Arquivo da Categoria ‘E ficou para história’

O Brasil e a Dive Bahia foram avistados pela primeira vez em Porto Seguro

sexta-feira, 6 de fevereiro de 2009

Por Marcelo Rosário

Operando desde janeiro deste ano em Porto Seguro, Bahia, a Dive Bahia é uma empresa direcionada para o mergulho livre e autônomo e ao lazer náutico.

Ela oferece vários serviços, tais como cursos de mergulho autônomo, livre e batismo (credenciados pela SSI); locação e venda de equipamentos de mergulho e lazer náutico; pacotes turísticos com hospedagem; traslados locais e mergulhos programados, além de passeios em Porto Seguro e proximidades.

Atualmente, a empresa dispõe de uma lancha Cobra 19’, com motor Johnson 115, uma escuna de 35’ com motor MWM de três cilindros, bote inflável de quatro metros, dez conjuntos completos de equipamento autônomo, além de vários equipamentos básicos para mergulho livre e compressor Bauer com cascata para recarga de cilindros.

Mergulhar em Porto Seguro, onde o patrimônio histórico e cultural convive harmoniosamente com o paradisíaco litoral, banhado de águas cristalinas e rico em formações coralíneas, é sempre um programa muito agradável. O roteiro de operações da Dive Bahia inclui os recifes de Fora, Coroa Vermelha (naufrágio Castor), Cabrália e recife de Coroa Alta, as praias de Arraial e Trancoso, recifes de Itaquena, Espelho e Caraiva.

Maiores informações: Dive Bahia – Porto das Balsas – Passagem da Ajuda – Caixa Postal 116 – Porto Seguro – BA – CEP 45820 – Tel.: (073) 875 1210.

Yemanjá in Quattro Tempi

terça-feira, 3 de fevereiro de 2009


Adagio (1)


Moderato ma non troppo (2)


Allegro (3)


Presto con brio (4)

André Lima – Fotos do barco Necton Sub
Cláudio Sampaio “Buia” – Fotos da água e texto

Salve pessoal!

Mais uma vez, com o apoio do Necton Sub e do Corpo de Bombeiros realizei algumas fotos da entrega do presente de Iemanjá 2009, contudo a qualidade deixa, novamente, a desejar. A falta de luz foi o principal problema, muito maior que a confusão de embarcações em volta do presente, acreditem…

O presente principal deste ano foi uma estátua de um grande Mero! Não sei se está associado aos trabalhos realizados pelo projeto Meros do Brasil na capital baiana nos últimos anos, assim como daquelas Ong´s voltadas a conservação marinha, pouco importa! O que vale foi a intenção de homenagear esse grande peixe, muito vivo no imaginário dos pescadores de todo o Brasil!

Assim como a homenagem ao Mero e a necessidade da sua conservação, devemos refletir sobre a quantidade de presentes plásticos. Toda a sorte, modelos, cores e tamanhos de pentes, bonecas e carrinhos plásticos foram observados boiando ao sabor das correntes, definitivamente a Rainha do Mar parece não gostar desse tipo de presente…

A sugestão para que esses presentes de plásticos sejam substituídos por bonecas de pano, carrinhos e pentes de madeira, além de flores, muitas flores, continua sendo implementado e aceito por muitos.

Grande beijo para quem é dos beijos e um abração para quem é dos abraços!

Que a Rainha do Mar nos proteja e ilumine, cada vez mais, nossos caminhos em 2009!
Buia

Estorinhas de uma regata que faz história

terça-feira, 27 de janeiro de 2009

Regata João das Botas

A idéia de promover uma regata de saveiros surgiu em 1969, por ocasião da festa de despedida da escuna Santa Cruz de Lev Smarcevski, que iniciava uma singradura de volta ao mundo. A expedição não conseguiu sair do Brasil, mas o espetáculo visual da despedida, de rara beleza, configurado por inúmeras embarcações, dentre elas vários saveiros, impressionou o Capitão dos Portos da época, que resolveu, a partir de então, organizar uma regata de saveiros, de maneira que a população soteropolitana pudesse apreciar sempre o belo espetáculo das velas ao mar. E, também, um reconhecimento da importância cultural e histórica dos saveiros, tanto nas lutas pela independência do Brasil, quanto pela participação ativa no desenvolvimento econômico da região.

