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Revisão de Equipamentos

quarta-feira, 3 de março de 2010

Não há dúvidas que para um mergulho seguro, minimizando os riscos inerentes da atividade, o nosso equipamento deve ser revisado periodicamente. Mangueiras, válvulas, tubos, entradas/saídas de ar, processamento dos dados da atividade, enfim, tudo precisa estar em perfeito estado.

Mas não estou falando de regulador, BC, 2º estágio, octopus, ou cilindros… estou falando do mergulhador! Lembramos de fazer a revisão de toda aquela tralha e na maioria das vezes não nos damos conta de que “nossa revisão” está vencida e que o primeiro sinal de problema pode acontecer debaixo d’água.

Após o exame médico inicial para certificação OWD quem de nós fez um exame médico periódico específico para mergulho? Garanto que poucos. Para aqueles mergulhadores que não apresentam problemas de saúde uma consulta anual é suficiente na maioria dos casos. Já para aqueles que sabidamente tenham alguma condição clínica que possa coloca-lo em risco, bem como seu dupla, o período é mais curto, em torno de 6 meses.

Na consulta deve ser realizada uma entrevista (chamada anamnese) detalhada e focada nas alterações que poderiam aumentar os riscos da atividade sub. Histórico de convulsões, traumas torácicos ou cranianos, diabetes, hipertensão arterial, doença vascular, dentre tantos outros, devem ser questionados. Após a anamnese o médico faz o exame propriamente dito: ausculta cardiovascular e respiratória; testes neurológicos; exame do conduto auditivo externo e tímpano, nariz e garganta. Caso alguma alteração importante sejam notadas poderá haver necessidade de consulta com um especialista (um otorrino, por exemplo) ou a solicitação de exames complementares como uma espirometria para aqueles com sinais/sintomas de asma.

Após a liberação médica é emitido um atestado teoricamente com validade de 1 ano a partir da data da emissão. Sendo assim, anualmente o mergulhador deveria ser submetido a nova revisão “do seu equipamento” ou em período mais curto no caso de doenças/lesões relacionadas à própria atividade ou quaisquer outros problemas que pudessem ser classificados como contraindicação para o mergulho.

Fazendo um comparativo entre diversos países temos as seguintes informações sobre a necessidade de exame médico para mergulhadores recreativos:

- nos EUA não é exigido desde que o candidato a mergulho ou mergulhador já credenciado responda “não” a todas as perguntas do questionário ficando assim restrito à boa fé do candidato ou ao seu conhecimento sobre alguma patologia prévia.

- no Brasil a legislação permite que qualquer médico inscrito no conselho de medicina possa fazer e interpetrar qualquer exame. Levando para um exemplo extremo um ginecologista/obstetra poderia examinar e fornecer o atestado médico a um candidato a mergulhador do sexo masculino. Felizmente, a maioria das escolas/instrutores encaminham seus alunos/clientes a médicos com treinamento em medicina hiperbárica e/ou do mergulho.

- Inglaterra e Austrália: obrigatória a consulta com médico treinado em medicina hiperbária e/ou do mergulho.

É importante que o mergulhador, caso procure um médico sem este treinamento, compareça à consulta com o formulário do R.S.T.C. pois o mesmo contém informações importantes para o exame do candidato. Ele pode ser baixado no aqui. Várias escolas possuem o formulário em português e os disponibiliza aos seus alunos.

Abraços e bons mergulhos,

Jomar Souza
Cremeb 11.443
Especialista em Medicina do Esporte
Médico de Referência DAN
Divemaster PADI #266111

Fialho pergunta, Fagundes responde II: redundância

sábado, 27 de fevereiro de 2010

Esta é a segunda edição do “Fialho pergunta, Fagundes responde”, novamente sobre o mesmo tema, o primeiro se encontra aqui. Talvez porque Fialho continua sem conhecer de perto o funcionamento do rebreather, ou quem sabe porque Fagundes evoluiu a configuração do equipamento, a questão agora é segurança.

Como se sabe, segurança debaixo d’agua é fundamental, para isso fazemos treinamentos, praticamos algumas manobras, e temos sempre equipamentos redundantes, ainda que este equipamento esteja sendo utilizado pelo nosso dupla de mergulho.

