Um cliente encosta no balcão de uma operadora de mergulho PADI e fala com a atendente que parecia estar brigando com o celular:
- Bom dia, senhorita. Eu sou Mergulhador Autônomo PADI (PADI Scuba Diver) e gostaria de mergulhar no famoso naufrágio dessa cidade.
- Bom dia. Me desculpe o mau jeito, mas essas operadores de celular são um horror. Nessa alta estação, as ligações vivem caindo. Bom, vamos ao que interessa. De fato o mergulho lá é muito bom. Mas, com essa certificação, você deve saber que precisará de um Mestre de Mergulho PADI (PADI Divemaster) para ficar supervisionando a sua atividade. E esta ficará limitada até 12 metros de profundidade.
- É, meu instrutor me disse isso, na época do curso. Mas hoje eu descobri que, um meu amigo também Mergulhador Autônomo, só que NAUI (NAUI Scuba Diver), pode mergulhar 18 metros, sem supervisão. Como é isso?
- Infelizmente eu não sei muito sobre as outras agências de mergulho, estou trabalhando aqui há duas semanas. Ainda estou aprendendo sobre o sistema PADI.
Quando entra no recinto e na conversa um outro cliente, um Treinador de Instrutor PDIC (Instructor Trainer PDIC), soltando um grito de surpresa:
- Diga aí Paulão! Que legal a gente se encontrar aqui nessa cidade. Tô louco para conhecer o famoso naufrágio daqui. E você?
- Rapaz, eu também. Mas estou meio preso a algumas limitações para esse mergulho. Ainda vou ter que pagar um adicional de supervisão por um Mestre de Mergulho PADI.
- Não seja por isso. Farei dupla com você e, apesar de Treinador de Instrutor PDIC, atuarei como o seu Supervisor de Mergulho (Dive Supervisor PDIC). Que tal?
- Ótimo. Podemos então reservar nossas vagas, senhorita?
A atendente fica numa dúvida e começa a olhar um manual em que lista em detalhes todas as certificações da PADI. Ela olha cuidadosamente aquele papel com os nomes originais, todos em inglês, e não encontra Instructor Trainer, nem Dive Supervisor. Então responde:
- É, pelo que eu li o Mergulhador Autônomo PADI pode participar de outras atividades de mergulho sob a requerida supervisão. Mas nada encontrei sobre suas qualificações nesse pequeno manual. Assim, para não incorrermos num erro, não é melhor o senhor Paulo mergulhar com um Mestre de Mergulho PADI e…
Num tom tranqüilo, mas tangenciando a ironia, interrompeu o Treinador de Instrutor, de alcunha BODA (Bom De Água), reconhecido como o melhor mergulhador e instrutor da sua região.
- Com licença, minha jovem. Eu explico o meu status. Pela minha agência, como Treinador de Instrutor eu posso formar novos instrutores. E sempre um instrutor de mergulho está acima de um mestre de mergulho. Capiche?
- Ei, Zezo! Me dê uma ajuda aqui. Gritou a atendente para um integrante da equipe de operação, que passava na área.
- Bom dia senhores. Meu nome é José Zolly, mas podem me chamar de Zezo. Sou Especialista em Controle de Mergulho da SSI (SSI Dive Control Specialist), em que posso ajudá-los?
- Vou repetir, eu sou Mergulhador Autônomo PADI (PADI Scuba Diver) e gostaria de mergulhar no famoso naufrágio dessa cidade. Aí a moça disse que… e blá-blá-blá.
- Entendi a situação. Mas, pelo que vejo, o maior problema é que esse naufrágio está na cota dos 32 metros de profundidade. Então, o ideal é que o mergulhador esteja num nível avançado de certificação, como por exemplo o Aventureiro Avançado SSI (SSI Advanced Adventurer). Até, muitas vezes, levamos mergulhadores básicos, mas sempre sob os cuidados dos nossos instrutores. Mas, nesse caso, você ainda não tem uma certificação considerada básica. É praticamente uma porção da básica.
