Logo no início daquela conversa séria na beira do cais, o mergulhador curioso, que nada tinha de besta e ainda gozava da confiança daquele interlocutor, fez a sua primeira e mais importante pergunta: “Por que haveria de haver tanta pirataria no Mar da Bahia?”.
E nada mais poderia interromper aquela explicação.
- O Fio da Meada
Nos primeiros anos do descobrimento das Américas já aconteciam abordagens de piratas e corsários em todo o litoral brasileiro, a exemplo dos corsários franceses para contrabando do pau-brasil. Mas, nada se compara ao que viria a acontecer no século XVII, uma estória cheia de conchavos e conspirações.
Em 1580 armou-se uma esquadra, já sob jugo da Dinastia Filipina, composta por 80 embarcações que levariam para a Europa a pilhagem das 3 Américas, principalmente ouro, muito ouro. Os holandeses (na verdade neerlandeses, o que viria a ser os Países Baixos do Sul), com um número inferior de embarcações, atacou toda essa rica frota no meio do Atlântico, e os barcos que não desceram para o fundo do oceano foram tomados. Nenhum chegou ao seu destino. Foi tanto ouro que, com essa capacidade financeira, entre 1580 e 1620, foram fabricadas 230 belonaves de guerra. Diferentes dos grandes galeões, eram barcos ágeis, com pouco calado, permitindo assim acesso às praias rasas e rios das baías.
Dessas duzentas e trinta máquinas de guerra, por volta de quarenta foram entregues ao Conde João Maurício de Nassau-Siegen. Oficialmente (por estarem vinculadas à Companhia das Índias Ocidentais) essa frota dominou o Atlântico Sul no século XXVII e, a partir de 1620, a Baía de Todos os Santos, o arquipélago de Tinharé e a Baía de Camamú se transformaram no maior covil de piratas da América do Sul. A princípio os mercenários, conhecidos como “mendigos do mar”, estavam sob o comando de Maurício de Nassau, mas em seguida os “free-lancers” foram formando famílias e novos líderes apareceram.

Bandeira da Companhia das Índias Ocidentais.
Quando os carregamentos de ouro diminuíram, os piratas (ex-mercenários) se voltaram para o roubo da carga de açúcar e a pilhagem dos engenhos, com técnicas de guerra e muita crueldade. Aprenderam o caminho do Paraguassú e, em uma unica noite entravam e saiam do rio, deixando um rastro de destruição sem precedentes. Vale salientar que após a partida do Comandante Nassau os piratas passaram a atuar por conta e risco próprios.

Conde João Mauricio de Nassau-Siegen.
Produzindo mais açúcar do que o Caribe, a Bahia se transformou em um covil impressionante de piratas. A tropa neerlandesa era conhecida pela sua crueldade, mas seus descendentes mestiços com as nativas conseguiram superar seus antepassados em requintes de crueldade.

Ilustração de um ataque holandês em terra.
Quando a coroa da Espanha, na verdade uma corriola entre Espanha e Portugal, se viu cercada por tamanha frota inimiga, a Rainha da Espanha, que era a toda poderosa do momento na Península Ibérica, deu a seguinte ordem: Quando dois barcos neerlandeses estivessem atacando um da União Ibérica, nessa hora, o capitão espanhol ou português deveria tocar fogo no depósito de pólvora da embarcação, mandando os três barcos pelos ares.
Por aqui só se sabe de um que atendeu a Rainha, o Comandante Pedro Carneiro, do galeão português Nossa Senhora do Rosário, numa atitude suicida tocou fogo no paiol (depósito de pólvora e munições) acabando de uma vez por todas com a carreira do mais temido barco da frota holandesa, o Utrecht. E também tirou de circulação uma nau de nome duvidoso (Huys Van Nassau) pilotada pelo capitão Gysseling, que saindo à deriva foi encalhar na Ilha de Itaparica, acima do atual vilarejo denominado de “Barra Grande”.
Os comandantes Jacob Pauwelszn Cort e Gysseling tinham treinamentos militares e seus ataques eram temidos em todo o Atlântico Sul. A fama do Utrecht era que seus prisioneiros morriam bem devagar, quando não eram negociados com os Tupinambás para virarem churrasco. Esse fato, e não a ordem da rainha, na sua conta kamikasi que cada barco esplodido tiravam dois holandeses de circulação, determinou a ação suicida do capitão da nave N.Sra. do Rosário.
Foram os descendentes dessa gente que povoaram o conjunto da Baía de Todos os Santos, o arquipélago de Tinharé e a Baía de Camamú. De todas essas localidades o filé era o Rio Paraguassú.

Baía de Todos os Santos, século XVII.
Os holandeses usavam, no costado do barco, uma série de solas de couro superpostas. Isso amortecia as balas das poucas baterias de resistência do Paraguassú. As balas amortecidas pelas peles caiam n’água sem provocarem qualquer dano aos barcos holandeses. E como essas baterias ficavam logo na entrada do rio, após passarem por elas, a subida do rio era uma bagaceira. Para garantir a volta sem resistência saiam matando qualquer um que aparecesse no caminho e queimando todos os barcos que resistissem nas margens. Tudo isso era possível por orientações de espiões que informavam quando o açúcar estava pronto para ser embarcado.
Nem sempre dava certo e muitas embarcações holandesas descansam no fundo do rio, em bancos de areia, cabeços de pedras e margem de iguapes traiçoeiras, que deram fim à carreira de famosos piratas. Quando o desastre se consumava era um “deus-nos-acuda” para vencer a lama e chegar à margem. Tinham que se livrar das armaduras e se proteger das emboscadas. Uma coisa era lutar com um barco cuspindo balas de canhão e bons atiradores, outra era estar na condição de náufragos em uma margem desconhecida. Quando encontravam algum barco ainda podiam tentar uma fuga, mas se amanhecessem na margem era muito difícil se manter vivo. De qualquer maneira perdiam tudo que já tinham pilhado, visto que os piratas guardavam tudo dentro dos barcos. Alguns podem até ter enterrado seus “bens” em várias localidades da Baía de Todos os Santos, sabendo do risco que era subir o rio.
É impressionante o conteúdo das cargas descobertas nos barcos dos piratas. Como eles saqueavam vários carregamentos e engenhos milionários, a carga era composta por um sortimento de louças de todas as parte do mundo, as mais finas e delicadas peças da China e da Índia, espadas de execução usadas pelos guerreiros orientais, ornamentadas por deidades da literatura védica e moedas, muitas moedas de ouro e prata. A lama e a escuridão do Rio Paraguassú guardam esses tesouros incalculáveis. A quase que total falta de visilibidade das suas águas protege, até hoje, esses os sítios arqueológicos. Porém as bombas para matar peixes vêem há anos estraçalhando as peças de porcelana das mais diversas procedências. Cacos são achados nas redes e gererês, puxados pelos pescadores das localidades mais importantes da região, com maior freqüência ao largo dos engenhos de açúcar.