Os mergulhadores às vezes surgem do nada, já nascem com a formação latente na sua personalidade e com o passar dos anos, a vão desenvolvendo. Muitos se fixam no pensamento de que são imortais, desconhecem água suja, mergulham de dia ou à noite, ignoram perigos relativos a grandes peixes, e se os encontram os matam, e levam a vida esculhambando, e sendo irrelevante, como todo homem do mar.
Em 1971 ou 1972
O barco “Engano”, com o qual eu e o Zé Estrellado explorávamos o Cap Frio, estava fundeado na avenida Beira Mar. Lá ficávamos na beira do cais conversando, quando num dia eu vi um negrinho, barrigudo e de cabeça grande, com uns 10 a 12 anos de idade, portando um saco onde dentro alguma coisa se mexia e o conduzia com uma colher de pedreiro na mão, para uma área despraiada na baixa mar. E começou a cavar um buraco. Chamei a atenção de Zé e para lá me dirigi quando ele foi disfarçando e saindo, e em seguida jogou o saco no monturo de lixo que se encontrava ali perto.
Peguei-o pela orelha e fui ver o que tinha no saco e então ele já choramingando me disse que eram cinco gatinhos, que a gata de sua casa tinha parido e que sua mãe tinha lhe mandando enterrar na praia. Mas ele ficou com pena e deixou o saco no lixo. Para cada gato lhe dei três cascudos, o que me deixou com os nós dos dedos doendo, e a cabeça dele não sei, pois logo que o libertei, me deu uma pedrada.
Naquela época, eu andava em uma moto de 250cc de dois cilindros da Honda, onde fazia muitas loucuras e consegui sobreviver sem um arranhão. E quando passava nas ruas de Itapagipe aquele negrinho me dava certeiras pedradas. Quando eu o pegava, lhe despejava uma série de cascudos naquela imensa cabeça. Ele trancava aquela dentadura alva fazendo careta, com os dentes todos a mostra e dizia “Não faça isto não seu Francisco, não fui eu quem deu a pedrada não. Foi outro que se parece comigo.”
Ano de 1976
Estava explorando o N. Senhora do Rosário, que além das louças e especiarias possuía também uma imensa carga de búzios da Costa, o Zimbo, usado para compra de escravos, que se encontravam misturados com os sedimentos. Quando o air-lift operava, se precipitavam no fundo como uma imensa chuva submarina. Começaram então a se agruparem em torno de nós diversas canoas e catraias vindo da Pedra Fura e do Estaleiro do Bonfim, com um grupo variado de mergulhadores embarcados, portando máscaras remendadas e jererés, pois eram pescadores de siri-bóia ou de bomba, que mergulhavam e os iam embarcando. Eram mais de 6 sacos de 60kg por dia no total. Eu não ligava para os búzios, a louça só bastava, porém Walter Andrade tomava de cada um uma parte, como uma taxa cobrada.
Dentre os mergulhadores existia um mais gaiato, mais ousado, falando alto e com intimidade e que ficava procurando conversa comigo. E então eu vi aquela cabeça grande, a barriga e a imensa dentadura com um largo sorriso. Era o negrinho dos gatos, agora já adolescente. Logo chegou nadando no “MARÉ MANSA” e já foi dizendo: “Com licença seu Francisco, posso subir no barco?”. Ele tinha um jeito de me chamar de Seu Francisco que durou por muito tempo e que sempre encarei mais como ironia, do que como forma de respeito. E aí tomou ousadia, foi encostando, ajudando quando não tinha nenhuma malandragem para fazer, e nasceu uma forte amizade.
Meu filho Daniel com medo do mero, meu sobrinho Fred e Tula, na embarcação SESMARIA.
Coloquei-lhe uma válvula na boca e aí virou mergulhador. Mais tarde fiz até seu registro como Mergulhador no Sétimo Grupo da Marinha Mercante, que lhe deu uma Carteira de Identificação da Marinha, que ele usava para dar carteiradas, pelos bregas afora.
Carlos Augusto Sales, Tula
Malandro, bom de briga, fiel companheiro e não vacilava, estava sempre ligado. Aprontou diversas vezes comigo, mas sempre coloquei na balança, e seu valor interior e a fidelidade pura da amizade, superava tudo isto.