Em 1972, a Regata recebeu como patrono João Francisco de Oliveira Botas, conhecido como João das Botas, herói da Guerra da Independência, na Bahia, que lutou contra as forças navais portuguesas na Baía de Todos os Santos, comandando uma esquadra composta de canhoneiras e saveiros, guarnecida por 700 homens, provenientes das cidades do recôncavo baiano, que tinha como base a Ilha de Itaparica. Assim, a Regata, para homenagear esse vulto da história, passou a denominar-se Regata de Saveiros João das Botas.

João das Botas está inscrito nas páginas da história do Brasil, ostentando o título de Almirante.

Fontes:

https://www.mar.mil.br/menu_h/noticias/com2dn/regatajoaodasbotas.htm

Graminho – A Alma do Saveiro.

XXXVII Regata de Saveiros João das Botas

Ocorreu no dia 25 de janeiro de 2009, finalizando a Segunda Semana do Saveiro, evento organizado pela Associação Viva Saveiro.

A largada estava prevista para 12:30h. Mas, alguns saveiros se encontravam quase parados, sem vento suficiente para chegar ao Porto da Barra, onde seria dada a largada.

A tripulação do Necton Sub, mesmo sabendo que há leis específicas (há quem prefira a palavra máfia) para reboque, não pestanejou. “Rebocá-los-emos!”, gritou o capitão, seguido de risadas.

Não demorou muito tempo e um veleiro moderno também prestou esse apoio aos retardatários.

A Capitania dos Portos estava com 3 lanchas, 2 barcos infláveis e até uma Corveta. Se viu, ficou quieta. Melhor assim. Não ajudou, mas também não atrapalhou.


O último foi o primeiro a ser rebocado.


O saveiro “Ideal” também precisou de reboque.

E foi dada a largada. Primeiro para os saveiros de vela de içar e depois para as outras classes.

Os saveiros de vela de içar são as estrelas da competição, principalmente pela beleza das embarcações.

O menor saveiro dessa categoria era o “Elegante”, do cantor Gerônimo Santana, tendo o imediato do Necton Sub, Marcos de Paula, como tripulante.

Mário Mukeka, embarcado no Necton Sub, disse orgulhosamente para sua namorada/esposa “Eu fiz esse saveiro todinho. Tá lindo, não é minha neguinha?”. Além deles, o casal André Lima e Ludmila Senna, Zizi Duarte, Andréa Caldas, Gilson e família Rambelli, Fábio Marconi e Gabriela Leite estavam a bordo.


E não é que o “Elegante” saiu na frente de todos!?

E o Necton Sub seguiu acompanhando a regata. Ludmila Senna e Fábio Marconi estavam com dedos nervosíssimos, registrando todos os belos momentos da competição.


À esquerda, a proa do Sombra da Lua. Por André Lima.


Uma boa disputa: saveiros “É da Vida” e “Vendaval II”. Por Ludmila Senna.


O “Ideal” na frente. Por Ludmila Senna.


Uma panorâmica pouco após a largada. Por Ludmila Senna.


A acirrada competição dos saveiros de vela de pena comumente leva um ou mais barcos para fora do certame. Por André Lima.


“Pense num absurdo… Na Bahia há precedente…” a velha frase de Octávio Mangabeira precisou mais uma vez ser usada. Organizaram outra regata cruzando a “João das Botas”. Por Ludmila Senna.

Apesar de toda beleza do “Elegante”, o mesmo chegou por último. Enquanto esperávamos, muito agito acontecia no Porto da Barra:

Um jovem casal passeava de caiaque, quando o garoto caiu na água e não conseguiu subir de volta. Passado um tempo, o casal percebeu que estavam sendo levados para fora da zona abrigada pela forte correnteza de maré de vazante. Num ato de desespero tentaram subir pelas pedras, mas sem sucesso. Um outro rapaz entrou no mar para ajudá-los. Também sem êxito. Todos ficaram, então, gritando e acenando por ajuda. Passamos a mensagem pelo rádio VHF canal 16: “Capitania, Capitania, Necton Sub chamando. Pedido de ajuda. Capitania..”. Nada. Sem resposta. Acenamos algumas vezes para os botes infláveis da Capitania. Nada de ajuda. Quase vinte minutos depois, chegou um dos seus botes. Ufa!

