, os Orixás da África e a numerologia dos judeus disfarçados de novos cristãos transformaram Salvador em uma Cidade Encantada e Baía de Todos os Santos, o maior espelho que Oxalá já teve.
Mário Cortizo Andion
Muito bom texto!
Já estava sentindo falta dessas histórias!!
Mário Cortizo Andion, você precisa escrever mais aqui!! Excelente!! Uma viagem no tempo perfeita.
Que prazer inenarrável a leitura do seu texto, Mário Andion. O senhor é professor de história ou escritor?
Ler o texto me transportou para aquela Salvador. Excelente!!!
Já tinha ouvido falar de Mário Moqueca, suas histórias e músicas. Que grata surpresa descobrir que o lado escritor desse artista.
Prezado Mário Andion. Sua maneira de escrever me encantou pela leveza e modernidade. E é exatamente isso que procuro. Pessoas, não necessariamente historiadores, para formar um cast brasileiro para algumas apresentações no Simpósio Público Latino-Americano de História, que irá ocorrer nos dias 5 a 8 de fevereiro de 2009, em Lima – Peru. Estadia, alimentação e passagens serão pagas pela coordenação do evento. Estamos negociando a remuneração de quem vai apresentar trabalho. Gostaria de entrar em contato com o senhor para dar-lhe mais detalhes do Evento. Por favor deixe aqui como poderei me comunicar consigo. Um abraço.
Prezado Professor ,
somente hoje li o seu comentário. Obrigado pelas obsservações.
Tenho interesse em saber mais detalhes sobre esse simpósio e sobre a possibilidade de participar dele. Se possível, entre em contato comigo através do telefone: 071-92080828.
Obrigado, um abraço,
Mário Cortizo Andion
Mário!? Sou eu, Zé de Padu, seu pior pesadelo. Quer dizer que você acreditou na conversa do Prof. J. D. Bitencourt? Kkkkkkkkkk. Óia, ainda tem mais. Me aguarde que eu ainda vou falar mal até de sua netinha.
eu achei ótimo seus comentários e melhor ainda talvez através da net tenha encontrado uma pessoa que não vejo desde 81 se for esta pessoa que morava em brotas na época me responda ok moro no rs ainda e na época morava em ssa
Renate. Mário já morou em Brotas. Provavelmente deve ser quem você procura. Por isso, caso deseje entrar em contacto com ele, por favor deixe o seu email aqui para eu repassá-lo. Sds, André – Editor do Blog.
andre consegui um telefone que mario passou para um professor num desses comentários e consegui falar algumas palavras com ele estou muito feliz, mario e daquelas pessoas de quem nao deveriamos manter distancia cara valeu muito mesmo, um grande abraço a vc.