André Lima o conheceu e trabalhamos em inspeção de dutos a bordo da “SESMARIA”, quando por diversas vezes testemunhou muitas de suas façanhas.
Zé Carlos, Tula e André (ainda com muito cabelo), também na SESMARIA.
Inspecionávamos em seguimento por debaixo da água estes dutos e sempre que um mergulhador terminava o seu percurso, deixava uma bóia, subia, e então o outro descia.
Por diversas vezes, na sua hora de mergulhar eu o pegava ainda conversando e lhe dizia: “O seu FDP , você ainda está em cima?”. E ele saia catando as nadadeiras, a máscara, o cinto de lastro e colocando o regulador preso na umbilical na boca, pulava na água com tudo na mão e descia se vestindo, só subindo no término do percurso ou quando matava um peixe. Ou então vinha superfície dizendo: “Seu Francisco, muita calma porque o senhor não pode ficar nervoso por causa do coração, mas eu atirei em uma raia e ela levou o arpão e a linha”. E ficava com uma cara descarada dando risada.
Era magro e por possuir pouca gordura no corpo, era sensível ao frio e mergulhando com ou sem roupa, subia sempre trincando os dentes, e aí eu lhe perguntava: “Tá com frio sacana? Quer ser mergulhador, é?” E ele retrucava: “Não tou não, seu Francisco, é o meu jeito que é assim mesmo”.
Quando recebia o salário, ia ao Shopping e comprava roupa e tênis de marca, voltando duro, sem dinheiro nem para o cigarro, e quando eu lhe comentava a respeito dizia: “Seu Francisco, pobre é assim, quando pega no dinheiro tira um minuto de rico, fica duro e pronto, volta ao que é”.
No Carnaval e na Lavagem do Bonfim, nos encontrávamos nos trios de um amigo onde ele fazia bico como segurança ou vigia, quando abria a porta e eu subia. Ou então no Beco da Ribeira (Última rua que liga a Carlos Gomes com a Avenida Sete de Setembro). Lá aprontávamos, dávamos pau nos ladrões após eu deixar no bolso da bermuda um maço de dinheiro e jornal amarrado na perna, passando por gringo, que quando eles puxavam eu sentia e aí cobríamos na porrada.
Certa feita ele e eu nos encontramos com um amigo meu, e já estávamos bem biritados quando em um vacilo, ele tirou o cinto de grife que meu amigo usava. Saiu e voltou com a mão cheia de garrafas de cerveja após negociá-lo em uma barraca. E o meu colega ficou segurando a bermuda, a gente sacaneando, e como todo mundo estava na esculhambação que é o Carnaval, nem ligou.
Estava também no esquema do HO MEI III, quando veio tomar cerveja em terra comemorando a flutuação do navio após o encalhe e muitas cervejas depois, compradas fiadas ao recebimento do serviço, ele tinha desaparecido e descido na correnteza.
São muitas as suas histórias…
Mandando recado aos adversários de pirataria na retirada do hélice do Cavo Artemidi, quando vemos duas paletas seccionadas a dinamite embarcadas no flutuante. Itapagipe, Bonfim.
Pegou AIDS, devido a vida que levava, se misturando com muita gente que se aplicava com seringas de forma promíscua, e, como não existia certa precaução de sua parte, os sintomas começaram lá em Itaparica, em um serviço que fazíamos em uma Marina na fonte da Bica, quando foi para lá a pedido de sua família porque estava aprontando muito, e começou com uma desinteira seguida de uma fraqueza, quando nem para almoçar queria ir.
Veio para Salvador e ai se internou por uns tempos e quando de novo o vi estava com manchas do sarcoma no corpo e tomando remédios específicos.
Um dia ele apareceu na oficina do Estaleiro então lhe falei se ele tinha conhecimento da situação, quando então lhe disse que se precisasse de algum dinheiro para comprar qualquer coisa, até o fuminho que ele gostava, que me procurasse. O que fez por três ou quatro vezes, até que em um dia veio a falecer.
Era um amigo fiel de quem confiava e fizemos diversas empreitadas, muito sentindo a sua perda, e se não compareci ao seu enterro, foi por situação criada pela sua família e para imaginá-lo que estivesse como se viajado, aprontando por aí, e não na realidade cruel do que aconteceu.
JDortas