“Documentos da embarcação, coletes salva-vidas, extintor…” solicitou o militar. INACREDITÁVEL!!!

Complemento de Mukeka:
Abordagem da Capitania
Por incrível que pareça um barco de mergulho, com uma bandeira de mergulho e um mergulhador lá embaixo soltando bolha, não foi o suficiente para evitar a aproximação de um bote motorizado. Ainda bem que eu não subi.

Necton Sub, 7 anos de barco operacional de mergulho

segunda-feira, 15 de dezembro de 2008


Completou 7 anos que Necton recebeu este certificado. A adição de “Sub” no nome ocorreu depois, quando houve a unificação nacional do cadastro de embarcações.

Naquela época a escada era outra, não havia som, não era pintado de amarelo, o acesso pelo espelho de popa era pequeno… nem podia sentar na borda!

O tempo passa, o tempo voa. E a poupança Bamerindus continua numa … Ops!

Viagem ao fundo do mar – Jornal A Tarde, 31 de março de 1991

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

Lazer & Informação, página 6

*Nem só de poluição vivem as águas dos mares baianos. Um tesouro incalculável está submerso e as pesquisas mostram que 600 navios estão afundados entre Morro de São Paulo, Baía de Todos os Santos e Barra de Jacuípe aguardando uma legislação mais coerente para trazer esse acervo para chão firme, a fim de que seja exposto contando sua história. E até mesmo essa história já enfrenta dificuldades para ser contada porque o que seria o Museu do Mar, no Forte São Marcelo está com suas obras ameaçadas de serem concluídas com a extinção da Secretaria do Patrimônio Histórico Artístico Nacional (SPHAN), que conduzia os trabalhos, mesmo a passos lentos.

As descobertas dessas embarcações afundadas são geralmente casuais. E o navio inglês “Queen” foi o último achado, sendo responsável uma equipe de mergulho comandada por César Freitas de Oliveira e Pedro Augusto Mota Santana, em 1985. Obedecendo a lei da época, eles solicitaram à Marinha a autorização para exploração do navio, mas não obtiveram resposta. Antes, a lei permitia que 80% do achado pertencesse ao mergulhador e 20% fosse para a União. A nova legislação entende que o galeão achado pertence à União. Para os dois mergulhadores, isso faz aumentar a pirataria e lamentam que a União hoje tenha direito a 100% de nada, quando antes tinham 20% do total achado.

Muitas peças já foram resgatadas nas águas baianas, e o que foi entregue à União não se encontra na Bahia como os pesquisadores acham que deveriam acontecer. Esse acervo está no Rio de Janeiro, mas muita coisa acabou no exterior, leiloada por mergulhadores de fora que tiveram acesso até as primeiras moedas cunhadas no Brasil em 1646, preferindo leiloar ou vender fora do País onde os mergulhadores baianos reivindicam o maior contato para que essas questões sejam discutidas, a fim de que a legislação de fato funcione. A Bahia, inclusive, é a região brasileira mais rica em navios naufragados.

Enquanto os mergulhadores esperam uma resposta do Ministério da Marinha, o acervo do “Queen” vem sendo depredado por mergulhadores que dispensam qualquer autorização, como constataram Pedro e César ao revisitar a área onde a embarcação encalhou. O “Queen” ou o que restou dele, encontra-se entre Salvador e Itaparica. Essa embarcação chegou à Bahia em 1° de julho de 1800, junto com o “Kent”. O incêndio foi atribuído a um acidente quando um oficial adormeceu enquanto lia e a vela acesa provocou as chamas que causaram a morte de 80 pessoas e perda de uma carga no valor de 150 mil libras esterlinas.