BODA (Bom De Água) então falou, um pouco mais irônico, por achar que o Especialista em Controle de Mergulho da SSI não deveria questionar a supervisão de um Treinador de Instrutor, ainda que não fosse de sua agência ou trabalhasse na operadora de mergulho:
- Mas se falta uma porção para Paulo se tornar um básico, em compensação eu, que serei dupla dele, tenho uma porção a mais do que um simples instrutor. Não acha?
- Sem dúvida. Por mim, a gente já estaria na água. Mas, não sou eu quem manda na operação. Vou consultar meu chefe, que é Treinador de Instrutor NAUI (NAUI Instructor Trainer). Respondeu Zezo, sem querer perder os dois clientes ou parecer desafiar a competência do Treinador de Instrutor PDIC.
E rolou a seguinte conversar no celular, entre o Zezo e Marcão, chefe de operação e Treinador de Instrutor NAUI:
- Oi Marcão. É o seguinte: estou com dois clientes querendo mergulhar…… e blá-blá-blá. Por favor, me dê uma solução já que o Boda tem o mesmo nível de certificação que a sua.
- Zezo, na verdade o Treinador de Instrutor NAUI não pode formar instrutor. Quem faz isso é o Diretor de Curso NAUI (NAUI Course Director). Mas isso não vem ao caso agora. Vou até consultar Júlio Aziz, que é Diretor de Curso PADI (PADI Course Director), aproveitando que ele está aqui comigo no barco. Em tese, ele é o melhor cara para responder corretamente essa questão.
Dois minutos depois.
- Alô Marcão? Putz! A ligação caiu! Nessa época do ano celular nunca funciona direito. Essas operadoras de telefone… Mas, eu vou ligar de novo e não se preocupem que o chefe de operações está inclusive consultando um Diretor de Curso PADI para não quebrarmos as recomendações das agências. Disse Zezo para os dois clientes.
- Marcão? E aí teve resposta com seu colega Diretor de Curso?
- Oi Zezo. Já que você gosta de saber de tudo. O Diretor de Curso PADI não certifica o instrutor, como faz o da NAUI. Basicamente as funções do Diretor de Curso da NAUI são similares ao do Examinador PADI. Mas, vamos ao que interessa, estamos perdendo tempo com isso. Ele me disse o seguinte… pi pi pi.
Por André Lima.
Fantástico! Muito bom!!!!!!!!!!!!
Que pooooooooorraaaaaaaaaaaa, eu também quero mergulhar nesse naufrágio meu irmão, pode? rsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsrsr
Andre,
Mais uma vez, parabens pela critica…hehehehehehe
Uma abraco,
Marcelo
Como conto é ruim, pois envolve nome de Certificadoras. Como crítica é pior, pois mostra além das inverdades sobre procedimentos a falta de conhecimento tecnico de mergulho. Comentários como estes só fazem a alegria do IBAMA, pois é quem menos entende de mergulho e quem mais impões limitações dos locais de mergulho. Triste.
Muito bom Motinha. Criar um conto como forma de fazer uma crítica é fantástico. Percebo que nem todos entendem o significado do uso de hipérboles como construção literária. Eu só tenho uma dúvida: onde foi que você escreveu IBAMA?
Bem … Não diria que como conto é ruim, se apesar de envolver o nome de Certificadoras, expressar a verdade, nada mais que a verdade … Como mergulhador recreacional á mais de 32 anos e profissional á mais de 20 anos, já presenciei várias situações similares, e confesso que esse “conto” tenha um grande percentual de verdade. Mas não acho anormal esses fatos acontecerem, já que cada profissional normalmente procura colocar a sua certificadora como melhor do que as outras, incorrendo inclusive, muitas vezes em uma certa falta de ética e bom senso. O ideal seria que todas as certificadoras adotassem um organograma padronizado, onde só mudassem o termo para designar cada nível, o que resolveria 80% das situações similares á descrita no texto do André Lima, mas infelismente isso não acontece. Enfim, sobre o IBAMA … Acho que essa entidade não tem competência para interferir na parte técnica do mergulho, mas talvez fosse bom a Marinha do Brasil normatizar a pratica do mergulho recreacional no Brasil, mas … Só talvez …
André – eu nao te conheço. Mas estou procurando e eMail de Marcelo (Pato) que te deixou um comentário. Sera que você pede me ajudar?
Obrigada – Claudia