Numa imersão de mais de nove horas, sozinho no Cavo Artemidi, eu, Fialho, conclui que não havia um dupla. Sabia que a imersão era para testar um equipamento redundante. Entretanto, redundância é uma coisa mais complexa do que dois equipamentos nas costas. Estes equipamentos devem estar configurados para entrarem em operação substituindo o outro, ou o mergulhador deve ter como identificar o mal funcionamento de um e poder substituir pelo outro.

Fialho: uma falha no sistema de injeção de O2 poderia levar a duas situações: a) apagmanento por falta de O2 ou intoxicação por CO2 (se o sistema deixasse de fornecer O2), ou b) intoxicação por O2 (caso o sistema injetasse O2 em excesso). Que medidas esta configuração fornece para evitar estes dois cenários?

Bruno: problemas na injeção de O2 podem ocorrer sim, mas são perfeitamente percebíveis pelo mergulhador. O principal é a solenóide aberta (b), que é percebida pelo barulho constante de ingresso de gás no sistema. E há também o contrário, a solenóide fechada, onde não entra gás nenhum. Nos dois casos, além de ser percebível pelo som (solenoide fechada é percebida pela ausência de som), pela monitoração da PpO2 através do instrumental eletrônico o mergulhador consegue perceber. O que pode levar ao apagamento é a falha na injeção de O2 por solenóide fechada em razão da hipoxia. Mas como eu disse, isso é perfeitamente monitorável por um mergulhador competente. No Mega Meg há dois sistemas totalmente independentes de fornecimento de O2 para as solenóides, que tb são independentes. E caso haja falha num deles, como por exemplo, um vazamento catastrófico em um dos cilindros de O2, é possível transferir oxigênio para o outro rebreather através de válvula de adição manual. Cada rebreather do Mega Meg tem uma solenóide, uma válvula de adição de O2 no CL expiratório, um cilindro e mangueiras totalmente independentes.

Fialho: hum… não consegui visualizar o diagrama disso, mas entendi a idéia. Outra questão é: alagamento. Fazendo umas reações químicas na cabeça, creio eu que a cal sodada com água vira soda cáustica, nao? Respirar isso nao deve ser nada legal. Neste caso, interligar os dois circuitos seria um erro, pois no caso de alagamento, alagaria os dois sistemas. Que opções existem para este cenário?

Bruno: é possível ao mergulhador se recuperar de um alagamento de um rebreather porque no Megalodon há dispositivos water trap (armadilhas de água) nas peças em T do loop que barram o ingresso de água no canister principal onde está a cal sodada, fazendo com que grande parte desse ingresso de água se aloje no contra-pulmão expiratório e assim possa ser expelida do sistema pelas OPV (válvulas de alívio de sobrepressão). Fora isso, em cada canister há uma outra armadilha de água em seu fundo, que permite o uso do rebreather por várias horas, mesmo parcialmente alagado, em caso de emergência. Além disso, no Mega Meg em particular, os rebreathers são independentes e caso haja uma falha total nesse quesito, o loop que alagou não passa água para o outro. As bolsas respiratórias são totalmente independentes.

André Weber Carneiro

domingo, 8 de junho de 2008

Conheci André Weber Carneiro, ainda estudante de engenharia civil, como mergulhador da Belov Engenharia. Muitas vezes conversávamos sobre mergulho enquanto os cilindros da empresa dele estavam sendo recarregados na minha estação de recarga. Daí surgiu nossa amizade e o acerto para ele participar do curso de treinamento de instrutor. E o “NAUI Instructor Training Course” foi fácil para ele, pois além de mergulhar com freqüência e dominar o conteúdo teórico, André tinha alguma experiência de ensino e de apresentar trabalhos aos clientes da Belov. Lembro que, em certa ocasião, o vi subindo totalmente equipado (mergulho autônomo) na plataforma de popa da embarcação, sem auxílio de uma escada. “Putz! Para esse cara não existe obstáculo!”, comentei com os outros mergulhadores que estavam embarcados. Em 2003, a Belov contratou André como engenheiro. E ele continuou participando de diversas obras e serviços subaquáticos, especialmente inspeções. Há quase três anos me encontrei com ele e Aleixo Belov (“his Big Boss”) em uma festa na Capitania dos Portos da Bahia. E, numa conversa descontraída, comentei com Aleixo a “manobra ninja” que André havia realizado para embarcar totalmente equipado no Necton Sub, sem auxílio da escada. Aleixo me respondeu que confiava muito nele porque (para André) não havia tempo ruim. Dois meses depois André viajou para o Rio de Janeiro, pois a Belov Engenharia havia conquistado o maior contrato de mergulho raso do Brasil. E o nosso amigo foi como o Gerente do Contrato. Resolvi, então, entrevistá-lo para saber as novidades…

AML – Quais são os números desse contrato?

