Com esse título, há 40 anos, a revista Manchete publicava uma extensa matéria sobre a volta ao mundo que um saveiro da Bahia iria fazer.
Não um saveiro qualquer (como se isso existisse). Mas, já na época da reforma, o famoso Santa Cruz de Lev Smarcevski. Pois essa reforma levou mais de 3 anos e contava com várias obras de arte dos artistas baianos, a exemplo dos diversos entalhes de Caribé.

Tripulação do Santa Cruz. Nota-se o Elevador Lacerda no canto superior direito da foto. Foto de Juvenil de Souza e Paulo Guimarães.
O Santa Cruz foi um saveiro adaptado para essa proposta: dar a volta ao mundo levando um pouco da Bahia. O lema era “Saveiro da Bahia conduz o mistério do seu povo, sua rosa de amor e fraternidade”. Essas palavras de Jorge Amado estavam gravadas em baixo relevo e patinadas em ouro. Se você pensa que o nome Fratenidade do atual barco do engenheiro Aleixo Belov é coincidência, enganou-se. Aleixo fazia parte daquela tripulação de oito privilegiados. E neste janeiro de 2010 Belov lançou seu barco com propósitos bem parecidos. Mas isso é assunto para outra matéria.

Foto (meia boca) de uma reprodução da gravura do Saveiro Santa Cruz
Quem foi Lev Smarcevski
“Graminho, A Alma do Saveiro” de Lev é livro de cabeceira de qualquer navegador, mas o autor já era muito popular na Bahia antes de publicar esse livro em 1996. Primeiro porque era um estrangeiro (o cara veio da geladíssima Sibéria!) apaixonado pela Bahia, assim como Caribé, Pierre Verger e alguns outros: baianos por merecimento. E além de expert em navegação, era arquiteto, pintor, esportista… enfim e o mais importate, o multitalentoso Lev Smarcevski era amigo de meia Bahia. Provavelmente da Bahia inteira.
“Não quero provar coisa alguma, não vou patrocinar nada, nem ao menos penso em vender um livro de aventuras. Quero apenas, embora isso possa parecer incrível, realizar um sonho que pode ser tudo – até absurdo – mas que é meu, autêntico, verdadeiro e que já contagiou outros…” Basta esse trecho de sua fala para entendermos da grandeza dessa pessoa. E bote grande nisso, Lev tinha quase 2 metros de altura.
A viagem dos sonhos
Nada era à toa. Lançado ao mar no escolhido dia de Nossa Senhora Senhora da Conceição da Praia (8 de dezembro), o Santa Cruz deveria cruzar os 7 mares em 545 dias. Embarcados: Arlindo e Flor (marinheiros de Camamu), Lev e o filho Ivan Smarcevski, Aleixo Belov, Joaquim Gonçalves e o experiente navegador Lôbo Brito. Essa era a tripulação definitiva, pois depois de atrasos e percalços, incluindo modificações na rota, alguns membros sairam e outros entraram.
Lev calculava que com dois dólares americanos por pessoa por dia era o suficiente para a alimentação. Mas não conseguia precisar quanto poderia gastar em manutenção “Aumentando o número de pessoas, os gastos dimimuem. Mas só vamos em oito e é difícil saber quanto se vai gastar em manutenção, porque existe o imponderável e muita coisa pode acontecer daqui pra frente, até meados de 1971, quando estaremos outra vez aqui”.
O fato é que o Santa Cruz não conseguiu completar a viagem. Ficou no Caribe, apos 24 mil milhas navegadas. Mas isso aconteceu depois da matéria da revista Manchete. E é assunto para o capítulo dois. Até lá.