Posts com a Tag ‘canhoeira’

Canhoneira Eber

quinta-feira, 23 de julho de 2009

Rio de Janeiro, no dia 26 de outubro de 1917, o presidente da República do Brasil Wenceslau Brás sancionou a declaração de guerra à Alemanha. Neste mesmo dia, na capital da Bahia, ocorria um ato de afronta as autoridades militares da região: tripulantes de um navio de guerra alemão provocam um incêndio a bordo e põem a pique a embarcação abrindo as válvulas dos seus tanques, impedindo assim que a Marinha Brasileira tomasse posse da mesma.

Um repórter do Jornal A Tarde ouviu de um grupo de marujos do navio, de que não iriam entregar a embarcação às autoridades competentes. Pois a mesma, já havia sido intimada pelo comandante do destroyer Pianhy. Pouco depois, outros 2 repórteres do mesmo jornal, fretaram uma embarcação e disfarçados de sócios de um clube de regatas do local, foram verificar o que se passava no navio. Ouviram pancadas fortes e viram um marinheiro derramar no convés uma lata de um líquido, que julgavam ser querosene ou gasolina. Um repórter, através de um telefone, relatou o que se passava no navio ao jornal, que se incumbiu de denunciar as estranhas intenções dos tripulantes ao Capitão do Porto e ao General Comandante da Região Militar.

tripula eber

Neste mesmo dia, moradores da região observaram desde cedo, a retirada de papéis e objetos de valor do navio pelo ex-secretário do consulado alemão Sr. Fritz com ajuda do Sr. Nicolau Beckrath, através de uma pequena lancha. Em uma dessas viagens, uma equipe de reportagem do Jornal A Tarde, dirigiu-se a um tripulante alemão que indagou o porquê da intromissão do Brasil na guerra já que o navio torpedeado era alemão e, acrescentou que levava pão para bordo e as únicas intenções da tripulação era tocar músicas e dançar.

consula eber

No relato do Jornal A Tarde, consta que às 11:00h a tripulação abriu a válvula de 2 dos 7 tanques do navio. Assim, quando os federais se aproximassem para ocupação do navio, bastaria abrir as outras válvulas e a embarcação afundaria mais rapidamente. Apesar destas atitudes serem do conhecimento do Capitão do Porto, este nada pode fazer, pois dependia de ordens especiais do Ministério da Marinha.

Esperava-se que às 18:00hs uma força do destroyer “Pianhy” e do Tiro Naval fossem ocupar o navio Eber. Os alemães esperavam que esta força fosse por terra até a Ribeira. Designaram um marinheiro e um músico para ficarem em terra e avisarem a aproximação dos ocupantes.

A pedido do Capitão do Porto, o secretário de polícia enviou 21 praças sob o comando do capitão Meira Pinheiro, para evitar que houvesse fugas durante a ocupação. Com a chegada, às 18:00hs, deste contingente policial, o sentinela alemão correu para praia, nadou poucos metros e avisou aos companheiros do navio. A tripulação que se encontrava a bordo encarregou-se de abrir todas as válvulas dos tanques e atear fogo para evitar a ocupação da embarcação.

Os policiais em terra prenderam o músico e o outro sentinela e os conduziram até o posto policial da Penha, mas não podiam intervir nos acontecimentos em mar.

O fogo se concentrava na popa do navio, então os alemães subiram ao convés e provocaram um novo incêndio na proa. Os tanques que foram abertos encheram em 40 minutos e causaram o adernamento do navio para seu estibordo, ficando emerso apenas os mastros e parte do costado. Enquanto isso, a tripulação fugia em direção a São Tomé em um bote.

As 19:00h partiu por terra uma força da Capitania do Porto composta de 30 praças do Tiro Naval. Quando chegou no local requisitou diversos botes para patrulhar a enseada. Encontraram o bote número 1 e número 2 do navio, porém estavam vazios. Enquanto os botes faziam a patrulha na área da enseada, os rebocadores Paraguassú e Aracajú patrulhavam nas medições externas à enseada de Itapagipe. As 22:00h foi designada outra patrulha para o mar, constituída pelos atiradores Arthur de Lemos Britto, Mendes Borges e Alcides Santos, este último comandante. Partiram em direção a Mont`Serrat. Pouco tempo de viagem depararam com outro bote de pescadores, porém à vela. Requisitaram a embarcação e após meia hora avistaram um silhueta de uma embarcação à remo. Com o favorecimento da brisa, em pouco tempo alcançaram a embarcação onde estavam os fugitivos. A primeira ordem de parada não foi obedecida, mas a segunda intimação com tiros para o ar foi o suficiente. Rumaram-se as duas embarcações para o Mont`Serrat. Com ajuda de populares conduziram os 18 fugitivos até Itapagipe. De lá foram escoltados pela polícia e pelos atiradores navais até a Capitania do Porto.

O navio Eber era uma canhoneira fluvial que foi construída em 1902/03 para frota alemã das colônias. Era uma embarcação de 64,1 m de comprimento total, 9,70 m de boca, 3,62 m de calado e tinha um deslocamento de 977 toneladas. Sua velocidade máxima alcançava 13,5 nós. Seu casco era de aço revestido com madeira e esta era revestida com uma chapa de latão e aparafusada nas cantoneiras. Possuía dois motores a vapor e seu eixo telescópico (veio propulsor) era vazado para diminuição do peso. Suas vigias eram de bronze. Assim como sua irmã SMS Panther dispunha de dois canhões de 10.5 cm, quatro de 88mm e mais seis canhões de tiro rápido de pequeno calibre e metralhadoras. Seu combustível, assim como a maioria das outras unidades de superfície das frotas mundiais, era o carvão de pedra. Tinha duas chaminés.

Hoje em dia, o navio se encontra 50% enterrado, adernado sobre boreste e muito danificado por bombas para matar peixes. E se a água fosse limpa, seria um fantástico mergulho de 6 m de profundidade a 50m de distância da praia.

Cortesia das primeiras fotos: Orlins Santana.

Primeira publicação em 25 de julho de 2007 às 8:23h.