AWC- Hoje temos cerca de 110 funcionários aqui em Macaé dedicados a este contrato. Destes, temos aproximadamente 15 engenheiros, 20 supervisores de mergulho e 60 mergulhadores. A previsão é que até o final deste ano o número total de profissionais a serviço do contrato seja de 180 pessoas. Quanto aos equipamentos a Belov tem hoje operacionais em Macaé para atendimento à Petrobras cerca de 15 compressores, 4 câmaras hiperbáricas, 8 máquinas de solda (diesel e elétricas), diversos contêineres, 12 unidades hidráulicas movidas a ar, 50 torqueadeiras hidráulicas, diversos instrumentos de inspeção submarina (medidores de espessura, potencial eletroquímico, analisadores multigás portáteis) e muitos outros equipamentos, totalizando um investimento inicial em equipamentos acima de R$ 4.000.000,00.

AML – Muitos mergulhadores recreativos pensam em trabalhar com o mergulho profissional. Quais conselhos você pode dar para esse pessoal? Como é o trabalho do mergulhador profissional?

AWC – As diferenças entre o mergulho recreativo e comercial são enormes, principalmente nas exigências. Para o mergulhador comercial não adianta somente ser bom de água. Precisa ter outras utilidades ou especialidades, tais como qualificações em inspeção, solda submarina, eletricidade, mecânica, manobras de carga (rigger) e até mesmo operação de guinchos. O objetivo não é o mergulho e sim a tarefa a ser realizada (solda, inspeção, montagem, etc…). O mergulho é apenas um meio. Por isso o mergulhador que quer entrar no pólo offshore, que é a Bacia de Campos, deve possuir habilitações e qualificações além das de mergulhador profissional.

AML – O que mais você gostou de sua experiência de instrutor? O que a NAUI representa ou representou para sua bagagem de mergulhador?

AWC – Uma das minhas mais gratificantes experiências no mergulho recreativo foi minha temporada em Fernando de Noronha (durante minhas férias pela Belov) trabalhando como instrutor por uma operadora local. Além de conhecer praticamente todos os pontos de mergulho da Ilha, foi a primeira vez que realizei muitos mergulhos recreativos consecutivos. Isso permitiu que eu melhorasse minha técnica de respiração controlada (coisa que no mergulho comercial não é difundido devido ao suprimento ilimitado de ar mandado da superfície) e minhas técnicas descompressivas.

Meus treinamentos pela NAUI (instrutor, mergulho técnico, Nitrox, etc…) me deram conhecimento de técnicas e práticas difundidas e reconhecidas no mergulho recreativo, tais como Nitrox (de fundo e para descompressão acelerada), parada de segurança e parada intermediária que estou tentando divulgar no mergulho comercial raso. Estas técnicas certamente vão acrescentar muito nas margens de segurança e operacionalidade das tarefas executadas aqui na Bacia de Campos.

Por André Lima, em 5 de junho de 2008.

Walter Souza “Waltinho”

sábado, 8 de março de 2008

Numa justa homenagem e honra para o blog do Necton Sub, Waltinho inaugura a seção Entrevistas. Apesar de alguns motivos para essa escolha, basta citar que foi ele quem deu nome ao Necton. Vamos lá!

Walter Sousa é filho do veterano mergulhador Walter Andrade. Mas, foi com o apelido Waltinho que ele fez sua fama de instrutor de mergulho, biólogo e amigo. São trinta anos de história e estórias só de mergulho autônomo, que num bate-papo descontraído, Waltinho contou bem resumidamente nesta entrevista, enquanto o compressor enchia vários cilindros para o período de Carnaval.


Foto recente (março de 2008) tirada na plataforma de popa do Necton Sub.

Necton Sub – Waltinho, quando foi que você começou a mergulhar?

Waltinho – Minha primeira máscara eu ganhei aos 6 anos de idade. Era uma máscara de criança, de cor laranja, arredondada (tipo Zero), vendida em supermercado. Nesta época eu já acompanhava meu pai nas atividades não comerciais de mergulho. Mas, foi aos 11 anos que experimentei o mergulho autônomo. Era um cilindro pequeno, daqueles usados em indústria para quando há vazamento de gás tóxico.