Pela história, D. Fernando José de Portugal foi governador e capitão-general da Capitania da Bahia entre 1788 e 1801. Durante seu governo o porto baiano foi visitado por diversas esquadras estrangeiras. Em 1795, por exemplo, 15 navios da Companhia Inglesa das Índias Orientais aqui estiveram. No caso do “Queen”, foram salvos alguns objetos, como um caixote contendo quatro pistolas, uma espingarda e um baluarte destinados a um dos potentados da Ásia. Os marinheiros sobreviventes que aqui ficaram esperando condução também saquearam os despojos da nau portuguesa cujo casco foi cobiçado durante muitos anos.

Quando uma embarcação afunda, principalmente em se tratando de construção antiga como as que existem no fundo do mar baiano, com o tempo os destroços se espalham e o pesquisador tem grande trabalho para delimitar o sítio e chegam a um mapeamento do quadrado a ser dragado. Durante muitos anos, devido a correnteza que é grande no Nordeste, constituindo-se no grande inimigo dos mergulhadores, peças foram arrastadas até a costa. Do “Queen” chegaram a Itaparica, Jaguaribe e outras praias, algumas caixas, arcas e outros pertences do navio, o que fez dom Francisco José de Portugal expedir correspondências alertando para a necessidade de devolução desses bens, a ponto de ameaçar com prisão e castigo aqueles que ocultarem “qualquer coisa das referidas”, efetuando diligências na área em busca dos objetos.

*Texto digitado de parte da matéria. Os outros assuntos serão publicados em breve.

Dortas complementa:
Esta história de museu náutico data desde 1976. Nós explorávamos o Nossa Senhora do Rosário e Ailton Lyra, um mergulhador pernambucano que assolava esta paragens e que gostava muito de aparecer, inclusive foi sócio de Pedro Santana, derrubou a posição do Sacramento, indicando o marcador que sabia o local para a Marinha (Não tinha GPS).

Assim, levou o pessoal do Gastão Moutinho lá na Boa Viagem a mando do Almirante Carneiro Ribeiro, de quem recebia benesses, que alegando que iria fazer um museu na Bahia explorou os dois, em flagrante esbulho, e depois deu de bandeja para a Presmar e Salvanave do Denis Albanese e o material recolhido foi em grande parte, talvez para o Rio. Quem sabe?

Seisui, exemplo de uso inteligente da tecnologia

domingo, 7 de dezembro de 2008

Este post na verdade é um recorte de jornal que recebemos por uma empresa de clipping eletrônico. Quer mais informações? Procure por “seisui tecnologias ambientais” no Google.

Cidade Dormitório

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Que falta nesta cidade?………………Verdade
Que mais por sua desonra……………….Honra
Falta mais que se lhe ponha………….Vergonha

Trecho do poema Que falta nesta cidade? de Gregório de Matos, uma década após a guerra holandesa. Ele sabia que Salvador e o Recôncavo nunca mais seriam os mesmos. A pouca dignidade e a escassa organização que existiam se perderam com a desordem que se instalou. Os novos governadores eram lacaios de quinta categoria. Para reparar os estragos da guerra, várias taxas foram acrescidas aos tributos do açúcar. Era impressionante a quantidade de tributos. Assim que a carga chegava a Salvador, era preciso pagar a um trapicheiro uma pataca de frete, dois vinténs de aluguel, a comissão do trapicheiro caso vendesse alguma caixa, depois vinham as taxas, os caixões, pregos, carretos, guindastes, direito de subsidio da terra, as descargas, os armazéns, as alfândegas, taras e marcas, a avaliação e os consulados. Os produtores de açúcar estavam à beira da ruína. Para o funcionamento de um engenho eram necessários, só na moenda, entre vinte a trinta negros, além do feitor e de outros tantos para substituir no turno da noite. Esses escravos da moenda tinham sempre de ser trocados, pois prostrados pelo sono e pelo cansaço metiam sem perceber a mão entre os eixos, sendo preciso que o feitor lhes cortasse o braço preso, antes que fossem inteiramente estraçalhados pela máquina.


