Semana Santa, Sexta-Feira da Paixão. Marcamos mais uma daquelas saídas para mergulhar no azul. Havia tempo que não mergulhava no “Pedregulho”, também conhecido como Falha de Fora ou Pedra do Negão, por conta da quantidade de Badejos existentes no local. Um pedrado extenso, 40 m de profundidade, mar aberto, que algumas vezes nos surpreende e nesse dia eu fui surpreendida.
O que seria apenas uma prática rotineira, com três amigos a bordo de um barco pesqueiro para fazer mergulhos independentes, se transformou em uma das mais difíceis situações que passei na vida. Me fez ver o quão pequena e insignificante sou diante da imensidão azul do mar, me fez rever alguns conceitos e principalmente relembrar que com o mar não se brinca. E não se brinca mesmo!
Saímos da Praia de Guarajuba numa embarcação, espaçosa, com capacidade para dez mergulhadores. Nosso grupo era de seis mergulhadores. Estávamos alegres e ansiosos por mais um daqueles mergulhos incríveis no azul. Pouco mais que uma hora de navegação até o primeiro ponto.
A maré estava grande e havia forte correnteza, nos forçando a bater pernas até chegar ao cabo da âncora, que também era o de descida. A água não estava tão limpa como de costume, assim mesmo o mergulho no Pedregulho correu bem, imagens foram feitas, respeitamos o tempo de fundo, de descompressão e na superfície, capitão e marinheiro, ambos pescadores, nos aguardavam com os peixes que haviam pescado de linha para nosso almoço.
Intervalo de superfície divertido, todos contentes, lanchamos enquanto aguardávamos o peixe ficar pronto, foi quando decidimos seguir para a Falha, um ponto com aproximadamente 26 m de profundidade e mais perto da costa, já no caminho de volta.
O mar continuava a “correr” bastante… eu, meio preguiçosa sem querer fazer o segundo mergulho, o que não é comum ocorrer. Foi quando decidimos cair logo na água e almoçar após o mergulho.
Um casal começou a descida, enquanto meu dupla terminava de se equipar e eu entrava na água por bombordo que estava livre. Achei que não encontraria obstáculos para chegar mais rápido ao cabo e lá aguardá-lo. Em seguida, caíram pelo outro bordo meu dupla e mais uma dupla de mergulhadores. Todos desceram, enquanto eu era arrastada pela correnteza à uns dois metros de profundidade, já perdida do cabo da âncora.
Como costumo mergulhar nesses pontos e sei que normalmente a correnteza ocorre na superfície enquanto no fundo fica tranqüilo e com boa visibilidade, tomei a infeliz decisão de descer até o fundo, pensando que seria mais fácil de encontrar o cabo preso a embarcação e o restante da turma lá embaixo.
Passei 10 minutos no fundo, procurando os companheiros. Avistei peixes grandes dos quais desconheço a espécie. Lá embaixo não corria, a água estava boa. Pensei em amarrar a carretilha num pedrado e soltar o deco marker, marcando o ponto onde eu estava. Mas me lembrei que lá na superfície corria muito, o cabo da carretilha poderia se partir e eu perder o deco marker. Foi quando avistei a linha e o anzol dos pescadores que comandavam nossa embarcação. Não pensei duas vezes e soltei o deco marker lá de baixo, iniciando lentamente minha subida.
Aos 10 m de profundidade já corria e eu me afastava cada vez mais da embarcação. Queimei um minuto da parada de segurança, mesmo tendo feito um mergulho de 40 metros de profundidade há menos de duas horas.
Quando cheguei à superfície e avistei o barco bem distante, a minha primeira reação foi xingar. Então pensei em abandonar o meu cinto com 5 kg de lastro. Mas, se eu precisar descer? E se eu precisar amarrar meus equipamentos? Nesse momento vários pensamentos me vinham à cabeça. Me lembrei dos tintureiras avistados de cima da embarcação após um mergulho que fizemos em Praia do Forte há pouco tempo atrás, pensei nos “bichos grandes”, pensei se eu conseguiria chegar até alguma praia, pensei no tanto de estórias sinistras que já aconteceram naquelas “redondezas”, pensei no resgate, pensei que o barco poderia estar com pouco combustível e talvez resolvessem voltar à terra para pedirem por ajuda, pensei na noite difícil que teria se tivesse de passar ali, que apesar da lua cheia eu estava sem lanternas e dificilmente seria avistada, na família, nas minhas cadelas, amigos (as), na vida, na morte, até que conclui que esses pensamentos não iriam me levar a lugar nenhum dos quais eu queria chegar naquele exato momento.
Comecei a pensar em situações semelhantes que tiveram finais felizes. Foi quando comecei a pensar em Deus e a falar com Ele. Foram quase duas horas controlando meus pensamentos e tentando manter a calma. O barco desaparecia e aparecia. Já estava tendo dificuldades em enxergá-lo. Balançava o deco marker e gritava, pois não tinha se quer um apito, mas não adiantava porque eu já estava a mais de um quilômetro de distância e o vento não permitiria que eles me ouvissem. Eu não entendia por que demoravam tanto tempo para fazerem o barco andar e virem atrás de mim.
Juntaram-se pensamentos positivos, fé, sorte (sei lá!) e comecei a enxergar o barco em movimento. Graças a Deus eles vinham em minha direção. Uma mistura de alívio, cansaço e muitas reflexões tomaram conta de mim. Meu corpo ficou pesado e dessa vez um banho de mar não retiraria aquele peso.
Ao se aproximarem ouvi alguém dizer: – se prepare para apanhar! Outro falava de lá: – agora você vai ouvir! Teve chororô!! Eu segurei o nó na goela!!! Outro pulou na água e ainda me deu uns “caldos”. – Chega de água salgada por hoje, disse eu que já tinha bebido “um tiquinho” suficiente para perder o apetite e abrir mão do peixe que já estava pronto a bordo. Já haviam ligado pra pegar telefone da Capitania dos Portos. Todos estavam tensos. Mas, o importante era que eu já estava ali.
Algumas coisas eu não entendi como puderam acontecer. O fato é que essas coisas simplesmente acontecem e ninguém está livre por melhor mergulhador que seja. Não conheço nenhum mergulhador auto-suficiente a ponto de nunca ter necessitado de uma ajuda por menor que seja.
Existem medidas que poderiam ter sido tomadas para evitar o ocorrido. Mas comparo com quem dorme de portas abertas. A gente só passa a tranca depois que é assaltado. A gente só começa a rever conceitos e condutas após passar por uma experiência como esta. Algumas pessoas aprendem também com as experiências dos outros.
Com certeza esses momentos ficarão registrados em minha memória e passarei a adotar mais algumas medidas de prevenção. Cautela, equipamentos de segurança e um bom planejamento de mergulho, antes de embarcar numa aventura dessa, talvez me poupasse desse susto.
Gostaria de agradecer aos companheiros sub de aventuras independentes e dizer que outras virão. Me desculpar pelo susto que preguei em todos, apesar do susto maior ter sido o meu.
Papai do Céu viu que estava muito cedo para eu deixar esse planeta, que tenho ainda muito o que aprender e muitos assuntos pendentes por aqui pra partir assim, tão cedo. Essa foi a minha Sexta-Feira da Paixão de 2009, hoje é Sábado de Aleluia, o amanhã a Deus pertence e 21 de abril, dia de Tiradentes, terá mais! Quem se habilita?
Beijos, abraços, bons mergulhos a todos e não se esqueçam do deco marker, espelhinho, apito, dive alert, spool, carretilha…………. e um bom planejamento.
Léia.