Necton Sub – Você falou em atividades não comerciais de mergulho. Isso quer dizer nos naufrágios? O que era exatamente que se fazia nesses mergulhos? Era pirataria?

Waltinho – Basicamente os mergulhos eram nos naufrágios. Mas, não era pirataria. Tudo que fizemos era oficializado mediante licença concedida pela Capitania dos Portos da Bahia. Conseguimos colaborar muito com subsídios para a história de cada navio naufragado que mergulhamos.

Necton Sub – Mas há quem considere tudo feito até então, incluindo a própria expedição da Marinha no Galeão Sacramento, como simples resgate de peças. E resgate dessas peças para benefício financeiro próprio pode receber o rótulo de pirataria?

Waltinho – Vale a pena esclarecer isso. Pirataria é roubo! Veja no dicionário. Como já disse, havia oficialização de todas as atividades. Nada foi feito sem autorização da Marinha do Brasil. Está tudo documentado nos Relatórios gerados periodicamente durante toda a vigência da licença, reportagens nos jornais escritos na época, fotos. Talvez a grande maioria dos mergulhadores tente buscar tesouros desses navios afundados. O que é uma grande ilusão. Não há mercado para peças históricas. O investimento em explorar um naufrágio é muito maior que o retorno. Só se o mergulhador encontrar metal ou pedra preciosa (risos). Até hoje temos peças sem comprador que pague o valor do investimento feito. Na minha opinião, o maior retorno é a emoção de você durante os trabalhos de escavações encontrar uma peça e imaginar qual a sua origem, como ela veio a bordo, pra que ela servia, onde estava antes do afundamento e como chegou até ali. A viagem que cada descoberta nos proporciona a construção da hitória, e é o que mais vale.


Waltinho fazendo pose de capitão no que viria a ser o comando do Necton Sub, ainda em construção (ano 1999).

Necton Sub – E o início do mergulho recreativo? Como foi essa transição?

Waltinho – Começo de 1990, o mercado de mergulho profissional estava ficando cada vez mais difícil. Andrew Kemp, que já era colega desse mercado, já visualizava essa janela. Ele já era instrutor PADI e usava colete equilibrador e octopus em 1986. Que eu saiba ninguém usava esse equipamentos nessa época. Então a gente juntou 6 equipamentos e 12 cilindros e estava formada a escola, ainda sem nome.

Necton Sub – Foi a Salvador Dive? E Luizinho (atual Sun Dive) também fazia parte da equipe?

Waltinho – Sim. Luizinho sempre fez parte. Ele também trabalhava no mergulho comercial. A Salvador Dive foi fundada em 1993/4. Fizemos uma pesquisa de nomes entre os amigos, familiares e profissionais na área de marketing. Assim como a logomarca, que foi muito bem pensada. Em 1996 compramos o barco “Ken” e um compressor. A Salvador Dive, então estava completa.

Necton Sub – Já que esse site é de um barco de mergulho, fale mais sobre o “Ken”…

Waltinho – Foi o nosso mascote. O popopó mais gostoso de Salvador (risos). Era o primeiro a sair e o último a chegar… (risos). Era uma Traineira de 8,5 m muito confortável.


Waltinho no comando do Ken que estava alugado para Yá Scuba Center (ano 1998).

Necton Sub – O que mudou no mergulho recreativo da época que você começou a mergulhar para hoje?

Waltinho – Há mais profissionalismo hoje. Também há mais conhecimento. O mergulho recreativo estagnou na receita da década de 50 até os anos 80. O curso básico de mergulho no Brasil era todo baseado no esquema militar. A PDIC, ao meu ver, fez o diferencial, no final dos anos 80. Vale citar também os textos de Mauricio Carvalho. Notava-se a mudança de foco para as técnicas de mergulho. Outra coisa interessante era que não existia Manual de Mergulho em português. Na Bahia, Andrew Kemp deu esse pontapé inicial para a nova vertente do mergulho recreacional, com o trabalho da PADI.

Necton Sub – E dá pra fazer alguma previsão para daqui a 20 anos?

Waltinho – Salvador tem um bom potencial ambiental e de recursos humanos para crescer. Falta investimento de porte, tanto politico como financeiro, no setor do mergulho recreativo. Se isto não acontecer, continuaremos a oferecer a nossa receita caseira, que ainda encanta muita gente, com o nosso jeito baiano de ser (risos).