Uma pequena moenda no pátio do Solar do Unhão

A Cidade Encantada e o Espelho de Oxalá à sua frente guardam e pagam esse carma até hoje. Algumas cenas parecem surreais, como a que aconteceu no início do século XX: o navio Cap Frio, carregado de centenas de máquinas de costuras inglesas se arrebentou contra as pedras do Farol da Barra. Centenas de negros descendentes dos escravos que tinham sido explorados por europeus saquearam a carga e, na época, foi criado em Salvador o maior contingente de alfaiates do Brasil. O algodão já estava implantado no Recôncavo e muitos negros conseguiram juntar patrimônio, montando seus próprios negócios. As curvas do destino são bastante sinuosas. Se estas máquinas chegassem às lojas, jamais um negro poderia tê-las comprado. O resgate de uma tragédia quase sempre está ligado a uma reação cármica e as dívidas são acertadas “na raça”, independente da vontade de quem deve ou do desejo do credor. A Bahia, pelo visto, parece um tribunal celestial, onde anjos barrocos tocam suas trombetas, anunciando a redenção.

No século XVII Salvador já era uma metrópole congestionada. Por conseqüência, a cidade era um verdadeiro dormitório. Gente de todo o canto do mundo por aqui andava, trazidos pela rota dos ventos. A Baía de Todos os Santos era uma parada obrigatória para quem ia ou vinha do oriente. Nesta época, os limites da cidade eram ao sul o Mosteiro de São Bento, ao norte o Mosteiro do Carmo e a oeste a Baía de Todos os Santos. A região leste era escassamente povoada por colonizadores. Parecia uma cidade pequena, mas era um mundo à parte. Becos, vielas e ladeiras formavam um grande labirinto onde lacaios do rei, trapaceiros de toda sorte, ladrões e aventureiros gananciosos tramavam seus novos planos. Os caminhos que levavam para as partes mais ermas da Cidade, como o Rio Vermelho ou o entorno da Baía, eram cheios de perigos, com salteadores e escravos fugidos. Caminhar por essas bandas, só com uma escolta armada. Enriquecer ou perder tudo era uma questão de pura sorte ou azar. O lacaio do rei podia dar e tomar qualquer patrimônio, sem muitas explicações. E qualquer peru com acesso ao palácio decidia o destino das pessoas da noite pra o dia. Mesmo famílias poderosas dos engenhos não estavam livres de perseguições.

Boca do Inferno

O personagem mais exótico dessa época foi Gregório de Matos. Nascido em 1636, viveu 59 anos e morreu em Recife cumprindo uma espécie de exílio, porque na Bahia tinha feito muitos inimigos. Filho de um rico comerciante, tendo estudado em Coimbra, se formou em Direito. Mas aqui se dedicava a fuder, beber e comer. Suas sátiras, distribuídas de maneira clandestina, eram temidas até em Portugal. E como diria Glauber Rocha, séculos depois, “Aqui, Deus e o diabo andavam juntos”. O seu melhor amigo era o quase santo padre Antônio Viera, que muitas vezes o livrou da morte e de outras desgraças, dando abrigo no Mosteiro de São Bento nos momentos em que era mais perseguido. Não foram poucos tais momentos e inimigos.


Salvador, cidade fortaleza

Nesta época, a terceira geração de piratas holandeses, já nascida nas costas brasileiras, infestava todo o litoral baiano. As diversas ilhas da Baía ou no arquipélago de Tinharé até a Baía de Camamu serviam de esconderijo para essa corja, que imprimia o terror por onde passasse. Como a cidade estava mais fortificada, eles não se interessaram mais por Salvador, mas todo o resto era alvo de cobiça.

Salvador exportava açúcar, fumo, cravo, aguardente e, no entorno da Baía de Todos os Santos, muitos estaleiros fabricavam embarcações de todo tamanho. Também aqui eram reparadas as naus. Comprava-se e vendia-se muita coisa clandestinamente, pois os inúmeros portos no entorno de Salvador facilitavam as negociatas. Lingotes de ouro vindos da Índia aqui eram transformados em jóias, que em Portugal não eram taxadas. Correntões com até 3 metros de comprimento, conhecidos como dobrões, davam várias voltas no pescoço. Alguns chegavam a pesar 3 quilos. Muita gente morreu afogada nos naufrágios porque não se desfazia desse peso na hora que pulava na água.


