Aos 61 anos, completando agora 40 de mergulho profissional, aconteceram fatos na semana passada que foram de forma inesperada e que citarei, pois como todos os outros, este foi de forma singular em uma juntada sucessivas de fatos, que creio ser muito interessante de se saber.
Estou na BELOV e meu trabalho é direcionado mais para inspeções, embora esteja tocando um pequeno serviço no cais do DN.
Na segunda, dia 15, praticamente no fim do dia quando ia para casa, fui informado que deveria ir com uma equipe mínima para Manaus, cujo vôo sairia as 01h40min da terça, onde nos encontraríamos com dois prepostos de uma empresa, quando iríamos a Coari, a 400km de Manaus, para verificar e existência de um suposto vazamento em uma área de travessia de dutos, em uma lagoa chamada de Aruan, que na realidade era um dos efluentes pela margem direita do Solimões, convergente para a lagoa de Coari, que deu nome a cidade.
Todas as empresas que trabalham no local exercem um controle rígido em relação ao meio ambiente e qualquer suspeita de vazamento em algum dos dutos que abastecem a cidade e o Terminal de Solimões, por mínimo que seja, mobiliza uma equipe de inspetores para uma verificação e reparo se porventura aconteça, independente dos custos de mobilização de pessoal e equipamentos.
E lá fomos nós, eu o Roberto e o Alex para Manaus, mergulhadores de minha equipe, onde nos reunimos com um engenheiro e um inspetor pertencentes à referida empresa, e embarcamos em um Bandeirante para Coari, distante a pouco menos de 400Km de Manaus, adentrando-se na floresta amazônica e seus rios.
O vôo foi fantástico, pois como voávamos em direção ao poente e com o sol na proa, os pilotos fecharam o pára-brisa com um mapa e viajamos a cegas e no instrumento, quando o pessoal acostumado a andar de carro vendo a estrada, ficaram meio apavorados com a cena que acontecia, e o pequeno avião saltando nas turbulências, provocadas pela evaporação das matas, aguaceiros e as variações meteorológicas que aí constantemente ocorrem.
Sempre tive e terei medo destes pilotos de pequenos aviões da Amazônia e do Pantanal, pois são bons demais e quem tiver viajando com eles e o tempo fechar, não espere arrego não, eles arremetem em cima, e quem os tiver acompanhando que se segure. É o que eu como marinheiro também faço, com os que estão comigo embarcados.
Pior só deve ser em uma guerra, sob tiros e mísseis, mas os da Amazônia são bons demais, pois é só água e floresta e não tendo nenhum lugar para uma pouso emergencial, e ainda tem a selva, que é muito agressiva e perigosa.
Chegamos a Coari já no fim da tarde, aterrizando suavemente com a habilidade dos pilotos, quando então se notava uma tensão no ar, especialmente na reunião que tivemos com o pessoal do Terminal, quando combinamos para na quarta feira elaborarmos a APR (Análise Preliminar de Riscos), que é um documento extremamente importante, já que nele são previstos todos os riscos envolvidos em qualquer trabalho para o qual é destinado, e o que se deve fazer pare evitá-los e remediá-los caso fuja de controle, com procedimentos de emergência, equipamentos de segurança obrigatórios etc.
Pela manhã, acordamos a 05h45min após dormimos em um hotel próximo ao porto, e as 06h00min pegamos no porto de Coari uma lancha rápida de transporte de pessoal, que nos levou ao terminal, pois o trabalho seria realizado em um área de sua competência.
Iniciamos neste dia a navegação e o contacto físico com o rio Amazonas.
Ocorre que em toda a área, os canteiros de obra são fechados no fim da tarde sendo proibido e qualquer trabalhador sair, e mesmo durante o dia, aproximar-se da mata só de dois ou mais, porque as onças ficam na espreita em volta do acampamento, atraída pelo cheiro humano e aguardando que venha um solitário, quando então o ataca pelas costas.
Tomar banho de rio, andar a esmo pela margem da floresta nem pensar. Este ato viola as normas de segurança e é veementemente proibido.
Arauan estava lá, uma lagoa extensa, quase seca devida a ser época de estiagem, com sua fauna ainda desconhecida embora sabida pelo pessoal que ai trabalhavam, e era onde íamos realizar um mergulho, bem que em um ponto raso, na margem de uma pequena e bonita ilhota, com menos de 2 metros de profundidade.
