Palavrinha que anda na moda ultimamente , resiliência significa a capacidade que o recife de coral possui de sofrer uma agressão, seja ela natural ou causada pelo homem, e ainda assim conseguir resistir a esta agressão e restaurar a sua condição bacana inicial, assim, igualzinho a você quando toma um porre, faz besteira, chora, chama pela mãe, e ainda assim está vivo, pronto pra outra!
Os recifes de corais estão em progressivo declínio, cerca de 30% dos recifes mundiais estão seriamente danificados, e estima-se que 60% deles estarão extintos até 2030 (Hughes et al, 2003). A pesca excessiva, a poluição, o aquecimento global, a eutrofização, sedimentação, doenças (UFA!), são apenas alguns processos que contribuem para a perda da biodiversidade nos recifes. Acho que não vou ter mais emprego….
A redução dos estoques de peixes, sobretudo os herbívoros (budiões, barbeiros) e a adição de matéria orgânica proveniente das atividades humanas (leia-se esgotos) tem provocado um fenômeno denominado “mudança de fase”, onde a antiga dominância dos corais em um recife dá lugar a uma dominância de algas. Agora quem come as algas??? Os peixes herbívoros. E se não tiver mais peixes herbívoros, quem come as algas??? Eu não como!!! As algas competem diretamente por espaço com os corais e as suas larvas, então xô corais. E ainda por cima, matéria orgânica aduba as benditas verdinhas…..
Como se não bastasse, o aquecimento global (sim, ao contrário do que Bush diz, isto não é um mito) aquece anormalmente as águas superficiais dos oceanos (rasas), onde os corais adooooram crescer, fazendo-os expelir os seus simbiontes denominados zooxantelas, que provém uma grande parte da comidinha necessária ao seu desenvolvimento e saúde e conferem a eles aquela cor linda. Com isto, os corais se tornam brancos, expondo a coloração do seu esqueleto (que obviamente é branco), por isso o nome “branqueamento de corais”. Sem comidinha, os corais se tornam mais susceptíveis a doenças ou podem, simplesmente, morrer de fome mesmo.

Competição entre algas frondosas e coral, foto por Igor Cruz
Apesar desse placar de 1000 x 0, algumas espécies de corais conseguem desenvolver uma capacidade de regeneração, mecanismos adaptativos, que permitem a eles tomar na cara e dar o troco, acabam virando uma espécie de “couro de rato” mesmo. Mas veja bem, só algumas espécies. Dentro da Baía de Todos os Santos, já se pode notar o declínio ou mesmo ausência de espécies relatadas em pesquisas feitas anteriormente, e os que sobraram são poucas espécies ultra-mega-blaster-adaptadas às condições severas da Baía.
Mass….vocês podem estar se perguntando, e eu com isso? Tudo bem, recifes de corais não são gordos e fofos como as baleias, não possuem a graça e o nado dos golfinhos bailarinos e tartarugas , não tem aquela cara de cotadinho dos ursos panda (leia-se altíssimo índice de fofulência), mas ainda assim formam um dos ecossistemas mais ricos do mundo , superando até mesmo as florestas tropicais em termos de biodiversidade. Sabe todos aqueles animais que vivem no mar? Todos, todinhos mesmo? Cerca de 25% deles estão nos recifes, sendo que os recifes representam menos de 0,2% da área oceânica. São responsáveis por oferecer abrigo, alimento , proteção, médico (!) para muitos grupos de peixes, lagostas, polvos, caranguejos, moluscos, e tudo que há de mais lindo em bichos e gostoso em comida neste mundo, inclusive aquele badejinho que você adora. Além disto, possuem uma incomparável beleza visual, tornando a vida de nós, mergulhadores, muito mais alegre, colorida e viva! Então…vida longa aos recifes. Brindem a eles na próxima vez que foram tomar algo com mais de 0,5% de teor alcoólico (xarope tem menos).
E chega de tanta seriedade nos artigos científicos!
Amanda Ercília Nascimento
Grupo de Pesquisa em Recifes de Corais e Mudanças Globais
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