Sete vezes…


Triângulos

Há quem diga que o Vaticano queria transformar Salvador em um Estado. Por isso, inúmeras igrejas foram construídas. Como os mestres de obra e arquitetos tinham estreitas ligações com a Igreja Católica, mesmo as construções do governo ou dos ricos comerciantes, tinham características cabalísticas, que obedeciam a uma numerologia nas suas formas e adereços. As arcadas, janelas e portas eram em números de 7, 14, 21, 28 e assim por diante. Tudo partia do número 7. Os triângulos formavam ângulos padrões. Isso pode ser observado ainda hoje olhando a Cidade, do Forte de São Marcelo. De lá se vê o Palácio do Governo, com suas 28 janelas e 7 arcadas que seguram sua varanda. Todas as estruturas que se agarram à encosta da Ladeira da Montanha, ou sobras estão lá com suas 7 arcadas, 7 janelas, 7 candeeiros…


Antigos arcos de inspiração romana, na Cidade da Bahia

A mística de Roma, os Orixás da África e a numerologia dos judeus disfarçados de novos cristãos transformaram Salvador em uma Cidade Encantada e Baía de Todos os Santos, o maior espelho que Oxalá já teve.

Mário Cortizo Andion

Uma aventura na Amazônia

segunda-feira, 3 de novembro de 2008

Aos 61 anos, completando agora 40 de mergulho profissional, aconteceram fatos na semana passada que foram de forma inesperada e que citarei, pois como todos os outros, este foi de forma singular em uma juntada sucessivas de fatos, que creio ser muito interessante de se saber.

Estou na BELOV e meu trabalho é direcionado mais para inspeções, embora esteja tocando um pequeno serviço no cais do DN.

Na segunda, dia 15, praticamente no fim do dia quando ia para casa, fui informado que deveria ir com uma equipe mínima para Manaus, cujo vôo sairia as 01h40min da terça, onde nos encontraríamos com dois prepostos de uma empresa, quando iríamos a Coari, a 400km de Manaus, para verificar e existência de um suposto vazamento em uma área de travessia de dutos, em uma lagoa chamada de Aruan, que na realidade era um dos efluentes pela margem direita do Solimões, convergente para a lagoa de Coari, que deu nome a cidade.

Todas as empresas que trabalham no local exercem um controle rígido em relação ao meio ambiente e qualquer suspeita de vazamento em algum dos dutos que abastecem a cidade e o Terminal de Solimões, por mínimo que seja, mobiliza uma equipe de inspetores para uma verificação e reparo se porventura aconteça, independente dos custos de mobilização de pessoal e equipamentos.

E lá fomos nós, eu o Roberto e o Alex para Manaus, mergulhadores de minha equipe, onde nos reunimos com um engenheiro e um inspetor pertencentes à referida empresa, e embarcamos em um Bandeirante para Coari, distante a pouco menos de 400Km de Manaus, adentrando-se na floresta amazônica e seus rios.

O vôo foi fantástico, pois como voávamos em direção ao poente e com o sol na proa, os pilotos fecharam o pára-brisa com um mapa e viajamos a cegas e no instrumento, quando o pessoal acostumado a andar de carro vendo a estrada, ficaram meio apavorados com a cena que acontecia, e o pequeno avião saltando nas turbulências, provocadas pela evaporação das matas, aguaceiros e as variações meteorológicas que aí constantemente ocorrem.

Sempre tive e terei medo destes pilotos de pequenos aviões da Amazônia e do Pantanal, pois são bons demais e quem tiver viajando com eles e o tempo fechar, não espere arrego não, eles arremetem em cima, e quem os tiver acompanhando que se segure. É o que eu como marinheiro também faço, com os que estão comigo embarcados.

Pior só deve ser em uma guerra, sob tiros e mísseis, mas os da Amazônia são bons demais, pois é só água e floresta e não tendo nenhum lugar para uma pouso emergencial, e ainda tem a selva, que é muito agressiva e perigosa.