Ocorreu porém na terça 16, as 11h00min do dia que chegamos um trágico acidente, quando uma máquina tombou na margem ficando seu operador preso, morrendo afogado apesar das tentativas dos barqueiros da empresa, que mergulharam praticamente nus para tentar retirá-lo em vão, quando então mobilizou-se uma balsa com outra máquina para içá-la e um mergulhador em Manaus para resgatá-lo.
Efetuando o resgate do corpo, com surpresa, foi constatado que o mesmo tinha sido em menos de três horas literalmente comido da cintura para cima pelas piranhas, que foram encontradas ainda duas em seu abdômen e mais outro peixe durante a necropsia, e também pelo pessoal que ficou de vigia durante a noite na balsa do guindaste a existência de inúmeros jacarés com até 5 metros, (sic), fatos estes que alteraram todos os procedimentos para realização do trabalho, que na realidade no final não foi liberado.
Em seqüência, constataram-se mais dois ataques, um em um barqueiro que tirou a bota para não molhar quando ia empurrar o barco encalhado e que teve o seu calcanhar comido parcialmente, (agora diziam ser um pirarucu bóia), e um outro que foi lavar as mãos e foi mordido no dedo.
Não tínhamos noticia ainda da presença de sucuris, mais com certeza também estavam lá.
A Amazônia é tremendamente hostil, e seu ecossistema é regido pelas mais severas leis de sobrevivência.
Lagoa de Aruan, vendo-se a máquina tombada e a ilhota, onde na margem íamos realizar o mergulho.
Lagoa de Coari, com seu porto e embarcações.
Na infelicidade do trabalhador e tragicamente, os orixás da Bahia nos protegeram e nos deram o nosso boi de piranha, alertando para o perigo.
Na quinta, 18, fui até a lagoa após um vôo de helicóptero, para inspecionar a área de trabalho pois ainda se tencionava realizar o mergulho, quando, por experiência de já ter caçado em locais que existiam piranhas, observei os sinais de alerta que ostensivamente existiam. O espelho d água parado, ausência de pequenos peixes na margem sem constatar-se o espanar na superfície, não presença intensa de aves como garças e outras que se alimentam de peixes, nível da água baixo e a presença de jacarés, o seu principal predador.
Aí, eu já sabia, quem cair ferido fica, como também descalço pois até o cheiro do chamado chulé, que é uma enzima corporal, também atrai.
Não mergulhamos. Por segurança o trabalho não foi liberado, mas uma equipe de uma empresa de Manaus que ali chegou na sexta 19, soube que resgatou a máquina usando roupas e luvas mais espessas e na deles, pois ali é o seu rio, seu habitat e a ele estão ambientados.
Nós cá com os tubarões, niquins, caravelas, ouriços, ostras afiadas, moréia e outros mais.
Embora tenha visto em todas as viagens que eu fiz nas lojas de lembranças do Brasil piranhas secas para mostruário, nunca comprei nenhuma, pois a elas nunca tive nenhum referencial. No aeroporto de Manaus entretanto, comprei uma que me custou R$15,00 e dei-lhe o nome de Marisbela, em memória de uma piranha diferente da minha juventude. Mostrei-a ao Alex, mergulhador de minha equipe que é muito rude, e ele meteu a zorra do dedo na boca para verificar se era afiado, danificando-os na mandíbula inferior, quando alguns dentes caíram, e com isto, eu agora tenho sobre a minha mesa como ornamento uma piranha banguela. Só comigo mesmo estas coisas acontecem!
Finalizando, é notável eu mencionar os brasileiros que aí trabalham. Não os ribeirinhos locais que já estão no seu meio ambiente, mas sim os das empreiteiras e da Petrobrás, que aí possui uma base de operações, terminal, dutos e um campo de petróleo, operando com cuidados extremos para não afetar o meio ambiente local, deslocados de suas famílias e trabalhando em situações adversas, para engrandecer este nosso país fornecendo energia para condicionar a vida do restante em suas modernas cidades, que dirigindo seus automóveis importados e fazendo viagens para o exterior civilizado, fazem descaso com esta realidade constatada. Temos, aliado ao orgulho de tê-los como compatriotas de também sentirmos um pouco de vergonha, por ficarmos a defender os nossos valores superficiais em uma completa arrogância, enquanto eles lá, por eles o abdicam, ficando em situações extremas, na realização de seus trabalhos
E é só.
Dortas, 15-21 de outubro de 2007.
(Relato inicialmente postado no dia 7 de novembro de 2007, sem algumas imagens)