Chegamos a Coari já no fim da tarde, aterrizando suavemente com a habilidade dos pilotos, quando então se notava uma tensão no ar, especialmente na reunião que tivemos com o pessoal do Terminal, quando combinamos para na quarta feira elaborarmos a APR (Análise Preliminar de Riscos), que é um documento extremamente importante, já que nele são previstos todos os riscos envolvidos em qualquer trabalho para o qual é destinado, e o que se deve fazer pare evitá-los e remediá-los caso fuja de controle, com procedimentos de emergência, equipamentos de segurança obrigatórios etc.

Pela manhã, acordamos a 05h45min após dormimos em um hotel próximo ao porto, e as 06h00min pegamos no porto de Coari uma lancha rápida de transporte de pessoal, que nos levou ao terminal, pois o trabalho seria realizado em um área de sua competência.

Iniciamos neste dia a navegação e o contacto físico com o rio Amazonas.

Ocorre que em toda a área, os canteiros de obra são fechados no fim da tarde sendo proibido e qualquer trabalhador sair, e mesmo durante o dia, aproximar-se da mata só de dois ou mais, porque as onças ficam na espreita em volta do acampamento, atraída pelo cheiro humano e aguardando que venha um solitário, quando então o ataca pelas costas.

Tomar banho de rio, andar a esmo pela margem da floresta nem pensar. Este ato viola as normas de segurança e é veementemente proibido.

Arauan estava lá, uma lagoa extensa, quase seca devida a ser época de estiagem, com sua fauna ainda desconhecida embora sabida pelo pessoal que ai trabalhavam, e era onde íamos realizar um mergulho, bem que em um ponto raso, na margem de uma pequena e bonita ilhota, com menos de 2 metros de profundidade.

Ocorreu porém na terça 16, as 11h00min do dia que chegamos um trágico acidente, quando uma máquina tombou na margem ficando seu operador preso, morrendo afogado apesar das tentativas dos barqueiros da empresa, que mergulharam praticamente nus para tentar retirá-lo em vão, quando então mobilizou-se uma balsa com outra máquina para içá-la e um mergulhador em Manaus para resgatá-lo.

Efetuando o resgate do corpo, com surpresa, foi constatado que o mesmo tinha sido em menos de três horas literalmente comido da cintura para cima pelas piranhas, que foram encontradas ainda duas em seu abdômen e mais outro peixe durante a necropsia, e também pelo pessoal que ficou de vigia durante a noite na balsa do guindaste a existência de inúmeros jacarés com até 5 metros, (sic), fatos estes que alteraram todos os procedimentos para realização do trabalho, que na realidade no final não foi liberado.

Em seqüência, constataram-se mais dois ataques, um em um barqueiro que tirou a bota para não molhar quando ia empurrar o barco encalhado e que teve o seu calcanhar comido parcialmente, (agora diziam ser um pirarucu bóia), e um outro que foi lavar as mãos e foi mordido no dedo.

Não tínhamos noticia ainda da presença de sucuris, mais com certeza também estavam lá.

A Amazônia é tremendamente hostil, e seu ecossistema é regido pelas mais severas leis de sobrevivência.


Lagoa de Aruan, vendo-se a máquina tombada e a ilhota, onde na margem íamos realizar o mergulho.


Lagoa de Coari, com seu porto e embarcações.

Na infelicidade do trabalhador e tragicamente, os orixás da Bahia nos protegeram e nos deram o nosso boi de piranha, alertando para o perigo.

Na quinta, 18, fui até a lagoa após um vôo de helicóptero, para inspecionar a área de trabalho pois ainda se tencionava realizar o mergulho, quando, por experiência de já ter caçado em locais que existiam piranhas, observei os sinais de alerta que ostensivamente existiam. O espelho d água parado, ausência de pequenos peixes na margem sem constatar-se o espanar na superfície, não presença intensa de aves como garças e outras que se alimentam de peixes, nível da água baixo e a presença de jacarés, o seu principal predador.

Aí, eu já sabia, quem cair ferido fica, como também descalço pois até o cheiro do chamado chulé, que é uma enzima corporal, também atrai.

Não mergulhamos. Por segurança o trabalho não foi liberado, mas uma equipe de uma empresa de Manaus que ali chegou na sexta 19, soube que resgatou a máquina usando roupas e luvas mais espessas e na deles, pois ali é o seu rio, seu habitat e a ele estão ambientados.

Nós cá com os tubarões, niquins, caravelas, ouriços, ostras afiadas, moréia e outros mais.

Embora tenha visto em todas as viagens que eu fiz nas lojas de lembranças do Brasil piranhas secas para mostruário, nunca comprei nenhuma, pois a elas nunca tive nenhum referencial. No aeroporto de Manaus entretanto, comprei uma que me custou R$15,00 e dei-lhe o nome de Marisbela, em memória de uma piranha diferente da minha juventude. Mostrei-a ao Alex, mergulhador de minha equipe que é muito rude, e ele meteu a zorra do dedo na boca para verificar se era afiado, danificando-os na mandíbula inferior, quando alguns dentes caíram, e com isto, eu agora tenho sobre a minha mesa como ornamento uma piranha banguela. Só comigo mesmo estas coisas acontecem!

Finalizando, é notável eu mencionar os brasileiros que aí trabalham. Não os ribeirinhos locais que já estão no seu meio ambiente, mas sim os das empreiteiras e da Petrobrás, que aí possui uma base de operações, terminal, dutos e um campo de petróleo, operando com cuidados extremos para não afetar o meio ambiente local, deslocados de suas famílias e trabalhando em situações adversas, para engrandecer este nosso país fornecendo energia para condicionar a vida do restante em suas modernas cidades, que dirigindo seus automóveis importados e fazendo viagens para o exterior civilizado, fazem descaso com esta realidade constatada. Temos, aliado ao orgulho de tê-los como compatriotas de também sentirmos um pouco de vergonha, por ficarmos a defender os nossos valores superficiais em uma completa arrogância, enquanto eles lá, por eles o abdicam, ficando em situações extremas, na realização de seus trabalhos

E é só.

Dortas, 15-21 de outubro de 2007.

(Relato inicialmente postado no dia 7 de novembro de 2007, sem algumas imagens)

Arqueologia Marítima

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Pela primeira vez no Brasil está sendo ministrada uma disciplina (de graduação) de Arqueologia Marítima. E alguns poucos alunos da Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas da UFBA estão aproveitando as mais variadas e interessantes aulas.


Parte da turma. São alunos dos cursos de Museologia, Geografia e Antropologia.

Vídeos, palestras de convidados e passeios são atividades propostas e combinadas com a turma. Na aula de ontem (28.10.08) a turma fez uma análise do relatório da pesquisa publicada na Navigator (Subsídios para a História Marítima do Brasil) número 13, intitulado “O Galeão Sacramento( 1668) – Um naufrágio do século XVII e os resultados de uma pesquisa de arqueologia submarina na Bahia ( Brasil )” por Ulisses Pernambucano de Mello Neto.

Nesta sexta-feira (24.10.08) houve um passeio de barco (Necton Sub, é claro!) do Terminal Náutico da Bahia até o Forte Santo Antônio da Barra, seguindo depois para o Forte de Humaitá e volta para o píer. Várias atividades foram desenvolvidas: discussão da paisagem, mergulho no Maraldi, aprendizado da técnica de marcação de ponto por alinhamento, conhecimento de alguns instrumentos de navegação… Afinal alguma boa aula de Arqueologia Marítima tinha que ser feita no mar!


O professor da disciplina, Gilson Rambelli (sentado à esquerda), é arqueólogo subaquático.

Fotos por Dilsão da Bahia

Água suja X Sujeira na água

sábado, 20 de setembro de 2008

Venceu a água suja. A visibilidade estava quase zero no Cleanup Day, que acabou ficando restrito à zona da praia.

O Cruzeiro do Sul e o Necton Sub bem que tentaram.


Mas teve gente que gostou.


Você sabia que se surfa na região do naufrágio Blackadder (Praia de Boa Viagem)?

Moral da estória:
Muita sujeira na água = Excelente resultado do Cleanup Day
Água muito suja = Não acontece Cleanup Day (de mergulho)